O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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Ainda assim, quando fazia perguntas, além de ser silenciado, era repreendido. As
perguntas eram coisa do diabo!
Fred então, passou a engolir as perguntas, e tentou ser o bom filho. Mas, depois de um tempo, desenvolveu tiques nervosos e
dificuldades de fala. Os pais atribuíam isso a seu \u201cdesvio da palavra do Senhor\u201d. Ninguém pensava em submeter Fred a uma
terapia, já que seus sintomas eram causados por seu comportamento obstinado, pecaminoso e rebelde. Fred persistia com suas
dúvidas e seu ceticismo, embora, na maior parte das vezes, se mantivesse calado. Ainda assim, havia um preço a pagar, pois seus
pais estavam cientes de suas dúvidas - e seus colegas o atormentavam por seus movimentos involuntários e sua gagueira. Quando
foi aceito por uma faculdade na qual se inscreveu secretamente, os pais exigiram que ele fosse para uma faculdade vinculada aos
princípios de sua religião. Fred os enfrentou. Eles se recusaram a pagar por uma faculdade secular. Ele conseguiu uma bolsa de
estudos, e trabalhava para arranjar dinheiro para os livros e despesas pessoais. Fred era um aluno excepcional. Distanciou-se dos
pais. Depois de muita insistência, Fred passou a ir para casa em alguns feriados só para ouvir o desejo dos pais de que
frequentasse a igreja e se comportasse da maneira que eles queriam. Ele voltava para a faculdade e começava a beber e a passar
o tempo jogando cartas, divertindo-se nos bares e fazendo sexo. Encontrava-se em um estado de rebeldia motivado pela culpa. O
resultado foi um distanciamento cada vez maior entre ele e os pais - e de si mesmo.
Outro problema estava acontecendo em casa, mas desta vez Fred não era o responsável. Sua mãe tinha uma doença que
acarretara certa dificuldade de lidar com a realidade, e Fred sabia disso. Quando o pai gritava com a mãe para que ela rezasse,
Fred algumas vezes tentava salvá-la, transformando-se na causa da discussão dos pais. \u201cSe você cuidasse da sua vida e fosse à
igreja, todos nós estaríamos em uma situação melhor\u201d, era o que o pai dizia. A mãe foi parar várias vezes em instituições de saúde
mental. Toda vez que ela recebia alta, o pai dizia que a havia curado pela oração. Quando Fred se separou da família, continuou a
manter contato com o irmão mais novo, que ainda vivia com os pais e via Fred como um pária. Fred se sentia deprimido e sozinho,
sem nenhum apoio senão o dos colegas da faculdade, que sentiam pena dele. Mas isto não o ajudava a superar a alienação de si
mesmo. Os pais lhe disseram que se não voltasse a agir de acordo com a vontade deles, não seria mais bem-vindo em casa.
O primeiro emprego de Fred, assim que concluiu a faculdade, o conduziu para uma nova comunidade, onde não conhecia
ninguém. Ficava a muitos quilômetros de sua casa e da faculdade que frequentara. Embora se saísse bem no emprego, Fred se
sentia sozinho e infeliz. Conheceu algumas mulheres, mas, depois de certo tempo, descobriu que elas eram manipuladoras e
extremamente exigentes. Insistiam para que ele agisse da maneira que elas queriam. Fred estava vulnerável e precisando
relacionar-se com alguém, e não podia abrir mão daqueles relacionamentos facilmente. Sabia que não era aquilo que queria, mas
sentia que, à sua maneira, aquelas mulheres lhe ofereciam companhia, e pareciam interessadas nele. Escolhia mulheres que eram
vulneráveis e bastante carentes, e o que o atraía nelas era o desejo de salvá-las - tudo isso para diminuir sua própria culpa, para
convencer-se de que era um bom rapaz. Ele também escolhia mulheres que, assim como seus pais, eram exigentes e
manipuladoras. Era tentador, para Fred, continuar a se envolver com essas mulheres e, possivelmente, até casar-se com elas, mas
sabia que algo não ia bem. Então, ele procurou a terapia.
Quando começou a explorar seus sentimentos, tornou-se claro que todas as mulheres que escolhia eram réplicas de seus pais.
Eram rígidas. Tinham ideias fixas. E os sentimentos de Fred? Quem ligava para eles? Os sentimentos e pensamentos eram
desprezados. Fred estava sozinho e se sentia um fracassado. Estaria livre daqueles relacionamentos repetitivos e neuróticos com
mulheres, se conseguisse perceber sua compulsão para salvá-las. Ele se tornou consciente de sua atração latente pelo que lhe era
familiar, embora prejudicial. Não queria ficar sem uma companhia feminina, mas conseguiu perceber a mágoa que nutria dos pais, e
ficou feliz por ter-se dado conta de que algo estava errado no relacionamento com aquelas mulheres antes de se deixar envolver
totalmente por elas.
Tanto Valerie quanto Fred conseguiram evitar a sabotagem de seu futuro. Mas com Beatrice a situação era diferente. Ela
estava na casa dos 30, vivendo com os pais, em um trabalho burocrático, quando apareceu no meu consultório. Era uma mulher
inteligente, que havia feito alguns cursos em uma faculdade estadual, e havia se saído bem. Mas participara desses cursos de uma
maneira aleatória e esporádica, e quase sempre perdia o prazo final de entrega dos trabalhos. Estava sempre solicitando
prorrogações í permissão para fazer exames de segunda chamada. Não tinha planos de terminar a faculdade ou de conseguir um
diploma. Desde a época do ensino médio, ela recordava-se de dizer: \u201cEu poderia ter feito melhor, mas sempre deixo tudo para
depois. Faço as coisas da minha maneira, e no meu tempo.\u201d
Mas ela também acreditava que as coisas eram mais difíceis para ela do que para os outros. Não fazia nenhuma conexão da
tendência de adiar as coisas e sua hesitação, com a crença de que as coisas eram difíceis para ela. Mas também não era capaz de
ver que estava presa a um processo de perfeccionismo paralisante. As coisas eram mais difíceis para ela porque nada do que fazia
era suficientemente bom. Ela não se permitia terminar nada, porque sempre poderia ser melhor. O resultado era que nada tinha fim.
Ela precisava estar acima da crítica, e tinha de ser perfeita. Tinha poucos amigos e sua vida resumia-se a seu trabalho e a sua
numerosa família de avós, pais e irmãos, sobrinhas e sobrinhos. E aqui estava ela, a filha mais nova, e a única solteira. Estava
deprimida e sozinha, e sentia que estava presa a uma rotina, mas não conseguia ver uma saída. Começava projetos apenas para
abandoná-los depois. Quando alguém lhe sugeria alguma ideia para melhorar sua situação, ela não fazia nada para implementá-la.
Seus pais expressavam sua decepção por ela não ser mais sociável, sair com homens ou demonstrar mais iniciativa. Mas,
frequentemente, pediam que ela fizesse coisas para eles ou para a família. Ela cumpria a missão, fazendo as compras, limpando a
casa e ainda servindo de babá. Era como se isso fosse o seu quinhão na vida, e ela o aceitava passivamente. Não havia uma
coação, mas uma velada expectativa. \u201cMinha mãe me comparava a pessoas que eram bem-sucedidas. Se eu fosse bem-sucedida
em alguma coisa, meu pai expressava seu desagrado e minha mãe começava a brigar com ele. Nada do que eu faço agrada*meus
pais, então por que devo perder tempo com isso?\u201d
Havia outra tarefa cruel aguardando-a sorrateiramente no futuro, e Beatrice, ainda que não estivesse pronta para admitir, não
poderia fazer nada, a não ser tornar-se consciente de sua chegada: como a filha mais nova de sua extensa família, com os pais
ficando velhos, havia um entendimento tácito de que Beatrice cuidaria dos pais, substituindo-os em sua função; Em vez de sentir
que era importante para sua família, sentia-se sobrecarregada de obrigações que não eram reconhecidas. Logo no começo da
terapia, Beatrice me contou um sonho: \u201cPedi a um amigo que cantasse uma música. Ele cantou três músicas. Eu me surpreendi por
ele conseguir cantar sob o comando de alguém.\u201d As associações dela evidenciavam o sentimento de que tinha de executar as
coisas em casa sob comando, e que, se fosse bem-sucedida surpreenderia os outros. A crença era de que ela não podia ser bem-
sucedida, porque interpretava a expectativa dos outros como comando. Isto despertava suas defesas passivo-agressivas,