O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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e ela não
tentava nada. Outro sonho esclarecedor: \u201cAlgo está preso na minha garganta. Estou tossindo. Alguém bateu nas minhas costas.
Durante a noite, eu morri. Estava sangrando há bastante tempo.\u201d Beatrice estava se engasgando até a morte. Estava reprimindo
seus sentimentos havia muito tempo, e um tapinha nas costas não conseguiria aliviara sensação de estrangulamento. Ninguém
parecia avaliar seu sofrimento e cada um percebia suas queixas como algo insignificante.
Em concordância com \u201calgo está preso na minha garganta\u201d, Beatrice comentou que gostava de colecionar quinquilharias e
objetos sem valor, e que não conseguia se desvencilhar de nada. Ela acumulava tudo, seu quarto era uma bagunça, e não
conseguia abrir mão de nada, até de coisas que não tinham nenhuma serventia. Além disso, disse estar constantemente de dieta,
ganhando e perdendo peso. Às vezes, comia tudo o que estava à sua frente, e se ganhasse peso, entrava numa dieta rígida até
emagrecer novamente. Ela reprimia seus sentimentos até que estivesse prestes a explodir- e, então, fazia tudo novamente. Os
mecanismos de defesa passivo-agressivos dela se manifestaram na terapia. Seu objetivo era traçar um paralelo da sua frustração,
decepcionando-me.
Ela queria progredir. Mas era mais importante para ela não ir a lugar algum. E aqui estava o dilema - a batalha entre assentir às
exigências do status quo dos pais e aceitar a mudança, isto é, manter-se fiel à aceitação estranguladora e paralisante dos pais, ou
ser capaz de passar de um estado para outro e se identificar com as forças da mudança. Beatrice se identificava com o pai, um
homem que passou a vida trabalhando em um empreendimento arriscado. Obstinada e teimosamente, ele tentou provar que
conseguiria bons resultados de um negócio falido e, à medida que se fixava nesta ideia, arrastou a família para baixo com ele.
Beatrice seguiu o exemplo. Dava dois passos para a frente e dois para trás sem chegar a lugar algum, sentindo-se incapaz de
tentar qualquer coisa nova ou diferente. A falência do pai foi a sua falência, e a falência da terapia e do terapeuta. Quando
conseguia dar dois passos adiante, o pai negava o avanço. Ao mesmo tempo, ele a criticava por continuar no caminho para lugar
algum, o que equiparava a filha a ele.
Beatrice fez algum progresso, mas um progresso tão lento e tão dolorido que foi difícil perceber e partilhar. Muitos passos
adiante, inúmeros passos para trás. E assim é para a maioria dos que são prisioneiros desse tipo de repetição. O receio de
magoar os pais, a culpa por se libertar e por fazer valer seus direitos não podem ser superados facilmente. E, para muitos, essa
expressão de autonomia, que deveria ocorrer, gradativamente, durante o crescimento, não surge de maneira alguma. Para outros,
surge à custa de alienação e solidão. Em famílias nas quais os pais são autoritários, severos e inflexíveis as crianças crescem com
medo e ansiedade. A ameaça da culpa, da punição, do retraimento do amor e da aceitação, e, em alguns casos, do abandono
forçam as crianças a refrear a necessidade de experimentar e de cometer os próprios erros. Assim, elas permanecem em
constante dúvida sobre si mesmas, com inseguranças e relutantes em confiar nos próprios sentimentos. Sentem que não têm outra
saída e, em muitos casos, conforme mostramos, incorporam os padrões e valores dos pais, tornando-se pequenas cópias. Elas
seguem o comportamento prescrito, suprimindo sua individualidade e seus potenciais criativos. Afinal, a censura é inimiga da
criatividade! - uma estrada longa e árdua, mas em direção oposta a esse comportamento repressivo e repetitivo.
O problema é que muitos de nós obtêm mais ganhos se mantiver o status quo do que se partir para a mudança. Sabemos,
sentimos, queremos mudar. Não gostamos do modo que as coisas são, mas a perspectiva de causar transtorno na nossa
estabilidade« e no que nos é familiar é muito assustadora. Obtemos \u201cganhos secundários\u201d com nosso sofrimento, e não podemos
arriscar nos livrar deles. Lembro-me de uma conferência da qual participei sobre hipnose. Um casal de idosos se apresentou. A
mulher se locomovia com o auxílio de um andador, e o marido, com quem estava casada havia muitos anos, segurava-lhe o braço
enquanto ela andava. Fisicamente, não havia nada de errado com as pernas ou com o corpo que justificasse sua incapacidade de
andar. O professor, um especialista com vasta experiência em psiquiatria e hipnose, tentou hipnotizá-la. Ela entrou em estado de
transe, e ele começou a sugerir-lhe que ela era capaz de andar. Mas foi tudo em vão. Quando saiu do transe, ela ainda não
conseguia andar. A explicação foi que havia muitos ganhos assegurados com o fato de ter o marido a seu lado, cuidando e
realizando as vontades dela. Muitas pessoas se utilizam de enfermidades para perpetuar relacionamentos, mesmo à custa da
liberdade e da autonomia. As satisfações decorrem do fato de se ver limitado e incapacitado física ou psicologicamente. Isto,
geralmente, é uma das grandes forças dissuasivas do progresso na psicoterapia. É algo inconsciente, mas há mais gratificação na
perpetuação do que no seu abandono. Beatrice, apesar de toda a sua infelicidade, tinha medo de abdicar de sua posição na
família. Ela se sentia necessária, e ameaçada pela ideia de alcançar um patamar que contribuísse para obter um senso maior de
independência e de individualidade. Os riscos eram muito grandes, a perda do conhecido, do familiar era muito assustadora.
Dentro de todos nós há uma criança que quer experimentar o novo e o diferente, uma criança que tem uma curiosidade
saudável pelo mundo que a cerca, que quer aprender e criar. Em todos nós há necessidade de segurança, de proteção e de
estabilidade. Teoricamente, aqui se estabelece o equilíbrio entre os dois tipos de necessidade. A base da segurança está presente
e serve de fundamento, permitindo a exploração de novas ideias e novas aprendizagens e experiências. Mas, muito
frequentemente, a necessidade de segurança e de dependência superam a liberdade de explorar, e nós acabamos sufocando, e
até destruindo, os desejos criativos, a fantasia, a criança dentro de nós. Buscamos fontes que satisfaçam nossa necessidade de
dependência e de segurança, sacrificando a criança curiosa e imaginativa.
Há pessoas que correm muitos riscos, que tentam várias vezes a sorte e perdem, em detrimento de tudo o que está envolvido.
Mas há aqueles que têm aversão ao risco, e fazem muito pouco uso de seu talento e de suas habilidades, com medo de mudar a
visão da criança dependente e protegida que têm de si mesmos. A autonomia, a independência e o sucesso são apavorantes,
porque significam que não poderemos mais argumentar que nossas necessidades precisam estar protegidas. Para essas pessoas,
o sucesso não gera êxito. O sucesso traz mais trabalho, uma dependência maior, mais razões para abandonar o argumento de
seguir em frente, para muito longe, e explorar o novo e o diferente.
Capítulo 2
Repetição no casamento: contratos não escritos e comportamentos complementares
Amor. Todo mundo quer. Todo mundo precisa. Poemas épicos foram escritos sobre ele. Óperas grandiosas e melodias
simples foram cantadas em seu nome. Indivíduos já mataram por causa dele. É algo sem o qual ninguém pode viver.
Mas o que é exatamente essa coisa chamada amor? Quem pode realmente defini-la? É uma emoção, um simples sentimento
de abnegação e compromisso com o bem-estar do outro, tal como uma experiência religiosa? Ou é um tipo de loucura? Penso que
é possível identificar a veracidade de certas expressões comumente usadas para descrever o amor: \u201cLoucamente apaixonado,
louco por ela, ciúme doentio.\u201d Talvez algumas dessas frases indiquem um reconhecimento inconsciente de que o amor é um tipo de
loucura, um estado incomum da mente, um lapso de juízo ou de bom-senso. Certamente, alguém que \u201cse apaixona\u201d não consegue
se distanciar o suficiente, ao menos uma vez, para analisar, perguntar-se o que