Avaliação Psicológica
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Avaliação Psicológica


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pessoais à psicologia e aos psicólogos brasileiros, 
em particular tendo a avaliação psicológica como um dos motivos 
dessa aproximação, afirmo o enorme prazer em prefaciar este 
manual. Felicito os seus autores pela clareza e pelas preocupações 
pedagógicas colocadas na redação de seus capítulos. Precisamos 
destes manuais para que alunos, profissionais e acadêmicos ultra­
passem as resistências freqüentes ao estudo aprofundado da 
psicome trial
Leandro S. Almeida1
1 Professor Catedrático da Universidade do M inho. Doutorou-se em Psicologia pela U niver­
sidade do Porto, em 1987, tendo estagiado na U niversidade de Yale, Estados Unidos, e na 
Universidade C atólica de Lovaina, Bélgica, durante a preparação do doutoram ento. Leciona 
e pesquisa sobre inteligência, cognição e aprendizagem, incluindo a construção e validação 
de provas psicológicas, sendo que algum as dessas provas são estudadas e estão validadas no 
Brasil. Entre estas destaca-se a Bateria de Provas de Raciocínio (BPR5), em coautoria com 
Ricardo Primi, editada pela C asa do Psicólogo.
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Capítulo 1
Da testagem à Avaliação Psicológica: 
aspectos históricos e perspectivas 
futuras
Rodolfo A. M. Ambiel 
Sílvia Verônica Pacanaro
A palavra teste, tal como usada em português, originou-se do 
termo em latim testis, que significa testemunha, e, posteriormente, 
do inglês test, com o sentido de prova. Portanto, etimologica- 
mente, realizar um teste é realizar uma prova e dar testemunho 
de alguma coisa. Nesse sentido, quando se trata de testes psicoló' 
gicos, seu principal uso é como ferramenta na tomada de decisões 
que envolvem pessoas, a partir do desempenho ou do autorrelato 
em provas, questionários ou escalas que avaliem características 
psicológicas. Embora o surgimento dos testes psicológicos tenha 
sido registrado no início do século XX, muito antes disso já se 
fazia verificação e levantamento de características e habilidades
Avaliação psicológica: guia de consulta para estudantes e profissionais de psicologia
das pessoas, em diversas culturas e em diversos contextos, princi­
palmente em situações relacionadas a selecionar candidatos para 
algumas funções específicas (Urbina, 2007).
Considerando a longa história dos testes, suas contribuições 
para o desenvolvimento científico e da prática profissional na 
psicologia, o presente capítulo pretende fazer uma revisão histó­
rica sobre as origens e as aplicações da testagcm, destacando sua 
importância no processo de reconhecimento da profissão. Em 
seguida, serão realizadas algumas reflexões sobre a testagem e a 
avaliação psicológica especificamente no contexto brasileiro.
As origens da testagem psicológica
Há registros de que os procedimentos de avaliação variaram 
muito ao longo da história, com influências das crenças, das filoso­
fias e das posições políticas próprias de cada época e região, desde o 
período neolítico, datando de 12.000 a.C., passando pelas culturas 
egípcias e suméria (10.000 a.C.) até os dias atuais (Barclay, 1991; 
Van Kolck, 1981; Urbina, 2007). Por exemplo, em 200 a.C., na 
China, eram realizados concursos públicos, e as provas para seleção 
envolviam demonstrações de proficiência em música, uso do arco, 
habilidades de montaria, exames escritos sobre temas relacionados 
a leis, agricultura e geografia (Urbina, 2007). Especificamente 
sobre a testagem psicológica, os antecedentes da utilização de 
procedimentos de avaliação clínica recaem principalmente sobre 
a psiquiatria, com estudos na Alemanha e na França no início do 
século XIX, com foco no desenvolvimento de provas para avaliar 
o nível do funcionamento cognitivo de pessoas com danos cere­
brais e com outros transtornos (McReynolds, 1986).
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Da testagem à Avaliação Psicológica: aspectos históricos e perspectivas futuras
Do ponto de vista do desenvolvimento científico, os testes 
tiveram grande importância para a psicologia. Em meados do século 
XIX, os psicofísicos alemães Weber e Fechner deram os primeiros 
passos em direção ao reconhecimento da psicologia como disci­
plina científica, cujo grande precursor foi Wilhelm Wundt, com 
a criação do primeiro laboratório dedicado à pesquisa psicológica, 
em Leipzig, na Alemanha. Com o crescimento deste e de outros 
laboratórios no final do século XIX, a psicologia desenvolveu-se 
cientificamente de forma acelerada, e sua expansão ocorreu com 
o treinamento de vários pesquisadores de outros países europeus 
e dos Estados Unidos. Dentre os pesquisadores, estava Francis 
Galton, que se interessou pela mensuração das funções psicoló­
gicas, organizando um laboratório antropométrico em Londres, 
com o objetivo de coletar dados sobre características físicas e 
psicológicas das pessoas. A contribuição de Galton para a área 
da testagem ocorreu de algumas formas, tais como a criação de 
testes para medida de discriminação sensorial (barras para medir 
a percepção de comprimento); apito para percepção de altura do 
tom; criação de escalas de atitudes (escala de pontos, questio­
nários e associação livre) e o desenvolvimento e a simplificação de 
métodos estatísticos (Anastasi, 1977).
No mesmo sentido, o psicólogo americano James M. Cattell, 
influenciado por Galton, acreditava que a chave para a compreensão 
do funcionamento da mente estava nos processos elementares, 
e, em seus estudos, deu ênfase nas medidas sensoriais. Cattell 
elaborou uma bateria com testes que investigava áreas relacio­
nadas à acuidade sensorial, ao tempo de reação, à bisseção visual 
de linha e aos julgamentos sobre a duração de intervalos curtos de 
tempo, e, também, era aplicada em estudantes universitários com
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Avaliação psicológica: guia de consulta para estudantes e profissionais de psicologia.
o objetivo de predizer-lhes o sucesso acadêmico (Logan, 2006). 
Contudo, foi em 1900 que Binet e Simon, na França, começaram 
a tecer uma série de críticas aos testes até então utilizados, afir­
mando que eram medidas exclusivamente sensoriais. O foco da 
crítica era sobre o fato de que, embora permitissem maior precisão 
nas medidas, os testes sensoriais não tinham relação importante 
com as funções intelectuais, fazendo somente referências a habili­
dades muito específicas, quando deveriam ater-se às funções mais 
amplas como memória, imaginação, compreensão, entre outras.
Cinco anos depois, os mesmos pesquisadores franceses publi­
caram o primeiro teste para a mensuração da capacidade cognitiva 
geral, a Escala Binet-Simon, constituída por trinta itens (dispostos 
em ordem crescente de dificuldade) com o objetivo de avaliar 
algumas funções como julgamento, compreensão e raciocínio, 
detectando, assim, o nível de inteligência em crianças das escolas 
de Paris. O teste foi desenvolvido a pedido do departamento de 
educação do governo francês, a fim de identificar as crianças 
com deficiência intelectual e compor um sistema diferenciado de 
educação para elas. Essa escala passou por revisão, ampliação e 
aperfeiçoamento em 1908 e em 1911, um ano antes de Wilhelm 
Stern propor o Quoeficiente Intelectual (QI), que viria a ser 
refinado por Lewis Terman, na Universidade de Stanford, nos 
Estados Unidos, em 1916. Para a obtenção do QI, que exprime 
numericamente e de forma padronizada a capacidade intelec­
tual dos avaliandos, Stern e Terman sugeriram um cálculo que se 
baseava na divisão da idade mental (IM) pela idade cronológica 
(IC) multiplicada por cem. Seus estudos sugeriram que, quando a 
idade mental ultrapassasse a idade cronológica, a razão resultante 
levaria a um escore acima de cem. Por outro lado, quando a idade
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Da testagem à Avaliação Psicológica: aspectos históricos e perspectivas futuras
cronológica ultrapassasse a idade mental, levaria a um escore 
abaixo de cem (Sternberg, 2000).
Os estudos de Terman, publicados em 1916, além de terem 
proposto um avanço para os