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Política Social e Seguridade completa

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estava em descontro-
le. Em 1953, finalmente, foi criado o Ministério da 
Saúde, justificado pelo crescimento das ações de 
saúde pública.
O processo de industrialização provocou, 
progressivamente, um esvaziamento das ações 
campanhistas e um importante crescimento da 
atenção médica através da Previdência Social. 
Essa dinâmica contribuiu para a conformação de 
um novo modelo na saúde: o modelo médico-
-assistencial privatista.
Ao longo das primeiras décadas do século 
XX, as pessoas que necessitavam de assistência 
médica eram obrigadas a comprar serviços de 
profissionais liberais. Aos despossuídos restava 
principalmente o auxílio das Santas Casas de Mi-
sericórdia4, destinadas ao tratamento e ao ampa-
ro de indigentes e pobres. 
Como ficou dito, o incentivo à industriali-
zação enfraqueceu o modelo econômico agroex-
portador, levando ao aparecimento da assistência 
médica da Previdência Social, instituição datada 
de 1923, em virtude da aprovação da Lei Elói Cha-
ves. Nessa ocasião, criou-se a primeira Caixa de 
Aposentadoria e Pensões (CAP), que era destina-
da aos ferroviários; a ela seguiram-se outras CAPs 
formadas por categorias urbanas com maior po-
der de mobilização e pressão.5
As CAPs eram organizadas por empresas e 
administradas e financiadas por empresários (1% 
da renda) e trabalhadores (3%). Em 1930, exis-
tiam 47 CAPs, que davam cobertura para somen-
te 142.464 beneficiários. Em 1936, já existiam 183 
CAPs, mas a maioria da população permanecia 
excluída do acesso aos serviços de saúde, restan-
do-lhes a desassistência, a compra de serviços 
privados ou o amparo das instituições de bene-
ficência.
A partir do Estado Novo de Getulio Vargas, 
sob a doutrina do seguro com orientação da eco-
nomia dos gastos, teve início a implantação dos 
Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs), es-
truturados por categorias profissionais e não mais 
por empresas. O primeiro IAP foi o dos marítimos, 
criado em 1933, seguindo-se o dos comerciários 
e bancários (1934), o dos industriários (1936) e 
o dos servidores do Estado e trabalhadores de 
transportes e cargas (1938).
Além disso, a industrialização acelerada 
vivida pelo país e a migração da popu-
lação do campo para as cidades, prin-
cipalmente a partir da década de 1950, 
fez com que a demanda por assistência 
médica aumentasse drasticamente. Era 
preciso atuar sobre o corpo e garantir a 
capacidade produtiva do trabalhador. Já 
não bastava sanear o espaço de circula-
ção das mercadorias. (ALMEIDA; CHIO-
RO; ZIONI, 2001, p. 23).
O sanitarismo campanhista já não respon-
dia às necessidades de uma econômica industria-
lizada, que foi sendo concebida concomitante-
mente com a mudança da Previdência Social. Em 
1960, foi aprovada a Lei Orgânica da Previdência 
Social, que garantiu a uniformização dos benefí-
cios. Mas as condições concretas para a implanta-
4 A primeira Santa Casa fundada no Brasil foi a de Santos, 1543. Em praticamente todos os povoados foram sendo instaladas 
entidades filantrópicas.
5 Esse período é caracterizado por várias greves e intensa mobilização dos trabalhadores e pelo movimento sindical, sob forte 
influência dos imigrantes europeus e dos movimentos socialistas e anarquistas.
AtençãoAtenção
Durante o segundo governo de Vargas e o de JK, 
os IAPs tiveram considerável ampliação em sua 
estrutura, principalmente a hospitalar. A maioria 
dos hospitais públicos brasileiros foi construída 
nesse período. Concomitantemente, adotava-se 
cada vez mais o modelo de saúde americano, 
incorporando-se indiscriminadamente a tecno-
logia numa visão de saúde hospitalocêntrica 
e, naturalmente, de alto custo, favorecendo o for-
talecimento da indústria de medicamentos e de 
equipamentos hospitalares. 
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ção do novo modelo surgiram com a instauração 
da ditadura militar em 1964, quando se passou a 
incrementar o papel regulador do Estado e a ex-
pulsar os trabalhadores do controle da Previdên-
cia Social. 
Os IAPs foram concentrados num único 
órgão, o Instituto Nacional de Previdência Social 
(INPS), em 1967, uniformizando benefícios bas-
tante diferenciados entre as corporações. Essas 
modificações foram possíveis em função do cará-
ter autoritário do regime, assim como em função 
do apoio popular conferido ao regime de exce-
ção, graças ao curto, mas intenso período do “mi-
lagre econômico”. Não se deve esquecer também 
a adesão e o apoio de vários atores (tecnoburo-
cracia, donos de serviços, indústria médica etc.) 
aos militares e ao modelo proposto.
Ao mesmo tempo em que se ampliava a 
cobertura, desnudava-se o caráter discriminató-
rio da política de saúde, pois eram cada vez mais 
nítidas as desigualdades quanto ao acesso, à qua-
lidade e à quantidade de serviços destinados às 
populações urbanas e rurais, entre as diferentes 
clientelas dentro de cada uma delas. Surgiram 
também diferentes formas de contratação do se-
tor privado.
A partir de 1974, terminando o período do 
“milagre econômico”, que garantia base de apoio 
social ao regime, inicia-se lenta e progressiva-
mente a abertura política, questionando-se a po-
lítica social do governo e a repercussão dos efei-
tos do modelo econômico adotado em relação à 
saúde. A partir daquele ano, ocorreu a separação 
da área do trabalho (que, até então, era a respon-
sável pela assistência médica do país) da área da 
previdência, com a criação do Ministério da Previ-
dência e Assistência Social (MPAS). 
A lógica desse sistema que caracterizou a 
década de 1970 era baseada no Estado (como 
grande financiador da saúde, através da Previ-
dência Social6), no setor privado nacional (presta-
dor dos serviços de atenção médica) e no setor 
privado internacional (produtor de equipamen-
tos biomédicos e medicamentos). Mas, nesse pe-
ríodo, esse modelo já começava a apresentar gra-
ves problemas: crise financeira, fraudes, desvio 
de verbas, aumento dos gastos com internações, 
exclusão de parcelas expressivas da população, 
incapacidade para alterar perfis de morbimorta-
lidade, entre outros. 
A tendência à privatização da assistência 
médica previdenciária recrudesceu. Em 1970, o 
INPS contava com apenas 25 hospitais próprios, 
mas mantinha convênios com 2.634 hospitais pri-
vados:
Essa situação resultava da política adota-
da pelo famoso Plano Nacional de Saúde, 
que pretendeu descentralizar a assistên-
cia médica, transferindo-a da previdên-
cia para o Ministério da Saúde. Mas essa 
medida, que em tese era correta e veio 
a ser adotada pela Constituição de 1988 
com o SUS (Sistema Único de Saúde), 
estava subordinada ao princípio da pri-
vatização, apoiada por financiamentos 
públicos e prevendo, inclusive, o paga-
mento dos serviços médicos pelos tra-
balhadores, de acordo com uma escala 
salarial. A privatização, que era apenas 
complementar do sistema, tornou-se re-
gra. (MELLO, 1977, p. 8).
Segundo Bravo (2000, p. 101), “na década 
de 1950 e início da de 1960, com o aumento dos 
gastos com a saúde pública, buscava-se melhorar 
as condições sanitárias da população em geral, 
com ênfase nos quadros de parasitose e diminui-
ção da morbidade e mortalidade infantil.”
Nos anos 1970, a política nacional de saúde 
passou por tensões políticas em face da neces-
sidade de ampliação dos serviços, dos recursos 
financeiros e de sua disponibilização, dos interes-
ses empresariais e da emergência do movimento 
sanitarista. Nessas condições, o Ministério da Saú-
de, ainda que de forma limitada, retornou à im-
plantação de medidas de saúde pública.
6 É preciso lembrar o papel secundário, tanto do ponto de vista político quanto do ponto de vista dos recursos financeiros 
destinados ao Ministério da Saúde nesse período, restrito ao ineficiente trabalho de controle de endemias e às ações tradi-
cionais