Aula Nota 10 1
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Aula Nota 10 1


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o livro da experiência
dos professores brasileiros, três educadoras de incontestável conhecimento sobre
a realidade das escolas públicas do país trabalharam diligentemente na adapta-
ção de trechos inteiros desta obra: Guiomar Namo de Mello, Paula Louzano e
Silvia Juhas.
Para além das técnicas propriamente ditas, gostaríamos de chamar atenção
para algumas reflexões mais amplas que o livro também provoca e que são de
extrema importância para o debate educacional no Brasil. Quatro aspectos são
especialmente significativos:
l A escola pode e deve ampliar as oportunidades para os mais pobres. Todos
os professores observados por Lemov trabalham com alunos vulneráveis.
Portanto, os professores exemplares deste livro são exatamente aqueles
que conseguem resultados académicos significativos nesse contexto. É
por isso que Lemov defende de forma quase obsessiva que todos os alu-
nos, sem exceção, estejam aprendendo sempre. Para o Brasil, com seu
abismo educacional entre ricos e pobres, ter essas ideias como guia seria
de enorme valia e de um grande poder transformador.
l Tudo em uma escola - inclusive o uso do tempo - deve estar a serviço do
aprendizado do aluno. Por isso mesmo, nenhuma técnica tem um fim em
si mesma. Elas estão todas voltadas para promover o desenvolvimento
cognitivo, aprimorar habilidades, transmitir conteúdos. A preocupação
do autor com o tempo é também uma preocupação com o aluno: cada
minuto perdido é um minuto a menos de aprendizagem. A escola brasi-
leira também teria muito a ganhar se apropriando desse poderoso con-
ceito.
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l O bom é o que funciona. Todas as técnicas listadas decorrem de observação
empírica, da constatação in loco do que dá certo em uma sala de aula.
Assim, o livro muitas vezes vai na contramão da teoria e se choca com
alguns mitos educacionais. Trata-se de outra perspectiva que a educação
brasileira, muito pouco ligada ao empírico, poderia aproveitar. Um dos
principais mitos contestados pelo livro é o de que o professor deve deixar
o aluno livre para aprender, evitando conduzi-lo. Lemov defende exata-
mente o contrário. As operações mentais que favorecem a apropriação
ativa do conhecimento dependem de uma intervenção do professor, in-
tencional e planejada. Ou seja, o caminho para a construção autónoma
do conhecimento precisa ser estruturado e guiado pelo professor.
l  criatividade do professor não é dom, intuição ou inspiração. Ela se cons-
titui no exercício das práticas que organizam o tempo e o espaço da
sala de aula, como tão bem Lemov expressa nesta afirmação: "Eles (os
professores) conseguem mudar o mundo a partir de suas salas de aula não
porque nasceram com poderes especiais, mas porque dominam os detalhes
da arte. Estavam determinados a se tornarem artesãos e, com tempo e prá-
tica, agora são artistas".
Por fim, mais do que qualquer outra coisa, este é um livro que atribui ao
professor o papel de peça-chave no processo de ensino e aprendizagem. E um
livro que busca orientar esses profissionais, justamente por acreditar na nobreza
e relevância da missão diária que eles desempenham.
Compartilhamos essa visão e torcemos para que este livro possa ajudá-lo a
fazer um trabalho cada vez melhor em sua sala de aula.
Boa leitura!
Ilona Becskeházy e Guiomar Namo de Mello
NTRODUÇÃO
A ARTE DE ENSINAR E
SUAS FERRAMENTAS
O bom ensino é uma arte. Em outras artes - pintura, escultura, literatura -, gran-
des mestres alavancam seu talento com ferramentas básicas para transformar o
material mais cru (pedra, papel, tinta) no património mais valioso da sociedade.
Quem olharia para um cinzel, um martelo e uma lixa e imaginaria essas ferra-
mentas produzindo o Davi, de Michelangelo?
A obra-prima depende do domínio e da aplicação de habilidades fun-
damentais, individualmente aprendidas por meio de estudo diligente. Você
aprende a bater no cinzel com o martelo. Você refina essa habilidade com o
tempo, aprendendo o ângulo certo para a batida e a posição correia do cin-
zel. Anos depois, se e quando seu trabalho chegar a um museu, os visitantes
vão conversar sobre qual escola de pensamento ou qual teoria ele representa.
É muito menos provável que reflitam sobre como a habilidade com o cinzel
permitiu a visão da obra. Mas, embora muita gente possa ter excelentes ideias
para produzir obras de arte, só a habilidade do artesão pode tornar reais es-
sas ideias. Por trás de todo artista, há um artesão. E, se nem todo mundo que
aprende a usar um cinzel vai criar um Davi, quem não aprender tampouco
fará muito mais do que umas poucas marcas na pedra.
Quando eu estava na faculdade e viajei pelo exterior, vi os cadernos escolares
de Picasso no Museu Picasso, em Barcelona. O que eu lembro melhor são os
esboços nas margens das páginas. Não pense que eram blocos de desenho, não.
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Eram cadernos como os de qualquer aluno: página após página de anotações de
aula. Mas os esboços das margens registraram para a posteridade o rosto de um
professor ou a mão do próprio Picasso segurando um lápis, com perspectiva, tra-
ço e sombra perfeitos. Eu pensava que Picasso era o rei da abstração, do simbo-
lismo que tornava irrelevante a habilidade para desenhar realisticamente e com
acuidade. Seus esboços, preenchendo as margens dos cadernos, testemunham
seu domínio dos fundamentos de sua arte e sua necessidade constante de refi-
nar suas habilidades. Mesmo nos momentos de folga das suas aulas, ele estava
sempre empilhando os tijolinhos para construir sua técnica. Ele era primeiro um
artesão e depois, um artista, como atestam os 178 blocos de rascunho preenchi-
dos durante sua vida. O domínio diligente das ferramentas da arte precedeu - e
talvez tenha permitido - o que veio depois.
Este livro é sobre as ferramentas da arte de ensinar. Mais especificamente,
é sobre as ferramentas necessárias para o desafio mais importante do ensino:
o trabalho em escolas públicas, especialmente as dos bairros periféricos, que
atendem alunos nascidos na pobreza e, com frequência, diante de uma janela
de oportunidade que se fecha rapidamente. Nessas escolas, o preço do fracasso
é alto e os desafios são imensos. Lá, os professores trabalham numa encruzilha-
da onde, na maior parte dos casos, os problemas sociais são gritantes, óbvios
e avassaladores. Mas é também nessas escolas que pode ocorrer - e ocorre -
aquele tipo de alquimia que muda vidas. Infelizmente, essa alquimia acontece
raramente e passa despercebida. Mas está presente de forma consistente, graças
a um pequeno número de professores exemplares e de diretores visionários, que,
juntos, conseguem construir salas de aula e escolas que têm o poder de abrir a
janela da oportunidade novamente. Se você está lendo este livro e é um professor
que quer melhorar sua arte, meu objetivo é dar-lhe as ferramentas para fazer isso
- tornar-se um daqueles professores capazes de destravar o talento e a habilidade
latentes em seus alunos e alunas, sem se preocupar com o fato de que muitos
professores ou escolas tentaram fazer isso antes, sem sucesso.
Durante toda a minha carreira em escolas públicas, como professor, for-
mador, consultor e gestor, tive o privilégio de observar inúmeros professores
excelentes, muitas vezes em situações que assoberbariam a maioria de nós. Esses
professores extraordinários fazem rotineiramente o que mil programas sociais
consideraram impossível: eliminar a desvantagem escolar dos pobres, transfor-
mar os alunos em risco de fracassar em bons alunos, que acreditam no estudo,
reescrevendo assim a equação da oportunidade. E, embora cada um desses pro-
fessores seja único, sua maneira de ensinar tem certos elementos em comum.
Depois de anos de observação e tendo lido a pesquisa de Jim Collins, autor de
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Feitas para Durar e Empresas Feitas para Vencer, dois livros altamente elogiados,
eu comecei a montar uma lista do que é que