Aula Nota 10 1
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produza os melhores resultados. A despeito disso, você
pode cair na tentação de pular um capítulo porque você já é bom no tópico ali
discutido, mas eu sugiro que você estude esse capítulo com atenção redobrada
justamente porque você é bom nisso. Um pouquinho de polimento na sua técnica
pode ser uma coisa que você aplique rápida e instintivamente, e pode tornar você
excepcional - ou mais excepcional. Em outras palavras, invista também naquilo
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em que você já é forte. Maximizar as suas forças pode ser tão ou mais importante
do que eliminar todas as suas fraquezas.
BOM É O QUE FUNCIONA
Muitas das técnicas sobre as quais você vai ler neste livro podem, à primeira
vista, parecer comuns, corriqueiras, até decepcionantes. Nem sempre elas são
especialmente inovadoras. Nem sempre elas são brilhantes do ponto de vista
intelectual. As vezes elas se chocam com as teorias educacionais. Mas lembre-se
das realizações do insignificante cinzel. Em mãos bem treinadas, ele cria rostos
que emergem da pedra e que são muito mais surpreendentes do que a ferramenta
mais bonita e mais sofisticada do mundo.
Um dos problemas do ensino é que há uma tendência para avaliar o que
fazemos em sala de aula com base na inteligência da iniciativa, como ela se
alinha com uma filosofia mais abrangente ou até quão satisfatória ela é, não ne-
cessariamente quão eficaz é para melhorar o desempenho do aluno. As técnicas
descritas aqui podem não ser glamurosas, mas funcionam. Como consequência,
elas proporcionam resultados que mais do que compensam sua aparência oca-
sionalmente humilde.
Há indicações da eficácia dessas ferramentas não apenas no sucesso avas-
salador das salas de aula onde ensinam professores com quem aprendi essas
técnicas, mas também em quase toda escola pública onde foram aplicadas.
Nestas, geralmente há umas poucas salas de aula onde os mesmos alunos que,
momentos antes, estavam fazendo a maior bagunça, de repente sentam-se, pe-
gam seus cadernos e, magicamente, comportam-se e trabalham como verdadei-
ros estudantes. Em cada uma dessas classes está uma professora - uma artesã
cuja atenção à técnica e à execução a diferencia da maioria de seus pares. Os
dados sobre esse fenómeno, no agregado, são muito claros. A sala de aula é
a unidade na qual, comprovadamente, se materializam os mais altos níveis de
sucesso em escolas públicas e em redes ou sistemas de ensino. A sala de aula
bem-sucedida aparece com mais frequência nos dados do que a escola bem-
-sucedida ou rede de escolas bem-sucedida, embora escolas e sistemas escola-
res controlem e gerenciem muito mais variáveis que poderiam levar ao sucesso
académico (por exemplo, a escolha do currículo). Isso ocorre porque é na sala
de aula que a técnica varia e, embora idealmente a sua aula vá maximizar tan-
to a estratégia como a técnica, é só você que controla a técnica. Portanto, não
importam as circunstâncias que você enfrenta em seu trabalho e não importam
quais decisões estratégicas lhe foram impostas - você pode ser bem-sucedido.
E isso, por sua vez, significa que você tem a obrigação de ser bem-sucedido.
Prefácio / Introdução 23 f l J
Eu dei nomes às técnicas descritas neste livro. Pode parecer uma bobagem à
primeira vista, mas é uma das partes mais importantes do livro. Se não houvesse
a palavra democracia, por exemplo, seria mil vezes mais difícil obter e manter
uma coisa chamada "democracia". Estaríamos eternamente mergulhados na
ineficiência bem na hora em que seria mais necessário agir - "Sabe aquela coisa
de que a gente estava falando outro dia? Aquela coisa de todo mundo poder dar
sua opinião e participar...". Para trabalhar bem, professores e gestores também
devem poder falar entre si sobre um conjunto de ideias definidas de maneira
clara e objetiva. Eles precisam de um vocabulário compartilhado para que pos-
sam analisar o que acontece em suas salas de aula. Ao vocabulário que temos
parece faltar tanto a especificidade como a consistência. Eu acho que nomes são
importantes e vale a pena usá-los. Idealmente, esses nomes vão permitir que você
fale não tanto deste livro, mas do seu próprio jeito de ensinar - e do jeito de seus
colegas - com uma linguagem específica e clara.
A IRONIA DAQUILO QUE FUNCIONA
Espero que você perceba uma das maiores ironias contidas neste livro: a de que
muitas das técnicas capazes de obter os melhores resultados em sala de aula con-
tinuam basicamente invisíveis para nossas teorias e nossos teóricos da educação.
Considere um dos melhores mecanismos para obter um bom desempenho aca-
démico entre os alunos: rotinas cuidadosamente construídas e executadas para
distribuir e recolher materiais de aula. Sempre começo minhas capacitações de
professores com um vídeo do meu colega Doug McCurry, fundador da escola
charter Amistad Academy, em New Haven, no estado de Connecticut, e da rede
de escolas charter Achievement First, duas organizações com uma reputação
nacional por sua excelência nos Estados Unidos. No vídeo, McCurry ensina seus
alunos a distribuir materiais no primeiro ou segundo dia de aula. Ele leva cerca
de um minuto para explicar o jeito certo de fazer isso (distribuição ao longo
das fileiras; começar quando ele mandar; só a pessoa passando o papel pode,
se necessário, levantar de seu lugar; e assim por diante). Em seguida, os alunos
praticam. McCurry cronometra a prática: "Dez segundos. Muito bem. Vamos
ver se conseguimos recolher em oito segundos". Os alunos, aliás, ficam muito
contentes. Eles adoram ser desafiados e adoram melhorar. Eles sorriem.
Inevitavelmente, há célicos quando mostro esse vídeo. Eles acham que não é
isso que um professor deve fazer em sala de aula. Eles acham que é humilhante
obrigar os alunos a fazer tarefas banais. A atividade trata os alunos como robôs,
acusam. Faz lavagem cerebral, quando deveria estar libertando suas mentes. Mas
eu gostaria que você considerasse tais objeções à luz de certos números. Parta
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da premissa que, em média, uma turma passe adiante ou recolha papéis e outros
materiais 20 vezes por dia e que uma turma típica leva, em média, um minuto e
20 segundos para fazer isso. Se os alunos do McCurry conseguem fazer isso em
20 segundos, eles economizam 20 minutos por dia (um minuto a cada vez). Esse
tempo extra pode ser usado para estudar as causas da Segunda Guerra Mundial
ou para aprender a somar fracões com denominadores diferentes. Agora multipli-
que esses 20 minutos diários pelos 190 dias letivos que têm as escolas americanas
e você descobrirá que o McCurry acabou de ensinar seus alunos uma rotina que
vai lhe render 3.800 minutos de instrução adicional ao longo do ano escolar. Isso é
mais do que 63 horas ou quase oito dias adicionais de instrução - tempo suficiente
para unidades inteiras sobre o feudalismo ou geometria analítica! Supondo que,
tudo somado, o McCurry gaste uma hora ensinando e praticando essa rotina, seu
pequeno investimento vai dar um retorno em tempo de aprendizado da ordem de
cerca de 6.000%, libertando as mentes de seus alunos milhares de vezes mais.
Como o tempo é o património mais precioso da escola, a gente pode falar
de outro jeito. McCurry simplesmente aumentou em 4% o recurso mais escasso
de sua escola - o tempo que a escola já comprou na forma de salários de profes-
sores. Ele fez um pequeno milagre. Agora combine isso com os efeitos colaterais
de adquirir fortes hábitos e rotinas: a percepção de disciplina na classe, que se
transforma em realidade; e a capacidade que essa rotina tem de sempre reforçar
com os alunos a ideia de que, nessa classe, se trata de fazer bem feitas até as
pequenas coisas e buscar sempre melhorar. Eis uma técnica poderosa, que é co-
mum a todas as classes e escolas de melhor desempenho que eu vi. Infelizmente,
essa técnica espantosamente eficiente - tão eficiente que ela é quase um impera-
tivo moral para que os professores a utilizem - permanece aquém da percepção