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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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“La	Marseillaise”
(Hino	nacional	francês)
Allons	enfants	de	la	Patrie
Le	jour	de	gloire	est	arrivé.
Contre	nous,	de	la	tyrannie,	L’Etendart	sanglant	est	levé.	[bis]	Entendez-
vous,	dans	nos	campagnes	Mugir	ces	féroces	soldats?
Ils	viennent	jusque	dans	vos	bras
Egorger	vos	fils,	vos	compagnes.
Aux	armes,	citoyens!	Formez	vos	bataillons;	Marchons,	marchons!
Qu’un	sang	impur	abreuve	à	nos	sillons.
Filhos	da	Pátria,	marchemos1
O	dia	da	glória	chegou!
Contra	nós,	o	estandarte	ensangüentado	da	tirania	ergueu-se.	[bis]
Ouvis	nos	campos	rugir
esses	ferozes	soldados?
Vêm	eles	até	vós
degolar	vossos	filhos	e	vossas	mulheres!	Às	armas,	cidadãos!	Formai	os
batalhões!	Marchemos,	marchemos!
Nossa	terra	do	sangue	impuro	se	saciará!
O	abismo	nos	contempla	de	volta.
Túmulo	de	Napoleão,	Hôtel	des	Invalides,	Paris
©	Giraudon	/	Art	Resource,	NY
Frisson
Visite	 aquele	 chalé	 em	 Berchtesgaden,	 no	 sul	 da	 Baviera.	 Apesar	 do
panorama	 bucólico,	 você	 não	 sentirá	 senão	 repugnância	 por	 seu	 mais
famoso	morador	nazista.	Vá	à	Praça	Vermelha.	É	possível	que	a	Revolução
de	 Outubro	 lhe	 provoque	 alguma	 palpitação,	mas	 sentirá	 apenas	 ódio	 do
homem	que	 a	 traiu,	 com	a	 tirania	 assassina	que	 exerceu	 sobre	o	 império
soviético	 de	 1923	 a	 1953.	 Indo	 ao	memorial	 ao	 estilo	 de	mausoléu	 ao	 rei
Luís	XVI	e	à	rainha	Maria	Antonieta	erguido	no	8o	arrondissement	de	Paris,
talvez	 sinta	 reverência	 por	 um	 passado	 rico,	 mas	 ele	 parecerá
irrecuperavelmente	 distante	 e	 remoto.	 Quanto	 ao	 Panthéon	 Republicano
dedicado	aos	“grandes	homens”	da	França,	o	lugar	o	desapontará	por	seu
vazio	 espiritual	 —	 é	 sem	 dúvida	 mais	 vazio	 que	 a	 igreja	 paroquial	 de
Sainte-Geneviève	cujo	lugar	ocupou.
Agora	 visite	 Les	 Invalides	 —	 complexo	 que	 reúne	 um	 hospital	 para
veteranos,	 um	 museu	 do	 exército	 e	 uma	 grande	 igreja,	 na	 margem
esquerda	 do	 Sena,	 em	 Paris.	 Ali	 jaz	 Napoleão	 Bonaparte,	 num	 sarcófago
gigantesco,	 pousado	 sobre	um	alto	pedestal	 que	 emerge	das	profundezas
da	igreja	de	Saint-Louis.	O	túmulo	situa-se	exatamente	em	baixo	da	cúpula
grandiosa,	 de	 mais	 de	 60m	 de	 altura.	 O	 visitante	 o	 contempla	 de	 cima,
apoiado	numa	balaustrada	de	mármore.
Visitar	 Les	 Invalides	 é	 como	 visitar	 o	 Lincoln	 Memorial:	 em	 meio	 ao
mármore	 fúnebre	 e	 ao	 espaço	 geométrico	 abafado, 	 há	 algo	 vivo.
Reverenciamos	 Lincoln,	 lamentamos	 não	 o	 ter	 conhecido	 ou	 ao	 menos
ouvido,	 orgulhamonos	 por	 ser	 parte	 da	 república	 que	 o	 gerou,	 e,	 se
nascemos	 ao	 norte	 da	 linha	Mason-Dixon,	 de	 descender	 dos	 que	 lutaram
por	ele.
Quando	visitamos	le	tombeau	de	l’Empereur, 	porém,	há	alguma	coisa	de
diferente.	Aqui,	o	abismo	nos	contempla	de	volta.
O	 sarcófago	 imperial	 é	 uma	 suntuosa	 laje	 de	 pórϐiro	 —	 dura	 e	 cara
rocha	 cristalina	 —	 avermelhada,	 esculpida	 como	 uma	 onda,	 uma	 forma
recortada	de	um	bloco	contínuo:	densa	e	pesada,	congelada	na	pedra	e	não
obstante	 a	 encapelar-se	 eternamente.	 A	 pedra	 tem	 uma	 cor-de-carne
inesperada,	quase	 chocante,	não	os	 costumeiros	branco	ou	preto,	o	que	a
relegaria	mais	facilmente	a	um	passado	morto.	É	lívida	e	viva,	da	cor	de	um
peito	 esfolado	 numa	 autópsia,	 a	 expor	 um	 coração	 cru,	 ainda	 pulsante.	 O
túmulo	 é	 notavelmente	 moderno	 para	 a	 época	 em	 que	 foi	 construído,	 a
década	 de	 1850,	 completamente	 impessoal,	 nada	 pitoresco;	 não	 tem
nenhuma	história	a	contar	ou	simbolismo	a	comunicar.	Não	é	nem	mesmo
caracteristicamente	francês,	mais	parecendo	o	monolito	de 	2001	de	Stanley
Kubrick	—	imóvel	e	poderoso,	consciente	e	vivo,	domina	o	impressionante
cenário	 eclesiástico	 e	militar	 em	que	 se	 encontra.	 Esquecemo-nos	 de	 que
estamos	 numa	 igreja	 e	 num	 hospital,	 e,	 apesar	 da	 presença	 de	 todas	 as
bandeiras	de	batalha,	troféus	que	o	guia	Michelin	nos	avisou	que	veríamos,
chegamos	a	esquecer	que	se	trata	de	um	estabelecimento	militar.
Se	 a	 grande	 presença	 não	 está	 retratada,	 é	 porque	 o	 arquiteto	 do
túmulo,	 Louis-Tullis	 Visconti	 (1791-1853),	 tinha	 perfeita	 consciência	 da
insigniϐicância	 da	 caracterização	 nesse	 caso.	 Diferentemente	 de
historiadores	 e	 escritores,	 o	 arquiteto	 satisfez-se	 em	 evocar,	 sem	 tentar
descrever	 ou	 (menos	 ainda)	 explicar,	 e	 nesse	 aspecto	 logrou	 seu	 intento
com	uma	força	nietzschiana:	o	poder,	a	vontade,	a	ameaça,	a	emoção	estão
todos	 aqui.	 Pois	 como	 descrever	 ou	 explicar	 esse	 homem,	 embora	 isso
tenha	sido	incessantemente	tentado	—	e	vá	ser	tentado	mais	uma	vez	nas
páginas	 deste	 livro?	 Como	 caracterizar	 Napoleão?	 Como	 Hitler?	 Como
Prometeu?	 Ambas	 as	 analogias,	 e	 até	 o	 próprio	 Jesus	 Cristo,	 foram
invocadas,	 mas	 o	 homem	 que	 jaz	 nessa	 tumba	 está	 muito	 distante	 de
qualquer	deles.	Melhor	seria,	talvez,	dizer	que	Napoleão	é	um	personagem,
como	 Hamlet;	 e,	 como	 Hamlet,	 um	 enigma	 —	 repleto	 de	 contradições,
sublime	e	vulgar.	Somos	impelidos	em	direções	opostas.
Em	 contraste	 com	 o	 Lincoln	 Memorial,	 esse	 túmulo	 não	 desperta
nenhum	 pesar	 ou	 dor.	 O	 visitante	 não	 sente	 a	 garganta	 embargada	 pela
emoção,	nem	o	coração	arrebatado	por	grandes	ambições.	O	que	sente	é	o
espírito	perturbado	mas	inteiramente	alerta,	em	reação	ao	que	se	esconde
lá	 em	 baixo	 —	 igualmente	 ameaçador	 e	 palpitante,	 com	 qualidades
esϐíngicas	de	bem	e	mal	e	de	mistério.	Acima	de	tudo,	o	que	se	faz	presente
ali	 é	 o	 senso	 aterrorizante	 da	possibilidade	 humana,	 o	 que	 é	 diferente	 de
esperança.	 O	 assombro	 desse	 túmulo	 transforma-se	 num	 corcel	 que	 nos
transportará	 para	 um	 futuro	 desconhecido,	 ainda	 que	 ele	 só	 valha	 cem
dias.
A	França	não	é	capaz	de	pensar	nele	sem	tremer,	e	em	seu	tremor,	por
mais	 que	 isso	 a	 incomode,	 tem	 medo	 dele,	 medo	 da	 saudade	 que	 ainda
sente	dele.
ANDRÉ	SUARÈS2
LIVRO	I
Allons	enfants	de	la	Patrie
Napoleone	di	Buonaparte
A	glória	de	um	homem	não	lhe	advém	do	passado,	começa	com	ele.	A	fonte	do	Nilo	só	é
conhecida	por	um	punhado	de	etíopes,	mas	quem	desconhece	sua	foz?
CHATEAUBRIAND
A	ilha	destronada:	a	Córsega	no	século	XVIII
Que	há,	no	mundo	todo,	de	tão	nu,	tão	abrupto	quanto	esta	rocha?
SÊNECA,	NO	EXÍLIO
Na	verdade,	são	muito	poucas	as	coisas	que	precisamos	saber	sobre	a
Córsega	da	infância	de	Napoleão.	Quando	ele	a	deixou	às	pressas	no	verão
de	1793,	foi	para	sempre,	nunca	tendo	olhado	para	trás	—	na	verdade,	no
ϐinal	da	vida	qualiϐicou	a	Córsega	de	“ruinosa	para	a	França”	—,	pelo	que
os	 nacionalistas	 corsos	 nunca	 o	 perdoaram.	 Apesar	 disso,	 tons	 corsos
banham	 toda	 a	 sua	 pessoa	 e	 sua	 vida,	 assim	 como	 a	 famosa	 idée	 ϔixe	 dá
forma	à	totalidade	da	Symphonie	fantastique	de	Hector	Berlioz,	e,	se	vamos
tentar	conhecer	Napoleão,	devemos	tentar	tanger	essas	cordas.
No	século	XVIII	(e	ainda	hoje),	a	Córsega	certamente	não	era	lugar	para
medrosos	ou	indecisos;	apavorava	os	anêmicos,	horrorizava	os	 indolentes,
e	deixava	os	ambivalentes,	bem,	inseguros.	A	île	de	Corse	exigia	do	visitante
certa	 tolerância	ao	desconforto	 inabitual	 em	paragens	européias	ao	norte
do	 paralelo	 35.	 Ajudava	 se	 ele	 fosse	 versado	 em	 contrastes,	 um
colecionador	 de	 paisagens	 e	 idéias,	 um	 amante	 de	 emoções	 fortes	 e	 de
algum	 perigo,	 um	 admirador	 de	 paisagens	 com	 uma	 vegetação	 inóspita,
quilômetros	 de	 estradas	 estreitas	 e	 esburacadas	 pontuadas	 por	 curvas
fechadas,	demarcadas	por	íngremes	rochedos	calcários.	O	emaranhado	do
maqui	 recuava	 apenas	 provisória	 e	 desaϐiadoramente	 ante	 o	 intruso
humano.	 Partes	 da	 Suíça	 tinham	 a	 mesma	 intratabilidade,	 quietude	 e
beleza	da	Córsega,	 a	mesma	 impressionante	mistura	de	 céu,	 terra	e	 água
elementares;	mas	faltava-lhes	o	fogo.
O	 fogo	 corso	 ardia	 no	 século	 XVIII	 como	 arde	 no	 XXI.	 Não	 se	 paga
entrada	para	desfrutar	da	vista	soberana	da