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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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em	 que	mergulhamos	 na	 véspera	 da	 batalha	 ...	 quando	 seria
insensato	 ϐicar	 ansioso.	 Tudo	me	 torna	 indiferente	 ao	 fado	 ou	 destino.”	 O
autor	 poderia	 estar	—	 fatalmente	deveria	 estar	—	 ansioso	 quanto	 a	 seu
futuro,	mas	esforçava-se	para	não	deixar	que	 isso	afetasse	o	 irmão.	“Você
não	 tem	 nenhuma	 razão	 para	 se	 preocupar	 comigo,	 aconteça	 o	 que
acontecer;	 tenho	muitos	bons	amigos	que	são	pessoas	decentes,	 seja	qual
for	 seu	 partido	 ou	 opinião”	 (6	 de	 setembro).	 “O	 futuro	 é	 um	 assunto	 de
desdém	 para	 o	 homem	 de	 coragem”	 (8	 de	 setembro).	 Em	 público,
Napoleão	 exibia	 reserva	 e	 impassibilidade,	 ou,	 como	 diriam	 alguns,	 um
“silêncio	 glacial”	 e	 uma	 inconveniente	 relutância	 em	 dar	 gargalhadas	 no
teatro.	Reações	desse	tipo	poderiam	indicar	simplesmente	seja	o	incômodo
de	ser	pobre	na	alta	sociedade,	seja	a	ausência	de	gosto	por	conviver	nesse
meio.	Para	 encerrar,	 ϐiquemos	 com	o	 julgamento	de	um	dos	mais	 argutos
companheiros	 que	 Napoleão	 teria	 no	 futuro,	 Charles	 Maurice	 de
Talleyrand:	“Seus	verdadeiros	sentimentos	nos	escapam,	pois	ele	continua
encontrando	 uma	 maneira	 de	 dissimulá-los	 mesmo	 quando	 realmente
existem.”
No	 dia	 19	 de	 agosto,	 Bonaparte	 foi	 nomeado	 para	 a	 cheϐia	 do
Departamento	Topográϐico	do	Exército,	uma	espécie	de	assessoria	geral	de
planejamento	 diretamente	 ligada	 ao	 Comitê	 de	 Salvação	 Pública.	 Essa
designação,	 uma	 espécie	 de	 golpe,	 mostrou	 que	 ele	 ainda	 tinha	 alguma
inϐluência,	 mesmo	 no	 Termidor.	 Uma	 destacada	 ϐigura	 da	 época,	 Boissy
d’Anglas,	 recomendou-o	 ao	 novo	 ministro	 da	 Guerra,	 Pontécoulant,	 que
teve	um	encontro	 com	ele	e	o	descreveu	como	 “um	 jovem	de	 tez	pálida	e
amarelada,	 grave	 e	 encurvado,	 parecendo	 doentio	 e	 frágil”.14	 Mal
impressionado	pela	 falta	de	conhecimento	militar	do	ministro	de	30	anos,
Napoleão	desistiu	de	dar	seguimento	a	esse	contato,	de	modo	que	o	político
teve	 de	 ir	 em	 busca	 do	 jovem	 general,	 que	 desejava	 ter	 a	 seu	 serviço.
Bonaparte	pediu	para	ser	transferido	para	o	serviço	do	sultão	da	Turquia
(o	 que	 o	 ajudaria	 a	 formar	 sua	 arma	 de	 artilharia),	 mas	 o	 pedido	 foi
recusado,	 após	 algumas	 vicissitudes,	 porque	 seus	 serviços	 eram
considerados	importantes	para	serem	dispensados.
Em	 seguida,	 em	15	 de	 setembro,	 aconteceu	 algo	 de	 estranho:	 o	 nome
de	Napoleão	desapareceu	 inexplicavelmente	da	 lista	de	militares	na	ativa.
Não	sabemos	precisamente	por	quê	—	se	por	incúria	administrativa	ou	em
resultado	da	 fobia	 sem	 trégua	de	que	os	 jacobinos	 eram	alvo.	A	primeira
alternativa	 é	 a	 mais	 provável,	 uma	 vez	 que	 no	 mesmo	 dia	 o	 general	 foi
informado	de	que	podia	seguir	para	Constantinopla	(permissão	mais	tarde
revogada).	Seja	como	for,	ele	ϐicou	enfurecido	o	bastante	para	renunciar	à
missão.	Isso	teria	sido	o	ϐim	de	sua	carreira	militar,	pelo	menos	por	algum
tempo,	não	tivesse	a	sorte	lhe	sorrido	mais	uma	vez.
Diante	 da	 repressão	 oϐicial	 aos	 jacobinos,	 o	 famoso	 renascimento	 da
vida	política	no	Termidor	beneϐiciou	sobretudo	a	direita.	Os	que	voltaram	à
tona	 na	 vida	 pública	 estavam	 longe	 de	 ser	 todos	 monarquistas	 sinceros;
muitos	eram	simplesmente	da	burguesia	endinheirada,	gente	que	 lucrara
com	a	Revolução	comprando	terras	da	Igreja	ou	de	nobres,	que	especulava
com	 os	 assignats,	 cujo	 valor	 estava	 em	 queda,	 ou	 com	 o	 comércio	 de
armamentos,	e	 tentava	pôr	 ϐim	à	“anarquia”.	Apesar	disso,	a	conclusão	do
historiador	 John	 Holland	 Rose	 —	 “a	 história	 da	 Revolução	 prova	 que
aqueles	 que	 de	 início	 simplesmente	 se	 opuseram	 aos	 excessos	 dos
jabobinos	 foram	 gradualmente	 arrastados	 em	 direção	 aos	monarquistas”
—	 é	 incontestável.15	 Os	 homens	 do	 Termidor,	 sendo	 sobretudo	 ex-
robespierristas	 e	 regicidas	 (i.e.,	 membros	 da	 Convenção	 que	 haviam
votado	 pela	morte	 de	 Luís	 XIV),	 só	 podiam	 ver	 o	 recrudescimento	 desse
sentimento	e	atividade	católicos,	aristocráticos	e	quase-monarquistas	como
uma	ameaça	a	seu	regime.
Eles	 reagiram	 com	 violência:	 os	 decretos	 de	 22	 e	 30	 de	 agosto
estipularam	que	dois	terços	da	nova	legislatura,	para	a	qual	logo	se	fariam
eleições,	 deveriam	 caber	 a	 ex-membros	 da	 Convenção.	 A	 lei	 provocou
desagrado	 e	 gerou	 forte	 reação.	 As	 semanas	 seguintes	 foram	 marcadas
também	por	 crescente	 agitação,	 na	 capital,	 de	membros	 das	 classes	mais
baixas	 para	 quem	 o	 alto	 preço	 do	 pão	 representava	 um	 perigo	 mortal.
Quando	 surgiram	 indícios	 de	 que	 a	 Guarda	 Nacional	 de	 Paris	 estava
apoiando	 os	 “moderados”	 (leia-se:	 monarquistas),	 tornou-se	 imperativo
agir.	No	início	de	outubro	os	homens	do	Termidor	puseram	seu	destino	nas
mãos	de	Paul	Barras,	um	líder	das	forças	militares	que	haviam	derrubado
Robespierre.	 Ele	 enfrentou	 a	 efervescente	 situação	 de	 Paris	 com
sagacidade	 e	 espírito	 prático.	 Como	 os	 inimigos	 —	 pelo	 menos	 seus
organizadores	e	principais	esteios	—	eram	direitistas,	 tirou	 certo	número
de	 jacobinos	 da	 prisão	 para	 ajudá-lo	 a	 opor-se	 a	 eles.	 Nomeou	 vários
oϐiciais	robespierristas	para	postos	de	comando,	entre	os	quais	Bonaparte,
soldado	que	conhecera	em	Toulon	e	respeitava.
Ora,	 Napoleão	 sem	 dúvida	 partilhava	 o	 desejo	 da	 direita	 (mas	 nessa
altura	 também	 o	 desejo	 da	 esquerda	 moderada)	 de	 ver	 a	 anarquia
revolucionária	 terminada	e	os	ganhos	de	1789	consolidados	num	sistema
estável	 de	 governo	 que	 presidiria	 a	 uma	 sociedade	 próspera.	 Qual	 era,
porém,	a	alternativa	a	lutar	ao	lado	de	Barras,	homem	que	ele	desprezava
por	sua	notória	corrupção?	É	provável	que	o	raciocínio	de	Napoleão	aos	26
anos	tenha	sido	o	que	ele	descreveu	aos	50:	se	a	Convenção	perdesse,	que
seria	“das	grandes	verdades	de	nossa	Revolução?”	A	derrota	das	forças	do
regime	 “selaria	a	vergonha	e	a	escravidão	da	pátria”.	Não	há	 como	negar
essa	 conclusão,	 por	 mais	 que	 o	 raciocínio	 pudesse	 ter	 igualmente	 por
objetivo	 justiϐicar	 o	 interesse	 pessoal	 de	 seu	 autor.	 O	 aniversário	 do
Vendemiário16	foi	celebrado	como	um	feriado	nacional	até	o	Consulado.
O	 dia	 13	 Vendemiário	 marcou	 a	 última	 vez	 que	 uma	 multidão
parisiense	tentou	forçar	a	mão	do	governo	e	a	única	em	toda	a	história	da
Revolução	Francesa	em	que	o	regime	usou	o	exército	permanente	contra	o
povo.	Ninguém	ousara	isso	antes.	A	luta	durou	seis	horas	e	meia;	centenas
de	pessoas	morreram,	mas	no	ϐim	as	eϐicazes	manobras	de	rua	de	cinco	a
seis	 mil	 soldados	 das	 forças	 regulares	 do	 exército,	 bem	 armados	 e	 bem
conduzidos,	derrotaram	um	número	quatro	a	cinco	vezes	maior	de	 forças
insurretas	 pessimamente	 organizadas.	 A	 vitória	 foi	 em	 grande	 parte	 de
Barras,	mas	Napoleão	deu	uma	 contribuição	 considerável.	Não	há	dúvida
de	que	ele	 foi,	de	 longe,	o	mais	vigoroso	dos	subordinados	de	Barras.	Nas
palavras	 de	 outros	 militares,	 suas	 decisões	 e	 ordens	 eram	 “claras”,
“lacônicas”,	 “rápidas”;	 mostrou	 um	 “aplomb	 extraordinário”,	 estava
“sempre	seguro	de	si,	um	líder	nato”.	O	general	Thiébault	escreveu:	“Desde
o	início,	sua	atividade	foi	espantosa:	parecia	estar	em	toda	parte	ao	mesmo
tempo;	surpreendia	as	pessoas	com	suas	ordens	lacônicas,	claras	e	diretas;
todos	 ϐicaram	 impressionados	 com	 o	 vigor	 de	 seus	 expedientes,	 e
passaram	 da	 admiração	 à	 conϐiança,	 da	 conϐiança	 ao	 entusiasmo.”17
Napoleão	foi	também	o	mais	clarividente	dos	auxiliares	de	Barras:	ordenou
a	um	major	da	cavalaria	chamado	Murat	que	fosse	buscar	com	sua	tropa	a
artilharia	de	Sablons	e	a	trouxesse	para	o	centro	de	Paris.	Aqueles	canhões
de	 oito	 tiros	 cuidadosamente	 dispostos	 por	 Bonaparte	 para	 controlar	 as
principais	ruas	que	levavam	à	Convenção	—	em	especial	as	ruas	próximas
à	 igreja	 de	 Saint-Roch,	 onde	 centenas	 de	 insurgentes	 foram	massacrados
pela	canhonada.	A	artilharia	fez	a	diferença.	Os	mal	comandados