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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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na	 Suíça)
superavam	 tudo	 que	 já	 fora	 feito.	 É	 verdade	 que	 se	 preocupou	 com	 a
adoção	dos	modelos	e	métodos	constitucionais	franceses,	mas	o	espaço	que
proporcionou	ao	ϐlorescimento	italiano	não	foi	pequeno;	além	disso,	 foram
o	potencial	humano	e	 a	 energia	dos	giacobini	que	 realmente	moveram	 as
rodas	dessas	repúblicas.	Bonaparte	precisou	até,	durante	grande	parte	do
tempo,	de	conter	o	ardor	dos	patriotas	locais,	que	julgavam	estar	vivendo	o
Ano	 I	 da	Revolução,	 e	 não	 (como	os	 franceses)	 o	Ano	V.	 Ele	 declarou	 aos
milaneses:	 “Podeis,	deveis,	ser	 livres,	mas	sem	sofrer	os	 infortúnios	que	o
povo	 da	 França	 conheceu.”	 Mas	 a	 situação	 era	 paradoxal	 e	 delicada:	 a
dinâmica	 revolucionária,	 anos	 depois	 de	 se	 romper	 na	 França,	 estava
ϐlorescendo	 num	 território	 conquistado.	 Nenhum	 general	 francês	 teria
reprimido	os	giacobini	—	eles	haviam	lutado	em	prol	da	França	na	guerra
—,	mas	Bonaparte	 lhes	 deu	mais	 apoio	 que	 qualquer	 outro	 general	 teria
dado,	ainda	que	sua	retórica	a	favor	deles	soasse	provavelmente	oca,	vinda
de	um	soldado	que	fechara	o	Clube	Panthéon	em	Paris.
As	 coisas	 não	 caminharam	 bem.	 Os	 italianos	 acabaram	 percebendo
“que	a	presença	de	um	exército,	mesmo	de	um	exército	 libertador,	é	uma
calamidade”	(Stendlhal).	Todos	os	 italianos,	até	os	patriotas,	se	ressentiam
das	cobranças	ϐinanceiras	dos	franceses,	que	se	revelaram	maiores	que	as
somas	 extorquidas	 da	 Itália	 por	 conquistadores	 no	 passado.	 O	 Diretório,
como	 a	 Convenção	 antes	 dele,	 cambaleava	 sob	 o	 peso	 de	 dívidas	 e	 sua
salvação	dependia	 de	 reparações	 de	 guerra.	 Essas	 reparações	não	 foram
suϐicientes,	 e	 o	 Diretório	 declarou	 falência	 parcial	 em	 setembro	 de	 1797,
única	vez	que	um	governo	francês	o	fez	entre	1770	e	o	dia	de	hoje.
Reparações	não	eram	novidade	para	potências	européias;	o	que	deu	às
coisas	uma	nova	feição	foi	a	expropriação	indiscriminada	de	obras	de	arte
pelos	franceses.	Não	se	tratou	do	“estupro	da	Itália	por	Bonaparte”	de	que
fala	a	lenda	antinapoleônica	—	como	outros	chefes	militares	franceses,	ele
apenas	 aplicou	 uma	 política	 traçada	 vários	 anos	 antes	 pela	 Convenção.5
Segundo	 uma	 auto-enaltecedora	 teoria	 formulada	 pelos	 revolucionários
franceses,	 assim	como	Roma	“herdara”	a	 cultura	grega,	a	 “nova	Roma”	 (a
República	 Francesa)	 poderia	 “repatriar”	 arte	 criada	 durante	 a	 “noite	 do
barbarismo”.	 Segundo	 essa	 visão,	 a	 verdadeira	 pátria	 de	Rubens	 não	 era
Antuérpia,	mas	Paris.	Luís	XIV,	é	claro,	se	apoderara	de	arte	ϐlamenga	sem
precisar	de	uma	teoria	para	justiϐicá-lo.	Essa	política	em	relação	a	obras	de
arte	 zombava	 dos	 melhores	 princípios	 da	 Revolução	 Francesa	 —	 os
giacobini	 imploravam	 aos	 franceses	 que	 entregassem	 a	 arte	 italiana	 “ao
povo”6	—,	mas	praticamente	nenhum	líder	francês	da	época	a	questionou
seriamente	ou	se	recusou	a	executá-la.
A	 “república	 mãe”	 não	 era	 objeto	 de	 igual	 deferência	 e	 gratidão	 por
parte	 de	 seus	 “ϐilhos”	 na	 Itália.	 Além	 do	 mais,	 os	 governos	 cisalpino	 e
liguriano	 estavam	 isolados	 na	 Península.	 Bonaparte	 e	 os	 giacobini
descobriram,	 para	 sua	 desolação,	 como	 era	 pequena	 a	 ressonância	 da
revolução	 em	 toda	 a	 Bota.	 Aquela	 não	 era	 a	 República	 Batava,	 que	 se
beneϐiciava	 de	 uma	 classe	 média	 reformista	 e	 de	 uma	 longa	 história	 de
insurreições	 contra	 a	 Áustria.	 Na	 Itália	 os	 patriotas	 eram	 poucos;	 os
camponeses	 e	 a	 maior	 parte	 da	 nobreza	 manifestavam	 obstinada
resistência	 à	 revolução.	Quando	maiorias	 antipatrióticas	 venciam	eleições,
Bonaparte	executava	pequenos	golpes	de	Estado	para	manter	os 	giacobini
no	 poder,	 mas	 com	 isso	 minava	 ainda	 mais	 a	 legitimidade	 da	 República
Cisalpina	aos	olhos	de	seu	próprio	povo.	Por	ϐim,	o	problema	degenerou	no
tipo	 de	 conϐlito	 intratável	 que	 destruíra	 a	 Córsega:	 entre	 princípios
jacobino-universalistas,	 por	 um	 lado,	 e	 um	 antiquado	 nacionalismo
irredentista	(“Que	esses	franceses	vão	para	o	inferno!”)	por	outro.
Bonaparte	 discordava	 também	 do	 Diretório	 em	 matéria	 de	 religião.
Paris	o	instigava	não	só	a	ocupar	Roma	como	a	derrubar	o	papado,	ou	pelo
menos	 a	 humilhar	 o	 papa	Pio	VI.	O	 general,	 que	 aprendera	 na	 Córsega	 o
poder	que	tinha	a	religião	de	 lançar	um	povo	na	guerra	civil,	e	cônscio	da
lealdade	 dos	 italianos	 à	 Igreja,	 só	 cumpriu	 em	 parte	 as	 ordens	 que
recebeu.	Permitiu	ao	papa	conservar	 seu	cargo,	 sua	dignidade	e	parte	de
seu	 território.	 Mas	 não	 temia	 contestar	 a	 opinião	 da	 Igreja	 de	 vez	 em
quando.	Por	exemplo,	seu	general-de-divisão	Vaubois	 levou	seus	oϐiciais	a
uma	sinagoga	de	Livorno	no	dia	14	de	julho	de	1796,	para	indignação	dos
numerosos	católicos	devotos.
Morte	em	Veneza	(de	uma	reputação	jacobina)
Ó	França,	que	zombas	do	Céu,	França	adúltera	e	cega	Patriota	apenas	em	perniciosos
labores!	São	estas	as	tuas	glórias,	Defensora	do	gênero	humano?	Misturar-se	com	Reis	na
lascívia	sórdida	do	poder,	Gritar	na	caçada	e	partilhar	a	presa	ensangüentada?
SAMUEL	TAYLOR	COLERIDGE,	“FRANÇA:	UMA	ODE”
A	paz	que	 sucede	 a	 um	 confronto	decisivo	no	 campo	de	batalha	pode
ser	draconiana,	mas	a	paz	que	encerrou	a	primeira	campanha	italiana	não
foi	opressiva,	pois	o	Exército	da	Itália	não	obtivera	uma	vitória	esmagadora
contra	 a	Áustria.	 Com	o	armistício	 selado	em	Leoben	em	abril	 de	1797,	 a
Realpolitik	 passou	 a	 dominar	 cada	 vez	 mais	 os	 cálculos	 de	 Bonaparte,
consciente	de	que	a	batalha	ϐinal	e	mais	importante	desse	conϐlito	deveria
ser	ganha	sobre	o	feltro	verde	de	uma	mesa,	não	no	vale	alpino.	A	guerra,
é	claro,	fora	política	o	tempo	todo,	como	Clausewitz	observou,	mas	era	mais
diϐícil	discernir	a	essa	dimensão	em	meio	ao	derramamento	de	sangue,	ao
drama	 intenso	e	à	 lógica	puramente	militar	de	uma	campanha.	Depois	de
Leoben,	a	disputa	voltou	a	ser	declaradamente	política;	a	diplomacia	era	a
guerra	por	outros	meios.
O	Diretório	esperava	dirigir	as	negociações	em	nome	da	França.	Estava
pronto	 a	 nomear	 para	 a	 missão	 homens	 de	 brilho	 e	 renome:	 Benjamin
Constant	 e	 Emmanuel	 Sieyès,	 respectivamente,	 entre	 os	 mais	 eminentes
escritores	e	teóricos	políticos	da	França.	Mas	Napoleão	indicou	que	trataria
das	 coisas	 sozinho,	 muito	 obrigado,	 e	 o	 Diretório	 não	 teve	 condições	 de
contestar	 um	 soldado	 que	 lhe	 dera	 o	 dinheiro	 e	 a	 glória	 tão
desesperadamente	 necessários.	 Para	 falar	 a	 verdade,	 afora	 os	 próprios
Constant	 e	 Sieyès,	 ninguém	 estava	 plenamente	 convencido	 de	 que
conseguiria	 se	 impor	 a	 Bonaparte.	 Anteriormente,	 o	 Diretório	 enviara	 o
general	 Henri	 Clarke	 para	 representar	 sua	 autoridade	 junto	 ao
comandante	 do	 Exército	 da	 Itália,	 e	 este	 o	 convertera	 num	 ardoroso
admirador.	 Agora	 Clarke	 estava	 proclamando	 Bonaparte	 como	 “o	 novo
Alexandre”	 (é	 verdade	 que	 ele	 admitia	 que,	 como	 Alexandre,	 o	 general
Bonaparte	 podia	 ser	 abrupto	 e	 imperioso,	 e	 que	 queria	 demais	 depressa
demais).
A	diplomacia	é	com	mais	freqüência	uma	maratona	que	uma	corrida	de
velocidade.	 As	 sessões	 oϐiciais	 e	 oϐiciosas	 que	 culminaram	 no	 Tratado	 de
Campoformio7	em	outubro	estenderam-se	por	semanas.	Nelas,	exigiam-se
um	 espírito	 ágil	 e	 um	 conhecimento	 seguro	 de	 direito	 internacional	 e
história.	 Ajudava	 saber	 quando	 falar	 mansamente,	 quando	 convinha
convocar	 uma	 sessão	 tarde	 da	 noite	 (i.e.,	 quando	 o	 adversário	 estava
cansado	ou	bêbado),	 quando	deixar	 a	mesa	 e	 quando	manifestar	 emoção
(Napoleão	 era	 exímio	 em	 ϐingir	 raiva	 e	 indignação).	 Ajudava	 também	 ser
capaz	de	introduzir	uma	cunha	entre	o	ponto	de	vista	de	um	diplomata	e	o
governo	 dele,	 ou	 saber	 quando	 se	 afastar	 da	 posição	 do	 seu	 próprio
governo.	 Às	 vezes	 era	 preciso	 livrar	 a	 cara	 de	 um	 interlocutor,	 outras
vezes	fazê-lo	parecer	fraco	ou	tolo	perante