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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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tempos.
Em	Santa	Helena,	Napoleão	voltou	os	olhos	para	1796-97	e	preferiu	ver
só	 a	 proeminência	 solar	 de	 seu	 papel	 como	 jovem	 general	 idealista	 —
“mais	 italiano	 que	 corso”,	 heróico	 fundador	 das	 Repúblicas	 “Cister”,
aclamado	 introdutor	 da	 soberania	 popular	 numa	 península	 decadente,
abolidor	 de	 velhos	 regimes	 corruptos	 que	 haviam	 subvertido	 a	 entidade
étnica	natural	que	um	dia	deveria	ser	uma	nação.	“Sempre	tive	a	 idéia	de
criar	uma	nação	 italiana	 livre	e	 independente”,	disse.	Chegou	até	 inventar
uma	 engenhosa	 justiϐicação	 para	 a	 Realpolitik	 de	 entregar	 Veneza	 à
Áustria:	foi	salutar	para	os	venezianos	ter	sua	vocação	para	a	liberdade	e	a
unidade	nacional	postas	à	prova	—	um	argumento	do	 tipo	“quando	não	o
mata,	 a	 prisão	 faz	 bem	 para	 um	 homem”.	 Um	 absurdo,	 é	 claro,	 que	 não
chega	nem	a	ser	um	absurdo	interessante.
Quanto	 aos	 italianos	 —	 especialmente	 os	 patriotas	 e	 os	 giacobini	 —,
mostraram-se	 mais	 tarde	 ferozmente	 críticos	 de	 Napoleão:	 “Nada	 há	 de
mais	horrível	que	a	 conduta	de	Bonaparte	na	 Itália;	 começou	anunciando
guerra	 aos	 tiranos	 e	 paz	 para	 as	 pessoas,	 e	 terminou	 em	 paz	 com	 os
tiranos	 e	 escravizando	 as	 pessoas.”	 Mas	 essa	 é	 a	 ira	 de	 um	 “irmão”
decepcionado,	 não	 a	 do	 cidadão	 de	 um	 país	 erguendo	 o	 punho	 para	 o
estrangeiro,	 e,	 olhando-se	mais	 de	 perto,	 não	 é	 surpresa	 constatar	 que	 o
giacobino	 que	 escreveu	 isso,	 Pietro	 Custodi,10	 havia	 trabalhado	 na
administração	durante	a	Età	napoleonica.
Curiosamente,	a	memória	nacional	 italiana	tendeu	para	a	mesma	visão
idealizada	 de	 Napoleão	 em	 Santa	 Helena.	 O	 fato	 de	 que,	 passados	 dois
séculos,	 os	 italianos	 celebram	 tanto	 o	 Triennio	 quanto	 o	 papel	 que
Bonaparte	 teve	 nele	 é	 um	 bom	 indício	 de	 que	 agora,	 como	 então,	 os
italianos	compreenderam	que	houve	algo	mais	em	jogo	além	de	repressão,
reparação	 e	 desilusão.	 Além	 de 	Ultime	 lettere	 di	 Jacopo	 Ortis 	 (de	 que	 foi
tomada	 a	 epígrafe	 deste	 capítulo),	 Ugo	 Foscolo	 escreveu	 uma	 ode	 a
“Napoleone	 liberatore”	 em	 1799,	 muito	 depois	 de	 Napoleão	 ter
abandonado	 a	 República	 Cisalpina	 por	 outras	 plagas	 e	 quando	 as	 coisas
estavam	indo	rapidamente	de	mal	a	pior	na	Itália.
Os	 italianos	 nunca	 se	 esqueceram	 de	 que	 Bonaparte	 nascera	 de	 seu
sangue	e	tinha	o	italiano	por	língua	materna.	Gabriele	Rosseti,	pai	do	poeta
inglês,	escreveu:	“Nesse	homem	singular	que	foi	o	conquistador	da	Itália,	a
Itália	 mostrou	 ao	 mundo	 quem	 são	 os	 seus	 ϐilhos.”	 Estranha	maneira	 de
falar	de	uma	lembrança	detestada.	Os	habitantes	da	Península,	sejam	quais
forem	suas	reações	à	presença	 francesa,	sentem	que	devem	parte	de	seu
Risorgimento	e	de	 sua	uniϐicação	nacional	 como	 regime	 secular	 liberal	 ao
impulso	 que	 lhes	 foi	 dado	 por	 Bonaparte	 e	 seu	 exército	 de	 mentalidade
semelhante.	 Assim,	 a	 Itália	 sempre	 permaneceu	 francóϐila,	 o	 que	 não
aconteceu	 com	 a	 Alemanha,	 que	 também	 deveu	 a	 Napoleão	 um	 forte
empurrão	 inicial	 rumo	à	unidade.	Mas,	aϐinal	de	contas,	Bonaparte,	 seja	o
que	mais	 tenha	 feito,	 impôs	 a	 Itália	 à	 França	 e	 ao	mundo	 tão	 certamente
quanto	impôs	a	“Itália”	aos	italianos.
A	França	vista	do	Exército	da	Itália
La	France	vue	de	 l’Armée	d’Italie 	e	Le	Courrier	de	 l’Armée	d’Italie 	 foram
jornais	 que	 Napoleão	 criou,	 tendo	 em	 vista	 tanto	 seu	 exército	 quanto	 o
território	 francês,	pois,	enquanto	permaneceu	na	 Itália	—	não	menos	que
César,	 quando	 na	 Gália	—	 prestava	 aguda	 atenção	 ao	 que	 acontecia	 em
Paris.	 No	 editorial	 do	 primeiro	 jornal,	 Bonaparte	 declarou:	 “Nosso
propósito	será	publicar	a	verdade	sobre	o	modo	como	o	Exército	da	 Itália
percebe	 a	 situação	 na	 França	 e	 como	 pode	 defender	 ali	 a	 causa	 de	 seus
amigos	contra	os	partidários	da	tirania	ou	do	terror.”	Tanto 	La	France	 vue
de	l’Armée	d’Italie,	o	menos	radical	dos	dois	jornais	—	seu	objetivo	era	unir
todas	 as	 facções	 e	 estratos	 sociais	 contra	 os	 monarquistas	 —,	 quanto	 o
Courrier	eram	“absolutamente	republicanos”.11
Embora	 aquela	 fosse	 uma	 época	 de	 conϐlitos	 políticos	 e	 ideológicos
simples,	a	nuance	subsistia.	A	polícia	de	Paris,	por	exemplo,	estabelecia	um
curioso	 dualismo	 entre	 os	 rótulos	 “republicano”	 e	 “revolucionário”:	 o
primeiro	 indicava	partidários	 “conϐiáveis”	 do	 regime	 corrente;	 o	 segundo,
radicais	 apaixonados	 que	 desejavam	 um	 retorno	 ao	 Ano	 II.	 Se	 essas
classificações	tivessem	sido	aplicadas	aos	exércitos	em	campanha,	ver-se-ia
que	 o	 Exército	 da	 Itália	 abrigava	 muito	 mais	 que	 uma	 cota	 razoável	 de
revolucionários.	De	fato,	seria	justo	dizer	que	muitos	soldados	comandados
por	 Bonaparte,	 caso	 fossem	 civis	 residindo	 em	 Paris,	 teriam	 pertencido
àquele	mesmo	Clube	Panthéon	que	seu	general	fechara	quando	cheϐiava	o
Ministério	 do	 Interior.	 Mas	 o	 fato	 é	 que,	 em	 seus	 soldados	 e	 generais,
Bonaparte	tolerava	—	na	verdade,	cultivava	—	graus	de	politização	muito
mais	elevados	do	que	em	civis.
La	 France	 vue	 de	 l’Armée	 d’Italie 	 representava,	 ademais,	 uma
perspectiva	perturbadora	para	os	soldados	de	Bonaparte	que	levavam	seu
patriotismo	a	sério.	Julien,	um	dos	editores	do	Courrier,	além	de	secretário
de	 Robespierre,	 fora	 simpatizante	 de	 Babeuf	 (executado	 por	 sedição	 em
maio	 de	 1797)	 e	 amigo	 de	 Buonarotti	 (deportado	 da	 Itália	 por	 sedição	 e
levado	 para	 a	 França).	 Os	 soldados	 franceses	 não	 estavam	 gostando	 do
que	viam	na	pátria	ou	das	notícias	que	de	lá	chegavam.	Aos	olhos	deles,	a
ameaça	 mais	 grave	 à	 República	 no	 Ano	 V	 (1796-97)	 não	 era	 a	 agitação
“neojacobina”,	mas	a	avalanche	de	propaganda	“moderada”	e	monarquista
e	 o	 grande	número	de	políticos	 eleitos	 aϐinados	 com	essas	 tendências.	As
eleições	 legislativas	 da	 primavera	 haviam	 dado	 maioria	 esmagadora	 aos
conservadores	 tanto	 no	 Conselho	 dos	 Quinhentos	 como	 no	 Conselho	 dos
Antigos,	apesar	da	 intensa	campanha	movida	pelo	regime	em	seu	próprio
favor.	Logo	em	seguida	os	conselhos	nomearam,	para	substituir	um	diretor
que	 se	 aposentou,	 um	 novo	 homem	 (Barthélemy)	 cujas	 posições	 políticas
eram	heterodoxas,	se	não	claramente	monarquistas.
Enquanto	 isso	a	 impressa	direitista	 fazia	 franca	oposição	aos	diretores
remanescentes;	 a	 Bonaparte,	 a	 quem	 acusava	 de	 traição;	 e	 à	 guerra	 na
Itália,	que	considerava	 imperialista.	 Ironicamente,	os	monarquistas,	 com	o
apoio	ϐinanceiro	do	governo	reacionário	da	Áustria,	defendiam	os	“direitos
dos	povos”	—	p.ex.,	Veneza.	O	tumulto,	se	não	teve	outro	efeito,	certamente
induziu	 o	 Diretório	 e	 Bonaparte	 a	 se	 apoiarem	 mutuamente,	 com	 mais
ϐirmeza	 do	 que	 o	 teriam	 feito	 em	 outras	 circunstâncias,	 numa	 política	 de
expansão.	Num	sentido	geral,	 todos	queriam	paz,	mas	pedi-la	ao	preço	de
retornar	às	antigas	fronteiras	da	França	(de	1789	ou	mesmo	de	1792)	era
uma	política	marcada	pela	associação	com	a	contra-revolução.
Até	 que	 ponto	 a	 direita	 representava	 uma	 ameaça	 objetiva	 para	 a
República	e	a	Revolução?	É	diϐícil	dizer,	e	 seria	mesmo	se	voltássemos	no
tempo	e	examinássemos	a	situação	com	nossos	próprios	olhos.	Para	avaliar
uma	 ameaça	 desse	 tipo	 é	 preciso	 fazer	 um	 sem-número	 de	 julgamentos
sobre	 o	 modo	 como	 indivíduos	 e	 grupos	 teriam	 evoluído	 caso	 tivessem
vindo	 a	 se	 estabelecer	 como	 centros	 de	 poder,	 como	 moderados	 e
monarquistas	pretendiam.	As	duas	 categorias,	moderados	e	 realistas,	não
se	confundiam,	por	mais	que	a	polícia	de	Paris	—	que	tinha	da	direita	uma
visão	 menos	 nuançada	 que	 da	 esquerda	 —	 desejasse	 reduzir	 toda	 e
qualquer	expressão	de	insatisfação	com	a	Revolução	a	“monarquismo”.	Por
outro	lado,	o	Clube	Clichy,	onde	esses	ativistas	se	reuniam,	fazia	o	possível
para	 diϐicultar,	 não	 para	 facilitar	 a	 tarefa.	 Uma	 fórmula	 estampada