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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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num
panϐleto	 dizia:	 “Viva	 a	 República	 de	 boa	 fé!”	 mas	 quando	 a	 folha	 era
dobrada	 de	 certa	 maneira,	 o	 que	 se	 lia	 era:	 “Viva	 o	 Rei!”12	 O	 general
Pichegru,	 eleito	 para	 presidir	 o	 Conselho	 dos	 Quinhentos,	 tinha	 idéias
manifestamente	 republicanas,	 mas	 estava	 de	 fato	 a	 soldo	 dos	 ingleses	 e,
tivesse	 tido	 uma	 chance,	 certamente	 teria	 ajudado	 os	 monarquistas	 a
preparar	um	golpe,	como	fez	em	1804.
A	 reação	dos	 exércitos	da	República	 aos	 eventos	que	 se	 sucediam	em
Paris	 acompanhava	 em	 grande	 parte	 as	 idéias	 de	 seus	 generais
comandantes.	Em	geral,	as	mensagens	violentas	que	a	soldadesca	enviava
para	 frente	 interna	 (era	 precisamente	 como	 uma	 “frente”,	 um	 campo	 de
batalha,	 que	 viam	 Paris)	 tinham	 por	 ϐinalidade	 defender	 o	 Diretório
fazendo	ameaças	a	seus	adversários.	Por	vezes	acabavam	assustando	até	a
ambos:	 “Tremei!	 Da	 [Itália]	 ao	 Sena	 é	 só	 um	 passo”	 (Augereau).	 “Terá	 a
estrada	para	Paris	mais	obstáculos	que	a	estrada	para	Viena?”	(Masséna).
“Se	 for	 isso	 o	 necessário	 para	 manter	 a	 Constituição,	 poderemos	 voar
sobre	 as	 montanhas	 que	 nos	 separam	 da	 França	 com	 a	 velocidade	 da
águia”	 (Napoleão).	 Por	 outro	 lado,	 o	 exército	 do	 Sambre-et-Meuse,	 sob	 o
comando	 de	 Moreau,	 destacava-se	 pelo	 silêncio:	 nenhum	 comunicado	 a
Paris.	O	 fato	é	que	Moreau	era	amigo	de	Pichegru,	e	estava	secretamente
em	 contato	 com	 o	 ministro	 austríaco.13	 No	 conjunto,	 dois	 temas	 se
destacavam	 nas	 mensagens	 militares	 a	 Paris:	 guerra	 sem	 trégua	 à
“aristocracia”	 e	 seus	aliados;	 e	o	exército	 (não	o	povo)	 como	regenerador
do	corpo	social	da	República.
Os	diretores	 ϐizeram	o	que	“sabiam”	que	seus	adversários	teriam	feito
se	 ocupassem	 o	 poder:	 deram	 um	 golpe	 de	 Estado.	 Nomearam	 Lazare
Hoche	 —	 o	 “Bonaparte	 do	 norte”,	 como	 era	 conhecido	 —	 ministro	 da
Guerra	 e	 ordenaram	 que	 seu	 exército	 marchasse	 sobre	 Paris.	 Embora
fosse	 um	 soldado	 corajoso	 e	 um	 republicano	 leal,	 Hoche	 se	 deixara
convencer,	 ainda	 que	 relutantemente,	 de	 que	 um	 ditador	 era	 uma
necessidade	 temporária	 para	 enfrentar	 deϐinitivamente	 a	 ameaça
monarquista.	 Mas	 se	 era	 um	 Galahad	 em	 seu	 idealismo,	 princípios	 e
ingenuidade,	 Hoche	 não	 era	 nenhum	 Lancelot	 na	 justa,	 e	 quando	 a
legislatura	rejeitou	sua	nomeação	(ele	estava	abaixo	da	 idade	 ϐixada	para
ministros	pela	Constituição	de	1795)	e	o	Diretório	voltou	atrás	na	idéia	de
forçá-los	a	engoli-la,	Hoche	afastou-se	de	seu	exército,	humilhado.
Os	 diretores	 voltaram	 então	 os	 olhos	 para	 o	 Sul,	 de	 onde	 Bonaparte
acompanhava	 atentamente	 a	 situação;	 chegara	 até	 a	 oferecer	 uma
subvenção	retirada	do	Tesouro	de	seu	exército	para	o	desprovido	Exército
do	Norte.	O	general	hesitou;	uma	ação	precipitada	em	favor	do	acossado	e
ridicularizado	Diretório	poderia	 “ofuscar-lhe	a	glória”	 (especialmente	se	a
ação	fracassasse).	Assim,	preferiu	enviar	o	fanfarrão	e	afoito,	mas	limitado,
Augereau.	 Usando	 as	 tropas	 de	 Hoche,	 Augereau	 reprisou	 a	 ação	 do
Vendemiário	de	1795:	Paris	foi	cercada	na	noite	de	3	para	4	de	setembro
de	 1797	 (18	 Frutidor	 do	 Ano	 V)	 e	 a	 legislatura	 expurgou-se	 de	 seus
membros	 transgressores.	 Dois	 diretores	 foram	 destituídos:	 Barthélemy	 e
Lazare	 Carnot,	 que	 desde	 o	 Termidor	 já	 não	 se	 mostrava	 tão	 jacobino
quanto	 outrora.	 Do	 ponto	 de	 vista	 do	 exército,	 sua	 ação	 sob	 Augereau
representava	 um	 retorno	 ao	 Ano	 II:	 os	 soldados	 estavam	 atuando	 como
cidadãos	vigilantes	em	lugar	do	povo.
Napoleão	 parece	 ter	 tido	 contatos	 com	 Barthélemy,	 e	 certamente	 os
teve	 com	 Carnot.	 Este	 último	 fato	 não	 surpreende,	 dada	 a	 colaboração
anterior	 entre	 os	 dois	 homens	 e	 o	 ceticismo	 de	 Napoleão	 com	 relação	 a
expurgos	 ideológicos	 de	 homens	 de	 qualidade.	 A	 participação	 indireta	 de
Napoleão	no	Frutidor	o	 tornaria	então	um	cínico,	 fazendo	 jogo	duplo	para
salvar	 a	 própria	 pele?	 Alguns	 dizem	 que	 sim.	 Um	 historiador	 de	 muito
prestígio	no	século	XIX,	Henri	Martin,	escreveu	que	“nunca	um	homem	se
contradisse	 com	 menos	 constrangimento	 nem	 foi	 menos	 leal	 à	 sua
palavra”.	 Havia	 generais	 na	 cena	 em	 que	 as	 palavras	 de	 Martin	 cairiam
como	uma	luva:	Pichegru,	por	exemplo,	passou	de	protegido	do	Comitê	de
Salvação	 Pública	 a	 militante	 em	 favor	 do	 pretendente	 Bourbon;
Bernadotte,	 provavelmente	 um	 camaleão	 político	 da	 mesma	 laia,	 ϐicou
muitas	 vezes	 paralisado	 por	 prudência	 e	 por	 instintos	 e	 ambições
conflitantes.
Mas	 no	 ano	 V	 Bonaparte	 estava	 longe	 de	 ser	 um	 Pichegru	 ou	 um
Bernadotte,	e,	se	pode	ser	comparado	a	um	outro	oϐicial,	é,	curiosamente,	a
Hoche,	 com	 quem	 se	 costuma	 contrastá-lo.	 Ambos	 jovens	 e	 brilhantes
generais,	fundadores	de	Repúblicas	“Cister”,	os	dois	homens	se	admiravam
mutuamente,	 o	 que	 diz	 alguma	 coisa,	 dada	 sua	 competição.	 Numa
celebração	 patriótica,	 um	 general	 menos	 graduado	 ergueu	 seu	 copo:	 “A
Bonaparte,	 possa	 ele...”,
começou,masHocheoatalhou:“ABonaparte,toutcourt,onomediztudo!”14
Hoche	morreu	 subitamente	 em	 setembro,	 e	 esse	 desaparecimento	 muito
sentido	permitiu	aos	contemporâneos	e	à	posteridade	verem	nele	“o	mais
nobre	 romano	 de	 todos	 eles”,	 em	 vez	 de	 um	 ser	 humano	 com	 suas
fraquezas,	inclusive	uma	prima-dona	de	extrema	vaidade.
Quando	 lemos	 as	 cartas	 de	 Hoche	 ao	 Diretório	 temos	 por	 vezes	 a
impressão	de	que	estamos	lendo	as	de	Bonaparte:	os	lampejos	de	intuição
lançados	inopinadamente,	a	autoconfiança	inabalável	(a	mesma	capacidade
de	 se	 identiϐicar	 com	 a	 nação),	 a	 impaciência	 irritada	 com	 a	 perda	 de
tempo,	os	acessos	de	orgulho	ferido	seguidos	por	manifestações	insinceras
de	 resignação,	 destinadas	 a	 pressionar	 o	 destinatário;	 as	 denúncias	 de
comissários	de	guerra	corruptos	e	as	recriminações	a	outros	comandantes;
as	 oscilações	 de	 humor,	 do	 pessimismo	 negro	 a	 súbitos	 rompantes	 de
energia	e	entusiasmo.	Hoche	tinha,	porém,	mais	gosto	pela	vingança	do	que
Bonaparte,	 e	 menos	 talento	 para	 o	 autodomínio.	 Ficou	 furioso	 contra	 o
Diretório	 por	 lhe	 ter	 feito	 uma	 falseta	 em	 julho;	 sua	 determinação	 de	 se
desforrar	—	guardava	uma	longa	lista	de	nomes	que	pretendia	destruir	—
parece	tê-lo	consumido	tanto	quanto	o	bacilo	de	Koch	que	manifestamente
o	matou.15	Morreu	convencido	de	que	o	Frutidor	não	chegara	nem	perto
de	 estabelecer	 um	 governo	 duro	 na	 França.	 Embora	 Hoche	 fosse
inteligente	e	reϐlexivo,	faltava-lhe	a	insularidade	e	o	autocontrole	do	corso.
Se	 nenhum	 dos	 dois	 homens	 foi	 um	 Washington	 (mas	 teriam	 as
circunstâncias	 e	 tradições	 políticas	 francesas	 suportado	 um?),	 Hoche
tampouco	foi	um	César,	pois	seu	orgulho	e	suas	emoções	lhe	prejudicavam
a	faculdade	de	juízo	e	o	impediam	de	impor	sua	vontade.
Outro	 traço	 que	 faltava	 a	 Hoche	 era	 a	 capacidade	 de	 ironia	 que
distinguia	 Napoleão	 (como	 César)	 —	 isto	 é,	 de	 manter	 uma	 apreciação
crítica	 e	 distanciada	 do	 conjunto,	 mesmo	 quando	 ainda	 se	 está
comprometido	com	um	ponto	de	vista.	Nas	vésperas	de	sua	morte,	com	29
anos,	Hoche	ainda	era	um	engagé,	que	lembrava	o	jovem	Napoleão	em	sua
relação	 com	 Paoli.	 Aos	 29	 anos,	 Bonaparte	 simplesmente	 interpretava	 a
pessoas	e	os	eventos	através	de	um	denso	ϐiltro	de	realismo	no	tocante	ao
que	 considerava	 possível	 e	 desejável	 numa	 sociedade	 construída	 e
dilacerada	 pela	 Revolução.	 Alguns	 diriam	 desilusão,	 mas	 nesse	 caso	 era
uma	desilusão	temperada	por	genuíno	respeito	e	paixão	pela	vida	política
no	sentido	mais	amplo	e	por	certos	princípios	para	a	organização	do	bem-
estar	público	—	princípios	que,	naquele	tempo,	eram	progressistas.
Mas	 a	 Itália	 cobrou	 um	 preço	 pela	 atitude	 de	 Napoleão	 em	 face	 das
possibilidades	 políticas,	mesmo	 que	 sua	 vida	 pessoal