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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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ou	 a	 força	 de	 um	 Paoli	 ou	 de	 um	 Robespierre.	 O	 general
aconselhara	vigorosamente	seu	subordinado	Augereau,	ao	enviá-lo	a	Paris
no	Frutidor,	a	não	se	aliar	muito	estreitamente	nem	mesmo	ao	partido	do
Diretório,	 em	 cujo	 favor	 iria	 dar	 um	 golpe	 militar.	 Consta	 também	 que,
mesmo	antes	de	experimentar	as	lutas	internas	em	Paris,	Bonaparte	disse
a	um	colaborador	italiano	que	“por	enquanto”	estava	preferindo	“marchar
com	o	partido	republicano	a	se	aliar	à	facção	Bourbon”,	mas	iria	“esperar	e
ver”	para	onde	seus	interesses	pessoais	o	poderiam	levar.	Ele	pode	ou	não
ter	 dito	 essas	 palavras,	 ou	 algo	 parecido;	 é	 também	 muito	 possível	 que
quem	as	relatou	(Miot	de	Melito)	tenha	deixado	escapar,	intencionalmente
ou	não,	um	tom	irônico	por	trás	delas.	Napoleão	era	sem	dúvida	ambicioso,
mas	sua	ambição	se	erguia	sobre	certos	princípios	graníticos	da	Revolução,
não	 numa	 escolha	 puramente	 instrumental	 de	 idéias	 e	 princípios.	 Uma
forte	aversão	por	partidos	e	políticos	não	fazia	dele	um	cínico,	a	menos	que
consideremos	 De	 Gaulle	 ou	 Washington	 cínicos.	 Chegaria	 o	 dia	 em	 que
Napoleão	romperia	com	o	partido	republicano,	mas,	quando	isso	ocorresse,
o	 rompimento	 não	 levaria	 tudo	 de	 roldão;	 um	 núcleo	 de	 republicanismo
permaneceria.
Passagem	para	a	Índia:	Egito	(1798-99),	a
operação	militar
O	mais	consumado	viajante	e	o	melhor	escritor	não	conseguiriam	transmitir	ao	leitor
europeu	o	que	vimos	e	sofremos	aqui.
GENERAL	CHARLES-ANTOINE	MORAND23
Se	 algum	 dia	 um	 empreendimento	 foi	 ditado	 por	 um	 sem-número	 de
causas	e	razões	sem	contudo	obedecer	a	um	plano	diretor,	foi	a	campanha
do	Egito.	Os	fatores	mais	decisivos	que	levaram	à	partida	da	ϐlotilha	de	300
barcos	de	Toulon	na	primavera	de	1798	são	no	mínimo	interessantes	—	a
intriga	política	interna	na	Paris	do	Diretório	e	as	considerações	geopolíticas
da	 guerra	 com	 o	 “reino	 insular”,	 que	 não	 podia	 ser	 invadido	 a	 partir	 da
Mancha.	 Mas	 essa	 é	 apenas	 a	 ponta	 visível	 de	 um	 grande,	 misterioso	 e
antigo	 iceberg.	 Por	 volta	 de	 1800,	 os	 melhores	 espíritos,	 os	 mais
inteligentes	 e	 mais	 politicamente	 corretos,	 aprovavam	 fervorosamente	 o
que	 hoje	 seria	 rotulado	 de	 “imperialismo	 colonial”.	 Os	 escritos	 de
juventude	 de	 Napoleão	 falam	 de	 Alexandre	 como	 um	 conquistador
esclarecido,	cujo	ataque	ao	Império	Persa,	que	incluía	o	Egito,	haviam	sido
evidentemente	 uma	 boa	 coisa,	 pois	 o	 governo	 dos	 xás	 representava	 o
antigo	regime,	enquanto	os	gregos	eram	portadores	do	progresso.
Seria	 diϐícil	 citar	 um	 viajante,	 negociante,	 pensador	 ou	 diplomata
francês,	mais	 ainda	 um	 soldado,	 que	 reprovasse	 a	 expedição	 ao	 Egito	 ou
não	 a	 julgasse	 manifestamente	 justiϐicada	 pela	 “superioridade”	 do
Ocidente.	Como	o	Império	Turco,	que	governava	nominalmente	o	país,	era
visto	 como	 uma	 potência	 imoral	 e	 decadente,	 os	 franceses	 viram	 uma
oportunidade	 de	 restaurar	 a	 civilização	 numa	 área	 onde	 ela	 outrora
vicejara.	Desde	 sua	 estada	 em	Ancona	 (fevereiro	de	1797),	Bonaparte	 se
enamorara	 da	 idéia	 de	 uma	 conquista	 “alexandrina”,	 meditara	 sobre	 a
idéia	 e,	 em	 sua	 correspondência	 com	 Talleyrand,	 dera-lhe	 corpo.	 No
inverno	 seguinte,	 quando	 ϐicou	 claro	 que	 uma	 invasão	 da	 Inglaterra	 era
inviável,	 “o	 sonho	 oriental”	 de	 Napoleão	 reviveu	 prontamente.	 Mesmo	 os
que	criticavam	seus	métodos	ditatoriais	tenderam	a	ver	essa	aventura	com
mais	tolerância.24
Nessa	 perspectiva	 imperial,	 o	 Exército	 do	 Oriente	 e	 seu	 comandante
tiveram	 o	 apoio	 de	 um	 grupo	 de	 cerca	 de	 160	 dos	 mais	 destacados
cientistas,	 artistas,	 engenheiros,	 médicos	 e	 eruditos	 da	 França	 (com	 um
poeta	 e	 um	 ator	 no	 meio),	 que,	 por	 decisão	 de	 Bonaparte,	 deveriam
integrar	 a	 expedição	 com	 a	 ϐinalidade	 de	 promover	 o	 conhecimento
humano.25	A	maioria	desses	sábios	aguardara	ansiosamente	a	convocação,
embora	 ignorasse	 seu	 destino.	 O	 prestígio	 de	 Bonaparte	 era	 capaz	 de
arregimentá-los	 por	 si	 só,	 mas	 ele	 se	 deu	 ao	 trabalho	 de	 se	 empenhar
pessoalmente	 em	 lisonjear	 esses	 tão	 facilmente	 lisonjeáveis	 intelectuais	 e
cientistas.	Em	dezembro	de	1797	o	próprio	general	fora	eleito	para	a	mais
importante	 academia	 francesa	 de	 sábios	 e	 desde	 então	 “Membro	 do
Instituto”	 passara	 a	 ϐigurar,	 antes	 de	 “General-em-Chefe”,	 entre	 seus
títulos.	Uma	soma	signiϐicativa	de	dinheiro	foi	desviada	dos	gastos	militares
e	 usada	 para	 equipar	 les	 savants	 com	 aparelhagem	 cientíϐica	 e	 uma
biblioteca	 transportável.	 Mesmo	 nas	 agruras	 mais	 terríveis	 daquela	 que
seria	a	mais	árdua	campanha	de	Bonaparte	até	a	da	Rússia,	concediam-se
prioridades	aos	cientistas	para	explorar	terrenos,	coletar	amostras	e	fazer
experimentos.	Em	 julho	de	1798	 foi	 fundado	o	 Instituto	do	Egito	no	Cairo.
Suas	 reuniões	 eram	 a	 única	 ocasião	 em	 que	 Bonaparte	 tolerava	 críticas
(por	vezes	descomposturas)	a	si	mesmo	e	às	suas	políticas.	O	exército,	de
sua	 parte,	 sentindo-se	 desconsiderado,	 referia-se	 insolentemente	 aos
savants	 como	 “a	 amante	 favorita	 do	 general”.26	 De	 fato,	 a	 “amante”
sobreviveu	a	 todos	os	demais	na	expedição,	pois	o	 trabalho	que	os	sábios
realizaram	 no	 Egito	 (e	 depois)	 praticamente	 fundou	 a	 ciência	 da
egiptologia	 e	 foi	 talvez	 o	 único	 sucesso	 absoluto	 de	 uma	 aventura
extremamente	controversa.
A	 caminho	do	Egito,	 os	 franceses	 tomaram	a	 estratégica	 ilha	 de	Malta
da	ordem	de	cavaleiros	que	a	governava	desde	o	tempo	das	Cruzadas.	Foi
um	movimento	ousado	e	também	arriscado,	pois	irritou	os	russos,	cujo	czar
era	 o	 protetor	 dos	 cavaleiros.	 No	 dia	 1o	 de	 julho,	 a	 bandeira	 tricolor
francesa	 drapejou	 pela	 primeira	 vez	 no	 continente	 da	 África,	 quando	 o
Exército	 do	 Oriente	 desembarcou	 na	 praia	 de	 Marabout,	 perto	 de
Alexandria.	 Contava	 36.000	 homens	—	 o	mesmo	 efetivo	 do	 exército	 com
que	Alexandre	embarcou	para	a	Pérsia	—	e	fora	conhecido	até	agora	como
“ala	 esquerda	 do	 Exército	 da	 Inglaterra”,	 para	 confundir	 a	 Grã-Bretanha
quanto	a	seu	verdadeiro	destino.	Talleyrand	assegurara	ao	Diretório	que	a
invasão	seria	relativamente	fácil,	pouco	dispendiosa	e	rápida,	exigindo	seis
meses	 de	 execução.	 Como	 essa	 previsão	 foi	 objeto	 de	 uma	 zombaria
histórica,	 lembremos	 que	 ela	 não	 era	 de	 todo	 absurda,	 dada	 a
(des)informação	reinante	sobre	o	estado	das	defesas	e	a	riqueza	do	Egito	e
dado	que	a	frota	britânica	deixara	o	Mediterrâneo	no	ano	anterior.
Num	 plano	 puramente	 militar,	 não	 se	 viram	 grandes	 novidades	 no
Egito,	por	mais	 legendárias	que	tenham	sido	as	vitórias	conquistadas	pelo
o	 Exército	 do	 Oriente	 sob	 o	 comando	 de	 Bonaparte.	 As	 campanhas	 ali
tiveram	momentos	tão	penosos	e	medonhos	como	teriam	no	cenário	russo
em	1812,	mas	eles	não	se	deveram	à	qualidade	dos	generais,	dos	soldados
ou	 da	 estratégia	 dos	 mamelucos	 (ou,	 mais	 tarde,	 dos	 turcos).	 Uma
infantaria	 concentrada,	 disposta	 em	 retângulos	móveis	 e	 com	 armamento
moderno,	 conseguia	 vencer	 facilmente	 surtidas	 desorganizadas	 de
cavalaria	a	brandir	cimitarras.	Assim,	na	famosa	batalha	das	Pirâmides	(21
de	 julho),	 os	 franceses	 perderam	 300	 homens	 para	 os	 2.500	 do	 inimigo.
Nove	 meses	 mais	 tarde,	 no	 monte	 Tabor,	 duas	 desfalcadas	 divisões
francesas	 puseram	 em	 debandada	 um	 exército	 turco	 de	 30.000	 homens;
em	 Abuquir	 no	 mês	 de	 julho	 seguinte	 (1799),	 o	 já	 dizimado	 Exército	 do
Oriente	 quase	 aniquilou	 uma	 força	 otomana	 várias	 vezes	 maior.	 Essas
vitórias	pareceram	“alexandrinas”	aos	contemporâneos,	lembrando-lhes	as
derrotas	 esmagadoras	 inϐligidas	 pelo	 rei	 macedônio	 às	 vastas	 hostes
persas	 de	 Dario	 III.	 Um	 general	 do	 quilate	 de	 Jean-Baptiste	 Kléber,	 o
número	 dois	 de	 Bonaparte	 na	 expedição	 —	 mas	 não	 um	 devoto
incondicional