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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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de	 seu	 comandante	 —	 não	 conseguiu	 se	 conter	 diante	 de
Napoleão	no	monte	Tabor:	“General,	o	senhor	é	grande	como	o	mundo,	e	o
mundo	não	é	grande	o	bastante	para	o	senhor.”
Por	 outro	 lado,	 os	 franceses	 também	 experimentaram	 o	 desastre
militar	—	e	isso	não	demorou	muito.	Em	agosto	de	1798,	na	baía	Abuquir,
perto	de	Alexandria,	uma	frota	britânica	sob	o	comando	de	Horatio	Nelson
alcançou	 os	 franceses	 e	 destruiu	 a	 frota	 mediterrânea	 da	 República.	 A
batalha	 do	 Nilo	 pôs	 ϐim	 à	 presença	 naval	 francesa	 no	 Oriente	 Próximo	 e
impossibilitou	 a	 França	 de	 reforçar	 seu	 exército	 ali.	 Assim	 começou	 o
processo	 de	 erosão	 da	 posição	 francesa	 no	 Egito	 que	 acabou	 por
transformar	 em	piada	 as	 previsões	 de	 Talleyrand	 e	 destruíram	qualquer
esperança	 de	 sucesso	 a	 longo	 prazo	 da	 República	 no	 Oriente.	 Esse	 foi	 o
primeiro,	 mas	 não	 o	 último	 sinal	 da	 importância	 do	 poderio	 naval,	 coisa
que	Bonaparte	 ignorava	—	em	detrimento	de	 si	mesmo	e	da	França.	 Sua
reação	foi	minimizar	a	importância	da	derrota	naval	e	lembrar	ao	exército
que	Alexandre	o	Grande	despachara	 seus	barcos	para	 casa.	Disse	 a	 seus
homens:	“É	nossa	obrigação	fazer	grandes	coisas.	E	haveremos	de	fazê-las.
Fundar	 um	 império?	 Nós	 o	 fundaremos.	 Mares	 que	 não	 dominamos	 nos
separam	da	pátria,	mas	não	da	África	ou	da	Ásia.”
Para	 exorcizar	 os	 fantasmas	 que	 agora	 assombravam	 os	 franceses,
contudo,	 era	preciso	mais	do	que	 linguagem	bombástica.	O	Egito	era	uma
sociedade	 em	 plena	 crise	 econômica;	 provou-se	 tão	 distante	 do	 paraíso
clássico	 da	 imaginação	 dos	 invasores	 quanto	 a	 própria	 França
revolucionária	 estava	 da	 República	 Romana	 que	 invocava	 tão
constantemente.	Para	pasmo	e	desilusão	da	expedição,	 a	 terra	dos	 faraós
revelou-se	 um	 lugar	 estagnado	 e	 imundo,	 cheio	 de	 moscas,	 choças	 de
barro,	 doenças,	 uivos	 de	 cachorro	 e	 superstição.	 Alexandria	 não	 oferecia
nada	digno	de	seu	nome	grandioso.
O	Exército	do	Oriente	mal	estava	conseguindo	enfrentar	essa	realidade
quando,	no	ϐim	de	1798,	a	Porta	declarou	guerra	—	inesperadamente,	pelo
menos	 para	 os	 franceses.	 No	 início	 de	 1799,	 Bonaparte	 marchou	 para	 o
norte	 com	 1.300	 homens,	 rumo	 à	 Síria,	 antecipando	 uma	 invasão	 turca
vinda	 dessa	 direção.	 Seu	 exército	 acumulou	 algumas	 vitórias	 fáceis,	 mas
em	Jafa	encontrou	o	pior	inimigo	que	topara	até	então:	a	peste	bubônica.	A
combinação	 de	 sede,	 calor,	 pestilência	 e	 saudade	 de	 casa	 levou	 muitos
soldados	 franceses	 ao	 desespero,	 alguns	 a	 se	 amotinar,	 não	 poucos	 ao
suicídio	—	 o	 que	 alguns	 cometeram	 diante	 do	 comandante-em-chefe.	 Em
seguida	 Bonaparte	 sofreu	 sua	 primeira	 derrota	 militar	 pessoal.	 Em	 São
João	 d’Acre,	 seu	 cerco	 fracassou	 porque	 a	 cidade	 foi	 abastecida	 e
reforçada	 pelos	 britânicos,	 por	 mar.	 Em	 21	 de	 maio,	 com	 extrema
relutância,	 ele	 suspendeu	 o	 cerco	 e	 marchou	 de	 volta	 com	 seus	 homens
para	o	Cairo	através	do	deserto	causticante.
Foi	então	que	a	situação	dos	franceses	no	Egito	tornou-se	interessante
para	 o	 estudioso	 da	 biograϐia	 de	 Napoleão	 Bonaparte,	 porque	 foi	 ele,
unicamente,	 que	 transformou	essa	 retirada	na 	Anabasis	 de	 Xenofonte	 em
vez	 de	 uma	desintegração.	 Uma	 coisa	 é	 invocar	 a	 três	 por	 dois	 os	 nomes
clássicos,	outra	é	repetir	a	grandeza	clássica.	Como	Xenofonte	a	guiar	seus
espartanos	 para	 fora	 da	 Pérsia,	 Bonaparte	 encarou	 o	 desaϐio	 de	 frente.
Com	 as	 tropas,	 era	 capaz	 de	 ser	 alternadamente	 grandioso	 —	 dizendo-
lhes,	 “Estais	 esquecendo	 que,	 se	 vos	 devo	 minha	 glória,	 eu	 vos	 dei	 a
vossa?”	—	e	implacável:	desdenhando	os	rumores	sobre	motim	em	meio	às
tropas	 e	 os	 “ultimatos”	 de	 seus	 oϐiciais	 (o	 que	 levou	 um	 de	 seus	 porta-
vozes,	 o	 general	 Mireur,	 a	 se	 suicidar).	 Mas	 era	 capaz	 também	 de	 ser
estóico	e	paciente.	Permaneceu	em	silêncio	enquanto	um	irado	engenheiro,
desesperado	 pela	 perda	 de	 um	 amigo	 em	 combate,	 insultou-o
violentamente	 em	 público.	 Por	 ϐim,	 sabia	 ser	 doce.	 Com	 os	 soldados
vitimados	pela	peste	em
Jafa,	 Napoleão	 não	 se	 contentava	 em	 tocá-los	 —	 contra	 as	 enérgicas
objeções	 dos	 médicos	 (“Os	 senhores	 devem	 conhecer	 muito	 pouco
Bonaparte	para	 imaginar	que	há	maneiras	 fáceis	de	mudar	suas	decisões
ou	 intimidá-lo	 com	 ameaças”,disse-lhesDesgenettes,umeminentemédico)
—,chegouatrabalharjunto	 aos	 doentes	 durante	 algum	 tempo,	 na	 tentativa
de	 mostrar-lhes	 que	 a	 doença	 não	 era	 contagiosa	 (quando,	 claro,	 era)	 e
que	ele,	Bonaparte,	não	a	temia.	Era	importante	para	os	soldados,	parecia-
lhe,	não	mostrar	nenhum	medo.	Mais	 tarde,	numa	reunião	do	 Instituto	do
Egito,	 teve	 uma	 discussão	 irada	 com	 Desgenettes	 sobre	 a	 questão	 da
conveniência	ou	não	de	se	informar	a	soldados	em	campanha	que	estavam
com	 uma	 doença	 contagiosa	 ou	 terminal.	 O	 doutor	 considerava	 acertado
informar-lhes;	Bonaparte	era	contra.	“O	senhor	preferiria	ver	um	exército
ou	 uma	 sociedade	 perecer	 a	 abrir	 mão	 de	 um	 de	 seus	 princípios	 de
manual	 escolar”,	 gritou	 para	 Desgenettes.	 Teve	 uma	 outra	 briga	 com	 os
médicos	 sobre	 a	 questão	 da	 conveniência	 de	 dar	 uma	 dose	 de	 ópio	 aos
homens	moribundos	que	não	podiam	 ser	 evacuados	 antes	do	 avanço	dos
exércitos	 turcos.	 Os	 médicos	 achavam	 a	 idéia	 repugnante;	 o	 general,
sabendo	 do	 que	 os	 turcos	 eram	 capazes,	 era	 a	 favor:	 “Estarei	 sempre
disposto	a	 fazer	por	meus	soldados	o	que	faria	por	meu	próprio	 ϐilho.”	As
doses	de	ópio	continuaram	a	ser	ministradas.
Bonaparte	tinha,	assim,	a	capacidade	de	César	de	tomar	decisões	moral
ou	 espiritualmente	 perigosas	 sem	 piscar.	 Sua	 decisão	 mais	 controversa
nessa	campanha	 foi	a	de	executar	 turcos	aprisionados	em	 Jafa	 (março	de
1799).	 Os	 homens	 haviam	 se	 rendido	 diante	 de	 uma	 promessa	 de
clemência	feita	por	oϐiciais	franceses	que	não	tinham	autoridade	para	fazê-
la.	Muitos	desses	turcos	já	haviam	sido	capturados	antes	e	libertados	sob	o
juramento	de	não	voltar	a	lutar	com	os	franceses;	tinham	portanto	faltado
com	a	palavra.	Alegando	necessidade	militar	—	o	exército	não	 teria	 como
manter	 tantos	 homens	 presos,	 nem	 como	 alimentá-los,	 ao	 mesmo	 tempo
em	 que	 soltá-los	 era	 absurdo	 —,	 Bonaparte	 mandou	 que	 fossem
executados.
Em	suma,	a	vigorosa	proclamação	que	Bonaparte	fez	ao	exército	após	a
derrota	 do	 Nilo	 —	 a	 de	 que	 pretendia	 perseverar	 —	 era	 igualada	 pela
incomparável	autoridade	que	tinha	para	persuadir,	pedir	e	ordenar	a	seus
homens	 e	 oϐiciais	 que	 ϐizessem	 o	 mesmo.	 Os	 franceses	 mantiveram	 sua
posição	obstinadamente,	e	essa	 foi	 sua	sorte,	pois	as	adversidades	que	se
abateram	sobre	eles	teriam	derrotado	muitas	hostes.	Napoleão	queria	tudo
menos	ver	seu	exército	desintegrar-se	sob	os	golpes	brutais	do	deserto,	da
derrota	e	da	doença.	O	general	Morand,	amigo	íntimo	de	um	oϐicial	que	se
matou	 após	 uma	 confrontação	 com	 o	 comandante-em-chefe,	 qualiϐicou
Napoleão	no	Egito	de	“o	maior	general	do	século”.	Suas	memórias,	porém,
deixam	 claro	 que	 não	 lhe	 concedeu	 esse	 título	 por	 julgá-lo	 bondoso,
humanitário	 ou	 justo,	 como	 outros	 generais	 foram	 considerados.	 Kléber,
por	exemplo,	era	conhecido	por	ser	bom	para	seus	homens,	poupando-lhes
o	sangue.	Desaix,	o	outro	braço	direito	de	Bonaparte,	que	governou	o	Alto
Egito,	ganhou	ali	a	alcunha	de	sultão	El-Adel,	o	sultão	 justo.	Bonaparte,	no
entanto,	 assombrava	 o	 inimigo	 e	 arrebatava	 a	 imaginação	 de	 seus
soldados.	O	nome	que	lhe	deram	foi	sultão	El-Kebir,	o	“soberano	de	fogo”.
Eis	 aqui	 uma	descrição	 dele	 feita	 pelo	 jovem	 retratista	 francês	Michel
Rigo	(1770-1815),	que	participou	da	expedição.	Na	véspera	da	batalha	de
Abuquir,	 ele	 dormiu	 perto	 de	Napoleão	 e	 ϐicou	 fascinado	 por	 seu	 rosto	 e
seus	 movimentos.	 Havia,	 contou