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[IC]™ENGLUND, Steven. Uma biografia política

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mais	 tarde	 a	 um	 colega,	 “algo	 em	 [seu
rosto]	 tão	 agudo,	 tão	 reϐlexivo,	 tão	 terrível,	 que	 o	 impressionou	 para
sempre,	 e	 nessa	 noite,	 quando	 todos	 os	 demais	 estavam	mergulhados	 no
sono,	 não	 pôde	 se	 impedir	 de	 espiálo.	 Por	 alguns	 instantes	 observou
Napoleão	pegar	os	compassos	e	um	mapa	de	Abuquir	e	do	Mediterrâneo,
fazer	medidas,	 pegar	 uma	 régua	 e	 traçar	 linhas.	 Em	 seguida	 levantou-se,
foi	até	a	porta	de	sua	barraca	e	ϐitou	o	horizonte;	depois	entrou	de	novo	na
tenda	e	consultou	seu	relógio;	passados	alguns	momentos,	pegou	uma	faca
e	 fez	 talhos	 de	 todo	 tipo	 na	 mesa,	 como	 um	 menino.	 Depois	 pousou	 a
cabeça	na	mão,	olhou	de	novo	o	relógio	por	algum	tempo,	foi	outra	vez	até
a	 porta	 da	 tenda	 e	 de	 novo	 voltou	 para	 sua	 cadeira.	 Havia	 algo	 de
peculiarmente	 sinistro	 nas	 circunstâncias	 —	 a	 hora	 da	 noite	 —	 seus
generais	 dormindo	 profundamente	 —	 os	 traços	 fortes	 de	 Bonaparte
iluminados	 por	 uma	 lâmpada	 —	 a	 sensação	 de	 que	 os	 turcos	 estavam
acampados	 ali	 perto	 e	 de	 que	 uma	 batalha	 pavorosa	 não	 demoraria	 a
começar	 ...	 Pouco	 depois	Napoleão	 acordou	 todos	 os	 homens,	mandou	 vir
seu	cavalo	e	perguntou	quanto	tempo	faltava	para	o	romper	do	dia.”27
O	sultão	El-Kebir	—	o	governo	do	Egito
Bonaparte	 desembarcou	 na	 praia	 de	 Marabout	 sem	 qualquer	 outro
plano	 a	 não	 ser	 fundar	 uma	 colônia,	 reanimar	 o	 mercantilismo	 ou	 criar
uma	 república	 irmã.	 Havia	meditado	 profundamente,	 entretanto,	 sobre	 o
que	 poderia	 encontrar	 ali	 e	 sobre	 como	 deveria	 reagir.	 Tinha	 aguda
consciência	 de	 que	 um	 evento	 capital	 da	 história	 do	 mundo	 alterara	 o
“Oriente”,	como	o	século	XVIII	chamava	o	Oriente	Próximo	desde	os	tempos
de	 Alexandre:	 o	 surgimento	 do	 islã.	 Entre	 o	 exército	 francês	 e	 seus
venerados	antepassados	clássicos	caía	a	sombra	das	Cruzadas.	O	Exército
do	Oriente	era	a	primeira	força	militar	européia	a	pisar	no	Dar-al-Islam	(o
mundo	islâmico)	desde	1250,	quando	o	rei	francês	Luís	IX	fora	derrotado	e
aprisionado	 perto	 daquela	 mesma	 praia	 em	 que	 seu	 sucessor	 agora
desembarcava.	Os	séculos	de	incompreensão	mútua	e	indiferença	popular
que	se	seguiram	à	desventura	de	são	Luís	haviam	levado	Volney,	o	maior
“especialista	no	Egito”	do	 tempo	de	Bonaparte,	a	advertir	 seus	 leitores	de
que	 não	 era	 nem	 a	 Inglaterra	 nem	 a	 Turquia	 que	 bloqueavam	 uma
penetração	francesa	no	Egito:	era	o	islã.
Bonaparte	já	estava	em	guerra	com	a	Inglaterra,	e	agora	com	os	turcos,
mas	 não	 tinha	 nenhum	 desejo	 de	 fazer	 guerra	 ao	 islã.	 Ao	 contrário,
proclamou	aos	quatro	ventos	seus	bons	sentimentos	para	com	a	religião	de
Maomé.	 “As	 legiões	 romanas	 haviam	 protegido	 a	 religião”,	 disse,	 e	 o
exército	francês	faria	mais	ainda.	Os	franceses	datavam	suas	proclamações
tanto	no	calendário	revolucionário	quanto	no	islâmico	(mas	não	no	cristão);
promulgavam-nas	não	 só	em	 francês	 como	em	árabe.	Freqüentemente	as
versões	 árabes	 continham	uma	 linguagem	 religiosa	mais	 vigorosa	 que	 as
francesas.28
Mas,	 se	 seu	 interesse	 pelo	 islã	 e	 o	 Egito	 era	 sincero,	 Bonaparte	 não
considerava	 que	 o	 intercâmbio	 franco-egípcio	 se	 dava	 entre	 iguais	 em
outras	 esferas	 além	 da	 religiosa.	 Em	 cultura,	 política,	 tecnologia	 e
organização	 social,	 ele,	 seu	 exército	 e	 os 	 savants	 chegaram	 ansiosos	 para
dar	 lições.	 Se	 estavam	 dispostos	 a	 proteger	 e	 valorizar	 o	 islã	 e	 a	 história
egípcia	 clássica,	 os	 recém-chegados	 pretendiam	 por	 outro	 lado	 levar
“esclarecimento”	 e	 “desenvolvimento”	 ao	 Egito,	 mesclar	 os	 “direitos	 do
homem”	 com	 a	 “lei	 do	 Corão”.	 Da	 perspectiva	 do	 Egito,	 os	 europeus
invadiram	 de	 repente	 seu	 cenário	 como	 uma	 força	 estrangeira,	 hostil	 e
avassaladora.	 Por	 pior	 que	 tivesse	 sido	 a	 impressão	 que	 causou	 aos
franceses,	 o	 Egito	 não	 era	 um	 charco	 estagnado,	 nem	 uma 	 tabula	 rasa
ansiosa	 para	 ter	 estrangeiros	 a	 impingir-lhes,	 arma	 de	 fogo	 em	 punho,
suas	idéias	de	modernidade.	É	verdade	que	a	economia	do	país	estava	em
depressão,	mas	ϐizera	signiϐicativo	progresso	no	século	XVIII,	além	de	estar
passando	por	certo	florescimento	cultural.
O	que	escapou	às	previsões	de	Napoleão	foi	o	grau	e	a	persistência	da
desconϐiança	que	os	muçulmanos	alimentavam	dos	 franceses,	de	par	com
sua	relativa	indiferença	a	noções	ocidentais	de	reforma.	Constatou	também
que	o	islã	não	era	tão	maleável	nas	mãos	do	Estado	como	esperara.	Vendo
no	 maometismo	 (como	 era	 conhecido)	 uma	 religião	 sem	 hierarquia	 ou
clero,	 tal	 como	 os	 católicos	 entendiam	 essas	 coisas,	 supôs	 que	 era
facilmente	 controlável	 pela	 autoridade	 leiga.	 Na	 verdade,	 passava-se	 o
contrário:	no	Dar-al-Islam,	o	Estado	é	que	era,	ele	próprio,	uma	expressão
da	religião,	e	todo	governo	ou	instituição	política	que	não	fosse	um	produto
da	 religião	 era	 condenado	 como	 estrangeiro.	 Por	 ϐim,	 a	 imagem	 que
Napoleão	tinha	do	próprio	Maomé	—	inspirada	na	ϐigura	da	peça 	Mahomet
de	Voltaire,	 um	 líder	 popular	 arrebatador	 e	 um	 ϐilósofo	 pragmático	 cujos
ensinamentos	 podiam	 ser	 facilmente	 harmonizados	 com	 as	 idéias
iluministas	 do	 século	 XVIII	 —	 não	 coincidia	 exatamente	 com	 a	 dos
muçulmanos.
Por	 algum	 tempo,	 surpreendentemente,	 as	 coisas	 caminharam	bem,	 e
não	apenas	em	razão	do	poder	 francês.	Foi	possível	 convencer	aos	povos
do	Egito	—	chamar	esses	grupos	sociais	e	culturais	díspares	de	“egípcios”
é	um	anacronismo	—	de	que	a	derrubada	dos	mamelucos	 fora	realmente
um	 beneϐício	 análogo	 à	 derrubada	 do	 Antigo	 Regime	 pelos	 franceses,	 e
outras	reformas	 francesas	—	p.ex.,	obras	públicas,	 instalação	de	hospitais
e	postos	de	saúde	—	mais	agradavam	que	ofendiam	à	população.	Por	ϐim,
as	 atividades	 dos	 cientistas	 na	 expedição,	 longe	 de	 se	 limitar	 à	 elevada
cultura	do	delta	do	Nilo,	concentravase	em	projetos	que	beneϐiciavam	todo
o	pais	(ou	o	teriam	feito,	se	tivesse	havido	tempo	para	implantá-los.)
Mas,	 verdade	 seja	 dita,	 o	 encontro	 entre	 as	 duas	 culturas	 não	 foi
realmente	capaz	de	produzir	centelhas.	Os	franceses	—	seus	costumes,	sua
língua	 —	 eram	 tão	 estranhos	 e	 estrangeiros	 que	 pareciam	 vir	 de	 outro
planeta.	Muitas	vezes	se	comportavam	como	agressores	arrogantes.	O	fato
é	 que,	 sob	muitos	 aspectos,	 a	 interação	 franco-egípcia	 lembrava	 o	 apreço
que	cada	lado	tinha	pela	música	do	outro:	nenhum.	Grande	parte	da	massa
do	povo	egípcio	acreditava	sinceramente	que	tudo	que	valia	a	pena	saber
já	 estava	explícito	ou	 claramente	 implícito	no	Corão.	Pior,	muitas	medidas
napoleônicas	 ultrajavam	 as	 pessoas.	 Algumas	 regras	 eram	 consideradas
invasões	da	vida	familiar	e	as	medidas	de	segurança	militar	reforçavam	os
rumores	 de	 que	 os	 franceses	 pretendiam	 massacrar	 os	 muçulmanos.
Decretos	 em	 favor	 das	 mulheres,	 dos	 judeus	 e	 dos	 cristãos	 coptas	 ou	 a
exigência	 do	 hasteamento	 da	 bandeira	 tricolor	 nos	 minaretes	 das
mesquitas,	 tinham	 um	 impacto	 tão	 negativo	 quanto	 a	 imposição	 de
impostos	elevados	para	sustentar	o	exército	francês.
Decidido	 a	 provar	 ao	 mundo	 que	 conseguiria	 governar	 o	 Egito
conquistando	 os	 corações	 e	 mentes	 muçulmanos,	 Bonaparte	 tentou	 uma
estratégia	ousada	—	ainda	mais	interessante	por	colidir	frontalmente	com
as	políticas	leigas	que	defendia	na	França	ou	na	Itália.	Tradicionalmente,	os
otomanos	e	mamelucos	 tinham	buscado	diminuir,	 tanto	quanto	possível,	 a
ingerência	 direta	 da	 autoridade	 religiosa	 na	 esfera	 política.	 Os	 franceses
resolveram	 então	 ampliá-la,	 acentuando	 por	 exemplo	 a	 importância	 que
tinha	 para	 o	 Egito	 o	 distante	 “xerife”	 (ou	 imã	 chefe)	 de	 Meca,	 um	 líder
religioso	 que	 tinha	 prestígio	 mas	 nenhum	 poder	 no	 Império	 Otomano.
Numa	 medida	 mais	 importante,	 após	 expulsar	 a	 casta	 política	 dos
mamelucos,