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Síndrome Anêmica - Fernando Zanette

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Raciocínio clínico 4ª Fase – Fernando Netto Zanette – Med. UFSC 13.2 
 Síndrome anêmica 
A SÍNDROME ANÊMICA se caracteriza pela DIMINUIÇÃO DA MASSA ERITROCITÁRIA TOTAL ou da QUANTIDADE 
DE HEMOGLOBINA (HB), alcançando valores considerados abaixo do normal para a idade, sexo, estado fisiológico 
e altitude. 
As CÉLULAS ERITROCITÁRIAS – também chamadas de hemácias ou glóbulos vermelhos – têm por função 
essencial a captação e o transporte de oxigênio dos pulmões para os tecidos, bem como o fluxo inverso de dióxido 
de carbono dos tecidos aos pulmões, onde é prontamente eliminado pela respiração. Esse papel indispensável dos 
eritrócitos é possível graças à existência da HEMOGLOBINA - 
uma proteína tetramérica composta por um grupo heme e pela 
globina -, onde ocorre a LIGAÇÃO DO OXIGÊNIO. Com a defi-
ciência decorrente da anemia, logo, o ciclo normal de trans-
porte do oxigênio se vê diminuído, comprometendo as fun-
ções metabólicas dos diversos órgãos do corpo. Dessa ma-
neira, a sintomatologia comum de pacientes com síndrome 
anêmica – em quadros agudos ou crônicos descompensados, 
principalmente – enquadra-se como fraqueza, astenia, letar-
gia e cansaço, em diversos casos sendo acompanhada de dis-
pneia, taquicardia, hipotensão ortostática, sopro sistólico 
(em ápice), palpitações, angina, palidez cutaneomucosa, ver-
tigem, zumbidos, cefaleia, entre outros. 
 Toda síndrome anêmica precisa ser caracteri-
zada laboratorialmente por meio do hemograma. 
Na prática, não se demonstra tão fácil a mensuração da 
massa eritrocitária, e a anemia usualmente é diagnosticada com base em uma REDUÇÃO NO HEMATÓCRITO (pro-
porção de glóbulos vermelhos em relação ao volume sanguíneo total) e na CONTRAÇÃO DE HEMOGLOBINA. La-
boratorialmente, define-se a anemia como hematócrito inferior a 33% em mulheres ou 40% em homens; e/ou 
hemoglobina inferior a 12 g/dL em mulheres ou 13 g/dL em homens. 
Antes de entrarmos na síndrome anêmica em si, abordaremos, a fim de facilitar a compreensão do espectro 
das doenças, os processos e mecanismos básicos da formação dos eritrócitos. 
 Eritropoiese 
A ERITROPOIESE – componente da hematopoiese – consiste no processo de PRODUÇÃO DE ERITRÓCITOS, cujo 
sítio de ação se localiza na medula óssea vermelha. Nos ossos longos, com exceção das porções proximais do 
úmero e da tíbia, essa medula óssea sofre conversão gradual para medula óssea amarela, repleta de gordura, 
deixando de produzir os eritrócitos aproximadamente aos 20 anos de idade. Após essa idade, a medula óssea dos 
ossos membranosos - como vértebras, esterno, costelas e íleo - encarrega-se da produção. 
Na medula óssea, um tipo único celular referido como CÉLULA-TRONCO HEMATOPOÉTICA PLURIPOTENTE 
destaca-se como o progenitor do qual derivam todas as células do sangue circulante. À medida que essa célula 
Esquematização da concentração eritrocitária no paciente normal e no 
paciente anêmico 
tronco se reproduz, uma pequena parcela permanece como células de reserva, exatamente como as originais, ao 
passo que a maioria sofre um processo de DIFERENCIAÇÃO (célula-
tronco comprometida), dando origem a diversas outras linhagens celu-
lares. Levando em consideração que esse arquivo se foca na síndrome 
anêmica, não nos aprofundaremos em todas os grupos de células, e sim 
nas PRECURSORAS ERITROCITÁRIAS. 
As CÉLULAS PRECURSORAS ERITROCITÁRIAS se desenvolvem na 
medula a taxas usualmente determinadas pela quantidade circulante de 
hemoglobina para realizar uma oxigenação tecidual adequada. Partindo 
da célula-tronco hematopoiética pluripotente, temos o surgimento da pri-
meira célula pertencente à linhagem vermelha, o PROERITROBLASTO. 
Este, por sua vez, divide-se diversas vezes antes que possa formar o eri-
trócito maduro. As células da primeira geração recebem a denominação 
de ERITROBLASTOS BASÓFILOS ou NORMOBLASTOS BASÓFILOS, com acú-
mulo de pequena quantidade de hemoglobina. Nas gerações sucessivas 
– ERITROBLASTOS POLICROMATÓFILO e ERITROBLASTO ORTOCROMÁ-
TICO – processa-se um aumento gradativo da concentração de hemo-
globina celular, chegando a cerca de 34%; o núcleo se condensa até um 
tamanho muito pequeno, e seu resíduo final sofre absorção ou excreção 
pela célula, transformando-a em uma CÉLULA ANUCLEADA. Nesse está-
gio, temos o chamado RETICULÓCITO, o antecessor direto do eritrócito. 
Quando temos altos níveis de reticulócitos na circulação periférica, 
há o indicativo de um hiperfuncionamento da medula óssea, como nos 
casos de anemias hemolíticas; ao passo que níveis reduzidos indicam um hipofuncionamento, a exemplo das 
anemias hipoproliferativas. 
 
Durante o estágio de reticulócito, as células saem da medula óssea, entrando nos capilares sanguíneos por 
diapedese e permanecendo na circulação por aproximadamente UM A DOIS DIAS para, finalmente, diferenciarem-
se em ERITRÓCITOS MADUROS. Em decorrência do curto período de vida dos reticulócitos, sua concentração entre 
as outras células da linhagem vermelha do sangue se apresenta, 
em condições não patológicas, de pouco menos de 1%. Deve-
se salientar que todo o processo de formação do eritrócito, 
desde sua célula-tronco hematopoiética até sua versão final ma-
dura, dura vários dias. 
O eritrócito maduro se caracteriza como uma célula alta-
mente maleável, podendo modificar seu diâmetro de acordo 
com o calibre do vaso onde se encontra, e, de um modo geral, 
ele permanece na circulação por volta de 120 dias. A partir da-
qui, então, é capturado e destruído por células fagocitárias do 
sistema reticuloendotelial, sendo que o baço se salienta como o 
órgão mais importante nesse processo de reciclagem das hemá-
cias (hemólise). 
 Regulação da eritropoiese 
A eritropoiese, para que ocorra de forma adequada, encontra-se atrelada a inúmeros precursores, fatores de 
estímulo e de atenuação. O principal responsável por trás da regulação desse processo se mostra a ERITROPOE-
TINA, um hormônio glicoproteico produzido majoritariamente (90%) pelos rins. 
De uma forma geral, qualquer acontecimento que leve a uma diminuição da oxigenação tecidual – como 
hipovolemia, anemia, hemoglobina baixa, fluxo sanguíneo deficiente, hemodiluição gravídica e doenças pul-
monares –, sendo percebida como uma hipoxia pelo tecido renal, leva a um aumento na síntese e liberação de 
eritropoetina e, consequentemente, na eritropoiese. 
Ilustração do processo de desenvolvimento da célula-
tronco pluripotente, na medula óssea, até o eritrócito ma-
duro no sangue 
Imagem histológica da morfologia de cada estágio dos precursores do eri-
trócito 
Concentrações adequadas de proteínas, carboidratos, gorduras, sais minerais e vitaminas possuem um papel 
essencial na formação de hemácias. Os elementos mais importantes desses dois últimos grupos são o ferro, o 
ácido fólico e a cobalamina. 
O FERRO, componente essencial da síntese de he-
moglobina pelos eritroblastos em maturação e cuja 
absorção se torna facilitada na presença concomitante 
de ácido ascórbico (vitamina C), necessita de um com-
ponente proteico, a transferrina, para transportá-lo à 
medula óssea e aos órgãos de estocagem, dos quais o 
fígado se destaca como o principal. A deficiência de 
ferro, melhor explicada posteriormente, logo, reper-
cute no mecanismo de eritropoiese, debilitando a pro-
dução adequada dos eritrócitos. 
A COBALAMINA (vitamina B12), para ser absor-
vida pelo organismo, necessita de outro componente 
proteico, chamado de fator intrínseco, localizado no 
suco gástrico e sendo, assim, secretado pela mucosa gástrica. Em virtude disso, qualquer alteração da mucosa 
gástrica – como em cirurgias bariátricas com retirada de porções do estômago – pode levar a uma deficiência 
de cobalamina, influenciando a eritropoiese