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TEORIA GERL DO PROCESSo

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diferente segundo a qual já nos encontraríamos em uma 4ª 
fase do processo, sendo esta denominada por Fredie Didier Jr. (2015) 
como neoprocessualista (em uma alusão ao neoconstitucionalismo). 
No mesmo sentido, o professor Carlos Alberto Álvaro de Oliveira (2009) 
chama essa 4ª fase de formalismo-valorativo, exatamente pela impor-
tância que damos hoje aos valores constitucionalmente protegidos na 
pauta de direitos fundamentais na edificação e aplicação do formalismo 
processual. Em outras palavras, os princípios processuais foram elevados 
ao status de direitos fundamentais pelo que suas premissas agora se 
encontram protegidas pela constitucionalização do Direito Processual. 
Para saber mais sobre o tema, leia:
46 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
DIDIER JR., F. Curso de Direito Processual Civil. 18. ed. Salvador: Ed. 
Juspodivm, 2015.
OLIVEIRA, C. A. A. de. Do formalismo no processo civil: proposta de 
um formalismo-valorativo. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 258.
Verificadas as linhas evolutivas do processo, podemos aprofundar nossa 
análise, buscando resposta à seguinte questão: qual é a relação entre o ponto 
de vista em que entendemos o processo e o acesso à Justiça?
 Ora, se atualmente entendemos que o processo não é um fim em si 
mesmo, mas, ao contrário, é um instrumento para que o jurisdicionado tenha 
seu conflito pacificado, deve-se concluir que o ordenamento jurídico, para 
que o processo desempenhe bem tal função, deve possibilitar que o acesso 
à Justiça não se trate apenas de um princípio constitucional formalmente 
considerado, mas, sim, que se concretize na prática por meio de efetivas 
condutas estatais voltadas para tal amplo acesso.
Assim, quando se preceitua, no art. 5º, inciso XXXV (BRASIL, 1988), 
que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a 
direito”, está se afirmando que toda lesão ou ameaça de lesão a direito deverá 
ser resguardada pelo Poder Judiciário, ou ainda, que todo jurisdicionado que 
tiver seu direito lesado ou simplesmente ameaçado deverá encontrar amparo 
estatal suficiente para preservação de sua pretensão. Garante-se, portanto, 
por meio do referido princípio, o amplo acesso à justiça, que é um dos pilares 
do Estado Democrático de Direito.
No entanto, para que tal princípio se concretize, não basta sua previsão 
constitucional. Não basta, ainda, que seja aberta a possibilidade de que o 
cidadão, diante de um conflito de interesses, possa buscar o Poder Judiciário. Há 
necessidade de que o ordenamento jurídico forneça instrumentos suficientes 
para que, na prática, o jurisdicionado tenha efetivo acesso à justiça. É justa-
mente por isso que Cintra, Grinover e Dinamarco doutrinam que:
[...] acesso à justiça não se identifica, pois, com a mera admissão 
ao processo ou possibilidade de ingresso em juízo. Para que haja a 
efetiva institucionalização do acesso à justiça, é indispensável que 
o maior número possível de pessoas seja admitido a demandar e 
a defender-se adequadamente (inclusive em processo criminal), 
sendo também condenáveis as restrições quanto a determinadas 
causas (pequeno valor, interesses difusos); mas para a integrali-
dade do acesso à justiça é preciso isso e muito mais. (2015, p. 56)
“
Seção 1.3 / Acesso à justiça e constitucionalização do processo - 47
Reflita
Em relação ao acesso à justiça, a doutrina processual tem se ocupado 
em identificar os fatores que dificultam o acesso à justiça. Entre eles, a 
doutrina classifica os entraves não jurídicos e os jurídicos.
Os entraves não jurídicos seriam a pobreza, que dificulta o acesso 
ao judiciário e causa desigualdade material no desenvolvimento do 
processo; a ausência de informação, decorrente dos problemas educa-
cionais do país. Problemas de natureza simbólica, que se caracterizam 
até mesmo por fatores psicológicos, também influenciam a dificuldade 
em acessar a justiça.
Por outro lado, os entraves jurídicos são considerados como custas e 
despesas processuais de alto valor, falta de aparelhamento das insti-
tuições voltadas à assistência judiciária, como a Defensoria Pública, 
duração do processo, formalismo processual, entre outros, são fatores 
dificultadores de acesso à justiça.
Você acha que existem outros fatores que dificultam o acesso do juris-
dicionado à justiça?
Os entraves de acesso à justiça acabam originando uma interessante 
reflexão: o custo social, político, econômico e emocional do acesso à justiça 
(RODRIGUES; LAMY, 2018, p. 123).
Com isso, já podemos concluir que o princípio do acesso à justiça deverá 
necessariamente ser usufruído, na prática, por todos os jurisdicionados, 
sendo dever do Estado fornecer as medidas por meio das quais tal acesso 
será viabilizado.
Exemplificando
Assim, exemplificativamente, há previsão constitucional de que o 
Estado deverá prestar assistência jurídica integral e gratuita para quem 
comprove insuficiência de recursos (BRASIL, 1988, art. 5º, LXXIV). Como 
exemplo do cumprimento do dever do Estado de dar concretude ao 
princípio do acesso à justiça, podemos citar a Defensoria Pública, insti-
tuição voltada à defesa dos necessitados, ou seja, jurisdicionados que 
não têm possibilidade de arcar com a remuneração de advogados parti-
culares. É assim que a Constituição Federal expressamente prevê, em 
seu art. 134, que 
[...] a Defensoria Pública é instituição permanente, 
essencial à função jurisdicional do Estado, incum-
bindo-lhe, como expressão e instrumento do regime 
“
48 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
democrático, fundamentalmente, a orientação 
jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, 
em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos 
individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos 
necessitados. (BRASIL, 1988)
Ademais, também a legislação infraconstitucional busca dar concretude aos 
ditames do acesso à justiça quando estabelece as regras referentes à gratui-
dade do acesso a ela. É assim que o art. 98, do Código de Processo Civil 
(BRASIL, 2015), estabelece que “a pessoa natural ou jurídica, brasileira ou 
estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas 
processuais e os honorários advocatícios têm direito à gratuidade da 
justiça”. A gratuidade engloba as taxas ou custas judiciais, as despesas com 
publicação na imprensa oficial, os depósitos exigidos por lei, dentre outros. 
A própria Lei nº 1.060/1950 (BRASIL, 1950) é um marco sobre o tema.
Tal principiologia se reflete também no próprio desenrolar do processo, 
com a necessária concessão de oportunidade para que as partes 
apresentem manifestações acerca dos eventos processuais. Devem 
as partes, portanto, ter o direito de influenciar de forma efetiva nas 
decisões que serão proferidas no processo, o que também dá concre-
tude ao acesso à justiça, pleno e efetivo.
Assimile
Por tudo o que vimos até o momento, fica claro o intuito do ordena-
mento jurídico brasileiro: de que o acesso à justiça se dê não apenas no 
plano formal (com a garantia legislativa de que toda lesão ou ameaça 
de lesão a direito será objeto de proteção jurisdicional), mas, principal-
mente, de que tenha tal princípio concretude e aplicabilidade práticas 
para o jurisdicionado. Atingido esse objetivo, certamente se alcançará 
uma melhor qualidade na prestação jurisdicional.
Dessa sorte, é importante que se veja que de nada adiantaria a previsão 
constitucional do princípio do acesso à justiça, sem outras tantas previsões 
legislativas que impõem condutas práticas no sentido de garantir efetiva-
mente a todos que as lesões e ameaças de lesão a direitos sejam objeto de 
proteção estatal.
Pesquise mais
Para aprofundar o estudo acerca do acesso à justiça e as linhas evolu-
tivas do processo, indicamos a seguinte leitura complementar:
Seção 1.3 / Acesso à justiça e constitucionalização do processo -