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Morte e Vida das Grandes Cidades - Jane Jacobs

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ainda elementos efêmeros de estabilização de bens ou de sua vi-
zinhança ou distrito.
Filadélfia serve quase como uma experiência controlada nes-
se aspecto. Quando Penn* projetou a cidade, colocou em seu cen-
tro uma praça, hoje ocupada pela Prefeitura, e, eqüidistantes do
centro, quatro praças residenciais. O que aconteceu com essas
quatro, todas da mesma idade, do mesmo tamanho, com a mes-
ma destinação e praticamente as mesmas supostas vantagens de
localização?
O destino de cada uma é muitíssimo diferente.
A mais conhecida das quatro praças de Penn é a Rittenhouse
Square, um parque adorado, bem-sucedido e muito freqüentado,
atualmente um dos maiores patrimônios de Filadélfia, núcleo de
um bairro elegante - na verdade, o único dos bairros tradicionais
de Filadélfia que está revitalizando espontaneamente sua área
periférica e valorizando seus imóveis.
O segundo dos pequenos parques de Penn é a Franklin Square,
um parque de submundo, onde se juntam os sem-teto, os de-
sempregados e os indigentes, em meio a cortiços, pensões, esta-
belecimentos religiosos, lojas de roupas usadas, salas de leitu-
ra, casas de penhores, agências de emprego, estúdios de tatua-
gem, casas de shows e lanchonetes. O parque e seus freqüentado-
* William Penn (1644·1718) governou a colônia da Pensilvânia por dois anos, entre 1682 e
1684, a qual lhe havia sido concedida pelo rei inglês Carlos 11como pagamento de uma dívida.
Penn projetou e batizou a cidade de Filadélfia. O plano consistia de uma malha ortogonal de 22
por oito quadras. (N. do T.)
A NATUREZA PECULIAR DAS CIDADES 101
res têm má fama, mas o local não é perigoso, nem há crimes.
Entretanto, o parque nunca funcionou como âncora do valor de
imóveis ou da estabilidade social. Planeja-se desocupar inteira-
mente a vizinhança.
O terceiro é a Washington Square, no meio de uma região
que foi centro de comércio mas hoje é uma área de escritórios -
companhias de seguros, editoras, empresas de publicidade. Há
várias décadas, a Washington Square tomou-se um local de per-
versão, a ponto de ser evitado pelo pessoal dos escritórios na ho-
ra do almoço e constituir um problema insolúvel de tráfico e cri-
me para os funcionários do parque e a polícia. Em meados dos
anos 50, o parque foi revolvido, ficou fechado por mais de um
ano e foi reprojetado. Durante esse período, seus freqüentadores
se dispersaram, e era essa a intenção. Hoje, tem uso escasso e
aleatório e está quase sempre vazio, a não ser na hora do almoço,
nos dias de tempo bom. O bairro da Washington Square, como o
da Frank1in Square, não conseguiu preservar os imóveis, quanto
mais valorizá-los, Hoje se planeja reurbanizar inteiramente toda
a área à volta do perímetro dos escritórios.
A quarta das praças de Penn foi reduzida a uma pequena ilha
de tráfego, Logan Circle, no Benjamin Franklin Boulevard, um
exemplo do modelo do City Beautiful. A rotatória foi adornada
com um chafariz que jorra alto e um jardim bem cuidado. Ainda
que não seja convidativo ir lá a pé e se trate mais de um local para
ser visto para quem passa de automóvel, a rotatória recebe um pu-
nhado de pessoas nos dias claros. O bairro vizinho ao centro cultu-
ral monumental que ela integrou deteriorou-se incrivelmente, teve
seus cortiços removidos e foi transformado em Ville Radieuse.
Os destinos diferentes dessas quatro praças - principalmente
as três que continuam sendo praças - ilustram o desempenho in-
constante que caracteriza os parques urbanos. Elas também ilus-
tram boa parte dos princípios fundamentais que norteiam o de-
sempenho dos parques, e eu pretendo retomá-los e a suas lições
em breve.
O desempenho instável dos parques e de sua vizinhança che-
ga a extremos. Um dos parques pequenos mais encantadores de
todas as cidades norte-americanas, o Plaza de Los Angeles, cir-
102 MORTE EVIDA DE GRANDES CIDADES
cundado por imensas magnólias, um lugar adorável, cheio de
sombras e história, está hoje infelizmente rodeado, em três fa-
ces, por prédios abandonados e uma imundície tão deplorável
que o mau cheiro se espalha pelas calçadas. (Na quarta face há
uma loja para turistas que está indo bem.) O Madison Park de
Boston, área verde gramada de uma área residencial com casas
geminadas, exatamente o tipo de parque que está surgindo atual-
mente em muitos dos projetos de revitalização sofisticados,
constitui o núcleo de um bairro que parece ter sido bombardea-
do. As casas à sua volta - muito parecidas com aquelas que são
muito procuradas no entorno da vizinhança da Rittenhouse
Square, de Filadélfia - perderam o valor e estão desmoronando
com o conseqüente descaso. Quando uma das casas de uma série
sofre uma rachadura, ela é demolida, e a família da casa ao lado
é retirada por segurança; poucos meses depois, esta também se
vai, e a seguinte é evacuada. Não existe um plano por trás disso;
nada senão espaços escancarados, entulho e abandono não in-
tencionais, com o pequeno parque fantasma, teoricamente uma
ótima âncora de áreas residenciais, no centro da devastação. O
Federal RiU, em Baltimore, é um parque lindíssimo e tranqüilo,
que proporciona a melhor vista da cidade e da baía. A vizinhan-
ça, embora respeitável, está agonizante, como o próprio parque.
Não conseguiu, geração após geração, atrair o interesse de novos
moradores. Um dos fracassos mais amargos da história dos con-
juntos habitacionais é que parques e áreas livres nesses locais
não foram capazes de valorizar a vizinhança ou ao menos estabi-
lizá-Ia, quem diria melhorá-Ia. Observe o entorno de qualquer
parque urbano, praça pública ou área verde de conjunto habita-
cional: é muito raro encontrar uma área livre com um entorno
que espelhe convenientemente o propalado magnetismo ou a in-
fluência estabilizadora que os parques possuiriam.
E lembre-se também dos parques que ficam vazios a maior
parte do tempo, como ocorre com o lindo Federal RiU, de Balti-
more. Nos dois melhores parques de Cincinnati, voltados para o
rio, consegui contar, numa tarde esplêndida e quente de setem-
bro, um total de cinco pessoas (três garotas adolescentes e um ca-
sal de jovens); ao mesmo tempo, na cidade, uma rua após a outra
A NATUREZA PECULIAR DAS CIDADES 103
fervilhava de gente passeando, mesmo sem dispor das mais in-
significantes instalações para apreciar a cidade e a ínfima gene-
rosidade de uma sombra. Numa tarde parecida, com a tempera-
tura acima de 30°C, consegui contar no parque de Corlears Hook
- um oásis ajardinado diante do rio, com brisa fresca, no super-
povoado Lower East Side de Manhattan - só dezoito pessoas, a
maioria delas homens sozinhos, aparentemente indigentes', Não
havia crianças. Mãe alguma, com a cabeça no lugar, permitiria
que seu filho ficasse lá sozinho, e as mães do Lower East Side
não perderam a cabeça. Um passeio de barco à volta de Man-
hattan transmite a errônea impressão de que é uma cidade com-
posta principalmente de áreas verdes - e quase desprovida de
habitantes. Por que é tão freqüente não haver ninguém onde há
parques e nenhum parque onde há gente?
Os parques impopulares preocupam não só pelo desperdício
e pelas oportunidades perdidas que implicam, mas também pe-
los efeitos negativos constantes. Eles sofrem do mesmo proble-
ma das ruas sem olhos, e seus riscos espalham-se pela vizinhan-
ça, de modo que as ruas que os margeiam ganham fama de peri-
gosas e são evitadas.
Além do mais, os parques de pouco uso e seus equipamentos
são alvo de vandalismo, o que é bem diferente do desgaste por
uso. Esse fato foi reconhecido indiretamente por Stuart Consta-
ble, então diretor do Departamento de Parques da cidade de Nova
York, quando a imprensa lhe perguntou sobre a proposta feita
em Londres de instalar televisores nos parques. Depois de afir-
mar que os televisores não eram adequados para parques, Cons-
table acrescentou: "Acho que [os aparelhos] sumiriam em meia
hora."
Em todas as noites agradáveis