60015 Material Complementar Artigo Dr Juares Tavares Anotacoes aos Crimes contra a honra (1)
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ANOTAÇÕES AOS CRIMES CONTRA A HONRA
Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol. 94/2012 | p. 89 | Jan / 2012

DTR\2012\16

Juarez Tavares
Professor Titular de Direito Penal da UERJ. Subprocurador-Geral da República.

Área do Direito: Penal
Resumo: Trata-se de um ensaio sobre os crimes contra a honra, com especial atenção às questões
relacionadas à imputação e ao exercício do direito de defesa. Orientado por esses objetivos, o
estudo busca disciplinar a relação entre o dolo de ofender e a intenção de narrar, bem como elucidar
acerca das causas de exclusão da imputação e do tratamento do concurso de crimes.

Palavras-chave: Crimes contra a honra - Bem jurídico - O aumento do risco e o direito de defesa -
Concurso de crimes
Abstract: An essay on crimes against honor, with special attention to issues related to accusation
and the right to a defense. Guided by these objectives, the study seeks to correct the relationship
between intent of offending and the intention to recount, as well as shed some light on the causes of
exclusion of the accusation and the handling of the accumulation of crimes.

Keywords: Crimes against honor - Legal interest - Risk increase and the right to defense - The
accumulation of crimes
Sumário:

1.OS ANTECEDENTES - 2.O BEM JURÍDICO - 3.AS ESPÉCIES DE OFENSA À HONRA - 4.O
DOLO E OUTROS ELEMENTOS SUBJETIVOS DO TIPO - 5.A INTENÇÃO DE NARRAR - 6.A
CRÍTICA LITERÁRIA, ARTÍSTICA OU CIENTÍFICA - 7.O EXERCÍCIO DO DIREITO DE DEFESA -
8.O CONCURSO DE CRIMES - 9.CONCLUSÕES - 10.BIBLIOGRAFIA
1. OS ANTECEDENTES

A análise dos delitos contra a honra pressupõe a formulação de duas séries de questões: algumas
genéricas, que dizem respeito a quase todas as investigações dos respectivos tipos, e outras,
específicas, que congregam elementos que se manifestam no âmbito do juízo de antijuridicidade.
Tendo em vista que, nas ofensas à honra, o que está em jogo é a forma como se configura o conflito
social gerado pelo confronto entre a proteção da dignidade da pessoa humana e a liberdade de
expressão, sua inicial caracterização nos tipos de delito deve dizer respeito à determinação da
conduta ofensiva e de suas circunstâncias. Por sua vez, diante da característica própria desse
conflito, cumpre esclarecer como a ordem jurídica, em sua totalidade, o disciplina. Sob uma primeira
perspectiva, desenvolve-se a necessidade de uma avaliação da origem, da evolução e da
constituição das figuras da injúria, da difamação e da calúnia, que estratificam tradicionalmente esse
conflito no âmbito penal. Sob uma segunda perspectiva, afigura-se relevante determinar, com
exatidão, os limites e a extensão das normas permissivas de conduta, que têm o condão de
assegurar a todos os cidadãos o exercício de sua liberdade em um Estado democrático de direito.

Os delitos de calúnia, difamação e injúria, ainda que constassem implicitamente da ampla noção
romana de injuria,1 só foram reconhecidos, na modernidade, pelo direito francês.2 O Código
Napoleônico de 1810, entretanto, não distinguia entre calúnia e difamação, incluindo esta última
naquela, sob o nome genérico de calumnie. Apenas com a Lei de Imprensa de 17.05.1819,
modificada pela Lei de Imprensa de 29.07.1881, é que, finalmente, se veio a proceder à
diferenciação entre as três espécies de lesão à honra: a calúnia, considerada na forma de
denunciação caluniosa como crime tanto contra a pessoa quanto contra a administração, a
difamação, consistente na atribuição de fato desonroso à reputação, e a injúria, como expressão de
desprezo ou ultraje dirigida a alguém.
Apesar da influência que esse modelo francês exerceu sobre a legislação posterior, principalmente
sobre nossos dois códigos anteriores,3 os códigos modernos, como o Código Penal (LGL\1940\2)
espanhol e o Código Penal (LGL\1940\2) português, ambos de 1995, divergem quanto à forma de

ANOTAÇÕES AOS CRIMES CONTRA A HONRA

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caracterização desses delitos. Assim, o Código espanhol não distingue entre injúria e difamação,
ambas contidas no art. 208, como \u201ca ação ou expressão que lesa a dignidade de outra pessoa,
menoscabando sua fama ou atentando contra sua autoestima\u201d. Já o Código português as distingue,
exclusivamente, quanto à forma de cometimento. A difamação consistirá na imputação de fatos
desonrosos a alguém ou na emissão sobre ele de juízos ofensivos à sua honra ou consideração,
feita em conversa ou manifestação dirigida a outra pessoa, ou reproduzida em juízo (art. 180). A
injúria se refere a uma ofensa à honra ou consideração proferida ou encaminhada diretamente ao
próprio ofendido (art. 181). Segue, neste passo, a linha do código italiano de 1932, que distingue
entre injúria (art. 594) e difamação (art. 595), exclusivamente pela direção da ofensa. Se diretamente
ao ofendido, haverá injúria; se por meio da comunicação a outras pessoas, difamação.
Divergindo do Código Imperial e do primeiro Código Republicano, o legislador brasileiro de 1940
seguiu, nesta matéria, a sistemática da lei de imprensa francesa e, de certo modo, do direito alemão,
que contempla três espécies de delitos contra a honra: a calúnia (Verleumdung, § 187), a difamação
(üble Nachrede, § 186), e a injúria simples (Beleidigung, § 185). No direito alemão, porém, a calúnia
e a difamação apresentam outras particularidades, associadas à prova da falsidade do fato imputado
ou do seu conhecimento. Na difamação, há a imputação de um fato depreciativo ou, publicamente,
desonroso, mas cuja veracidade não pode ser comprovada. A impossibilidade de comprovação do
fato constitui, portanto, uma condição objetiva de punibilidade. Na calúnia, a imputação se refere a
um fato inverídico, cuja falsidade é do conhecimento pleno do autor. Se o que se atribui à vítima,
como fato ofensivo determinado, é a prática de um delito, isto não interfere na sua caracterização
típica, podendo constituir tanto calúnia quanto difamação ou até mesmo injúria. Relativamente à
injúria, o direito alemão apresenta um claro déficit de taxatividade, porque não a define em termos de
conduta determinada, deixando que a doutrina e a jurisprudência o façam. Entende-se, então, por
injúria, segundo as contribuições doutrinárias e judiciais, todo ato que implique desprezo ou
desrespeito de alguém, de modo a \u201cnegar-lhe os valores humanos elementares ou os valores éticos
ou sociais e lesar, por meio disso, a absoluta pretensão ao respeito\u201d.4 Ademais, o código traça regras
disciplinadoras da comprovação do fato, que têm importância na difamação. A comprovação pode
ser absolutamente impossível, quando a vítima tenha sido absolvida em relação àquela imputação,
que serve de base à ofensa, ou manifestamente incontestável, quando a vítima tenha sido
definitivamente condenada por tal fato (§ 190). Independentemente da prova da verdade, o direito
alemão admite a punibilidade da ofensa, quando esta resultar não, propriamente, da afirmação ou da
divulgação de um fato, falso ou verdadeiro, mas do modo como for exprimida (§ 192), de modo a
constituir um excesso ou abuso de expressão.

O Código Penal (LGL\1940\2) brasileiro vigente, ainda que se oriente pelos critérios tripartidos da
legislação francesa e do Código alemão, não segue um modelo definido, ao caracterizar de modo
específico a calúnia, como a imputação falsa de um fato criminoso, a difamação, como a imputação
de fato ofensivo à reputação e a injúria, como a ofensa à dignidade ou ao decoro da vítima. Fá-lo,
mesclando disposições e, afinal, produzindo um texto bastante diferenciado e novo, mais
homogêneo e mais claro do que seus similares estrangeiros. Geralmente, costuma-se menosprezar
o Código brasileiro, mas, nesse ponto, o legislador pátrio foi bem melhor e mais lúcido do que seus
colegas eruditos e civilizados.
2. O BEM JURÍDICO

Independentemente da estrutura de cada uma das figuras típicas previstas no Código Penal
(LGL\1940\2) no tocante às ofensas à honra, a doutrina tem claudicado na identificação precisa
Robson
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