Avaliação Modular   Escola Sem Partido (Final)
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Avaliação Modular Escola Sem Partido (Final)

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UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES

AVALIAÇÃO MODULAR
PROGRAMA ESCOLA SEM PARTIDO

SÃO BERNARDO DO CAMPO
2016
O projeto de lei do senado N°193, de 2016 intitulado \u201cPrograma escola sem partido\u201d que tem como objetivo incluir mudanças na LDB (Lei de diretrizes e bases da educação nacional). Tal projeto traz à tona a necessidade de olharmos para nosso atual cenário educacional, para podermos mensurar se é possível ter ou não uma educação escolar sem a interferência de ideologias. Nosso intuito neste artigo/avaliação é levantar uma reflexão crítica filosófica social, no que tange os impactos positivos e negativos de uma escola com partido e também de uma escola sem partido, visto que, com e sem partido neste contexto representa a ideia de com ou sem ideologia.
Entendemos que seja de suma importância apresentarmos aqui antes de darmos início nossa reflexão referente ao \u201cPrograma escola sem partido\u201d, uma breve introdução acerca da ideia e da concepção de ideologia, para que, ao decorrer do nosso estudo tenhamos uma clara noção de qual seria o real impacto de se ter ou não uma ideologia dentro dos ambientes educacionais. Sendo assim, segundo o dicionário de filosofia Japiassu:
Ideologia (fr. idéologie) 1. Termo que se origina dos filósofos franceses do final do século XVIII, conhecidos como "ideólogos" (*Destutt de Tracy, *Cabanis, dentre outros), para os quais significava o estudo da origem e da formação das idéias. Posteriormente, em um sentido mais amplo, passou a significar um conjunto de idéias, princípios e valores que refletem uma determinada visão de mundo, orientando uma forma de ação, sobretudo uma prática política. (2001, p.99)

Para complementar essa abordagem referente ao termo ideologia, tomaremos como referência um pensamento de J. L. Fiorin, no livro Linguagem e Ideologia que diz:
\u201cUma formação ideológica deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social, isto é, um conjunto de representações, de ideias que revelam a compreensão que uma dada classe tem do mundo. Como não existem ideias fora dos quadros da linguagem, entendida no seu sentido amplo de instrumento de comunicação verbal ou não verbal, essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem. Por isso, a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo. Essa formação discursiva é ensinada a cada um dos membros de uma sociedade ao longo do processo de aprendizagem linguística. É com essa formação discursiva assimilada que o homem constrói seus discursos, que ele reage linguisticamente aos acontecimentos.
Por isso, o discurso é mais o lugar da reprodução que o da criação. Assim como uma formação ideológica impõe o que pensar, uma formação discursiva determina o que dizer. Há, numa formação social, tantas formações discursivas quantas forem as formações ideológicas. Não devemos esquecer-nos de que assim como a ideologia dominante é a da classe dominante, o discurso dominante é o da classe dominante.\u201d (2011, p.22)

Pelo fato de o ser humano ter necessidade de viver no meio social, ele necessita de um acordo de paz para sair da condição natural de guerra de todos contra todos, como denomina Hobbes. Este tratado de paz traz consigo um esboço do que seria um primeiro impulso a \u201cverdade\u201d, e consequentemente se conhece o que se chamaria de \u201cmentira\u201d, porque no dano causado pela mentira e pelo exclusivo benefício ao mentiroso, nele, a sociedade vê uma ameaça para sua manutenção e propagação. Este impulso à verdade é na realidade um impulso a conservação da vida social e do pacto de paz. Mas, a verdade e a mentira, são construções arbitrárias da linguagem, que também é uma construção arbitrária para designação de coisas e experiências.
A palavra (Logos) é o principal recurso de dominação e o mais eficaz, através dela, se criam e destroem reputações, dá-se e tira esperança, encoraja ou acovarda um povo, e tudo isto sem derramar uma gota de sangue ou suor. Através do discurso, uma pessoa que nunca esteve no topo do monte Evereste pode imaginar o lugar mais alto do planeta terra, todo esbranquiçado pela neve, um forte e gélido vento rasgando seu rosto e uma visão deturpadora da paisagem, onde até as mais altas montanhas ao redor parecem pequenas. A palavra e o discurso podem recriar na mente de quem será seu receptor, imagens e sensações que ele próprio não experimentou. Utilizam-se deste recurso da razão humana como forma de dominação as igrejas, as empresas de marketing, e na democracia, os partidos políticos.
Segundo Friedrich Nietzsche, a linguagem é convencional, ou seja, um \u201cacordo\u201d entre todos os participantes de determinada sociedade, que designam certos símbolos e sons como correspondentes a algo. Linguagem é a tentativa de exprimir uma faceta da realidade, e pode configurar-se em palavras que, como as chama o autor, são nada mais que \u201ca figuração de um estímulo nervoso em sons\u201d. Essas facetas da realidade são captadas e exprimidas por todos os seres humanos com limitações históricas, sociais e biológicas, tornando impossível uma realidade percebida e vivida de maneira homogênea. Sendo assim, para poder viver em sociedade o homem escolheu arbitrariamente algumas designações de sua linguagem como sendo \u201cverdades\u201d e outras como sendo \u201cmentiras\u201d; Na obra Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra-Moral Nietzsche nos explica que:

\u201cVerdade, isto é, é descoberta uma designação uniformemente válida e obrigatória das coisas, e a legislação da linguagem da também as primeiras leis da verdade: pois surge aqui a primeira vez o contraste entre verdade e mentira. O mentiroso usa as designações válidas, as palavras, para fazer aparecer o não-efetivo como efetivo; ele diz, por exemplo, \u201csou rico\u201d, quando para seu estado seria precisamente \u201cpobre\u201d a designação correta.\u201d (1999, p.54)
\u201cO que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu o que são.\u201d (1999, p.57)

Para Nietzsche então, a verdade nada mais é que uma convenção da linguagem que atribui sentido a algo, mas que para ser \u201cverdade\u201d depende dos hábitos das pessoas que convencionam determinada língua, depende do habito de dizerem que determinado signo representa verdadeiramente determinada faceta da realidade. Sendo assim, como o discurso é utilizado dentro de um sentido histórico e cultural que traz consigo, é construído um sentido moral que o acompanha juntamente com a noção do mesmo ser \u201cverdadeiro\u201d ou \u201cfalso\u201d. Ou seja, dependendo do discurso utilizado a mesma coisa pode ser entendida como positiva ou negativa, ser aceita ou rejeitada, pois as palavras trazem consigo determinado sentido que são praticamente intrínsecos a ela. Um projeto de lei, dependendo como é escrito, pode agradar ou não o gosto da população.
Sobre o projeto de lei \u201cEscola sem Partido\u201d, que foi apresentado pelo Senador Magno Malta (PR) ao parlamento brasileiro, fica a indagação: Da maneira que foi escrito e apresentado, não terá o próprio projeto um \u201cpartido\u201d? Não será incapaz o Senador (ou qualquer outra pessoa) de apresentar um pensamento ou proposta livre de ideologia? Ele que, além de Senador desde 2013, também é pastor evangélico, o que queremos dizer é, por mais cuidadoso que tente ser, na hora de escrever o projeto, não terá o Senador sua própria direção ideológico-partidária, moral e religiosa com respaldo em sua limitação histórica, social e biológica? Sendo está uma condição de todos os humanos quando captam e exprimem as facetas percebidas da realidade, por mais que o projeto proponha a maior neutralidade possível dentro das salas de aula, qual conceito de neutralidade ideológica para uma pessoa que já está inserida