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mormente o 
Legislativo, do outro. Ora, se nem mesmo o Poder constitucionalmente 
legitimado à feitura da Constituição e das leis tem a prerrogativa de impor 
interpretação obrigatória às normas que disciplinam as relações sociais, 
por que haveria de tê-lo o Poder Judiciário?18 
Por fim, questiona-se como o STF pretende editar súmula com caráter normativo, 
sem incorrer em incoerência ou inconsistência, se no passado este mesmo Tribunal 
firmou entendimento de que não daria efeito normativo a mandado de injunção, uma vez 
que isso representaria ofensa à separação dos poderes. 
 
7. 2 Do Princípio do Livre Convencimento do Juiz 
Conhecido também como princípio da persuasão racional, o princípio do livre 
convencimento indica que o juiz deve formar livremente, segundo critérios críticos e 
racionais, sua convicção. Sabe-se, assim, que ao magistrado cabe a apreciação das 
provas e dos elementos existentes nos autos, não dependendo tal avaliação de critérios 
legais pré-determinados. 
 
18 NEVES, Zuenir de Oliveira. Op. cit., p. 4. 
13 
Com efeito, segundo o art. 131 do Código de Processo Civil, “o juiz apreciará 
livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda 
que não alegados pelas partes; mas deverá indicar, na sentença, os motivos que lhe 
formaram o convencimento”. 
O juiz deve obediência somente à lei, sendo livre na formação do seu 
convencimento e na observância dos ditames de sua consciência. Vê-se que este 
princípio faz valer a independência dos magistrados em relação aos Tribunais Superiores, 
motivo pelo qual está ele ligado à garantia de independência dos juízes, que tem assento 
constitucional. 
Apesar de não ter expressa previsão Constitucional, o princípio do livre 
convencimento tem ligações fortes com os princípios do devido processo legal e da 
obrigatoriedade de motivação das decisões judiciais (art. 93, inciso IX, da CF). 
Sob esse aspecto, é fácil concluir que a adoção do efeito vinculante das súmulas vai 
de encontro ao princípio do livre convencimento do juiz. Como sustenta a doutrina: 
Notória a insubordinação da Súmula de efeito vinculante a tal Princípio, 
haja vista a possibilidade de se chegar a uma decisão sem análise 
adequada das provas, vez que cabível a simples indicação de Súmula de 
determinado Tribunal no sentido da decisão recorrida, ou um mero 
despacho indeferindo a inicial. Essa possibilidade de escassa 
fundamentação, ao violar o Princípio em comento, fere, em verdade, 
norma constitucional originária, pois entra em conflito com a garantia do 
Devido Processo Legal.19 
E ainda: 
Nota-se, facilmente, que a garantia ao livre convencimento do juiz é 
impraticável em face ao efeito vinculante, uma vez que, caso seja adotado 
este efeito vinculativo das súmulas dos tribunais, o juiz mesmo que 
convencido do contrário, deverá decidir a lide da forma que foi 
previamente estabelecido pelos Tribunais Superiores, estando vinculado à 
decisão sumulada.20 
Observa-se, outrossim, que a adoção neste momento do efeito vinculante das 
súmulas prejudica a evolução do direito pátrio, já que a metodologia jurídica atual, após 
muito progresso, está voltada para o caso concreto. Inexiste uma solução apriorística 
para dada situação, sendo a aplicação do Direito do novo século realizada caso a caso e 
não de forma generalizada e com uso dos silogismos. 
Não se pode negar que um dos principais problemas causados pela súmula 
vinculante será o engessamento do arbítrio do magistrado. Este certamente perderá seu 
poder de convicção, uma vez que seu julgamento estará vinculado aos precedentes já 
fixados pelo STF. E, como se sabe, o juiz monocrático é o que tem melhores condições 
de julgamento, já que é ele que está em contado com as partes e que pode considerar 
todos os fatos necessários a um julgamento correto, interpretando a lei no caso concreto. 
O instrumento da súmula com o efeito que se quer a ela atribuir, na verdade, ao invés de 
fortalecer o sistema jurídico, tolhe a liberdade dos juízes singulares, impedindo o 
desenvolvimento de suas inspirações e convicções. 
Destarte, impõe-se o reconhecimento de que a sentença do magistrado, resultante 
da sua atividade criativa, ao apreciar um fato concreto levado ao seu conhecimento, 
ficaria mitigada, face à sua vinculação obrigatória a uma apreciação anterior similar, 
então sumulada. Resta indubitável o prejuízo ao livre convencimento do juiz na 
apreciação das demandas e à própria atuação judicial. 
 
 
19 NEVES, Zuenir de Oliveira. Op. cit., p. 6. 
20 CHIARINI JÚNIOR, Enéas Castilho. Op. cit., p. 6. 
14 
7.3 Do Princípio da Legalidade 
A Constituição Federal em vigor, no rol dos direitos e garantias fundamentais, 
estabelece que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão 
em virtude de lei” (art. 5º, inciso II), cláusula pétrea não passível de alteração pelo 
poder constituinte derivado. 
Segundo Alexandre de Moraes: 
Tal princípio visa combater o poder arbitrário do Estado. Só por meio das 
espécies normativas devidamente elaboradas conforme as regras de 
processo legislativo constitucional podem-se criar obrigações para o 
indivíduo, pois são expressão da vontade geral. Com o primado soberano 
da lei, cessa o privilégio da vontade caprichosa do detentor do poder em 
benefício da lei. Conforme salientam Celso Bastos e Ives Gandra Martins, 
no fundo, portanto, o princípio da legalidade mais se aproxima de uma 
garantia constitucional do que de um direito individual, já que ele não 
tutela, especificamente, um bem da vida, mas assegura ao particular a 
prerrogativa de repelir as injunções que lhe sejam impostas por uma outra 
via que não seja a da lei, pois como já afirmava Aristóteles, “a paixão 
perverte os Magistrados e os melhores homens, a inteligência sem paixão 
– eis a lei”.21 
Como se vê, no sistema jurídico brasileiro, a fonte primária do direito é sempre a 
lei, emanada do Poder Legislativo, eleito pelo povo, diretamente para isso. O Judiciário 
não tem legitimidade democrática para criar o direito, já que o povo a ele não delegou tal 
poder. Assim, como garantia constitucional de toda a coletividade, a Lei Maior, 
originariamente, determinou que só aos comandos legais os cidadãos devem estar 
vinculados, não sendo obrigado a ninguém fazer ou deixar de fazer algo não previsto em 
lei. 
Determinando a interpretação obrigatória da lei e, muitas vezes, dando a ela 
sentido além do que está expressamente previsto, a súmula vinculante torna-se uma 
superlei, concentrando efeitos que nem a lei editada pelo Parlamento é capaz de 
produzir. A súmula com efeito vinculante faz concentrar no Poder Judiciário poderes que 
nem mesmo o Legislativo detém, já que este não pode impor interpretação obrigatória às 
normas disciplinadoras das relações humanas. 
 Nas palavras de Maria Helena Mallmann Sulzbach: 
A possibilidade de edição de súmula com efeito vinculante pelos tribunais 
de cúpula significa atribuir a esses competência de cassação e afirmação 
das normas, com evidente fragilização do Poder Legislativo e, acima de 
tudo, subtração de sua prerrogativa formal de legislar. Trata-se, ao nosso 
ver, de sucedâneo judiciário de Medida Provisória e, portanto, é mais uma 
forma de usurpação das funções legislativas do Congresso Nacional. E 
mais, sob o enfoque das conseqüências da edição de comando legislativo 
compulsório, ao qual o juiz se submete obrigatoriamente, há evidente 
supressão do processo de renovação do direito através da jurisprudência. 
Suprimindo-se o princípio do livre convencimento do juiz, suprime-se 
também uma das principais fontes desse processo que tem, em sua 
origem o exercício da advocacia, que fica restrito e limitado a requerer ao 
Judiciário simplesmente a aplicação