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Questão Social e Serviço Social

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ocorre paralela 
ao processo de crescente concentração de renda, de capital e de poder.
Assim, vamos constatando que a sociedade capitalista está promovendo 
e aumentando a desigualdade social, assim as novas expressões sociais são 
consequências inevitavelmente emergidas do sistema de produção e reprodução 
social em seu estágio mais avançado de exploração e dominação no mundo 
globalizado, onde a economia atua de forma integrada em diversas atividades e 
transações.
 
A concepção de trabalho alienado e explorado, conforme se tinha na visão 
marxista, sofreu alterações; a lógica do proletário explorado, atualmente, está em 
desuso, não se adequa mais com a realidade contemporânea, visto que o trabalho 
está perdendo seu valor dentro da vida das pessoas, pelo próprio processo de 
mundialização da economia e pelo caráter polissêmico e multifacetado do trabalho, 
que demonstra as novas configurações além de trabalhadores, como também de 
grupos, de classe, de gênero, de raça ou etnia, de geração, entre outros.
[...], a classe trabalhadora também se reconfigura mundialmente. 
Portanto, este é o desenho compósito, diverso, heterogêneo, polissêmico 
e multifacetado que caracteriza a nova conformação da classe 
trabalhadora, a classe-que-vive-do-trabalho: além das clivagens entre 
trabalhadores estáveis e precários, homens e mulheres, jovens e idosos, 
nacionais e imigrantes, brancos e negros, qualificados e desqualificados, 
‘incluídos’ e ‘excluídos’, entre outros, temos as estratificações e 
fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de 
internacionalização do capital (ANTUNES, 2003, p. 59). 
O mundo do trabalho se alterou de tal forma que não compactua com 
o número de pessoas que deveriam estar no mercado de trabalho, a população 
mundial aumentou, porém o emprego diminuiu em todas as áreas. O trabalho 
polissêmico e multifacetado caracteriza a nova conformação da classe trabalhadora 
que se sujeita a qualquer coisa para poder sobreviver, seja o trabalho informal, 
sem contrato, quaisquer funções, inúmeras tarefas, horários alterados, entre outras 
situações e condições.
Segundo descreve Iamamoto (2014a), a globalização nos fornece diversas 
possibilidades, da produção e dos mercados possibilita o acesso rápido, senão 
instantâneo a produtos de várias partes do mundo, cujos componentes são 
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO, LIBERALISMO E NEOLIBERALISMO
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fabricados em países distintos, favorece uma enorme possibilidade do ser 
humano ter acesso à natureza, à cultura, à ciência, através da tecnologia rapidez 
de informação e acesso ao conhecimento, porém, por outo lado, na medida em 
cresce a concentração e acumulação de capital, concomitantemente também cresce 
a miséria, a pauperização que atinge a maioria da população nos vários países 
periféricos, onde existe um excedente de mão de obra, essencialmente mão de obra 
barata.
Porém, do ponto de vista social, não favorece a muitos, pois os interesses 
econômicos de mercado, além de obterem lucros extraordinariamente absurdos, 
modificam diversas culturas locais, desvalorizam tradições culturais e religiosas, 
alteram as sociedades tradicionais, promovem mais desemprego, transformam 
postos de trabalho, desvalorizam o trabalho, geram mais pobreza, aumentando 
a insegurança social de modo geral. Isso se retrata nas condições humanas atuais, 
onde percebemos que a pessoa não tem medo apenas da violência, mas tem medo 
de tudo e de todos.
FIGURA 14 – VANTAGENS DA GLOBALIZAÇÃO
FONTE: Disponível em: <https://www.google.com.br/
search?q=beneficios+da+globalização+no +mundo&biw>. Acesso em: 6 jan. 
2015.
Sem dúvida que o mundo digital e os avanços da tecnologia são necessários 
e de vital importância, no entanto, percebe-se que o ser humano aparece como a 
primeira vítima de sua própria criação e manipulação, pois o encaminhamento do 
desenvolvimento tecnológico vem ameaçando a humanidade, descaracterizando 
também o meio ambiente, o ambiente local, a identidade cultural, os modos de 
vida das pessoas.
O sociólogo brasileiro Octavio Ianni focou seus estudos na crítica à nova 
ordem global do capitalismo, vindo a enfatizar que vivenciamos uma guerra 
civil mundial, uma revolução social permanente, sujeitos a diversas formas de 
integração e interação social, porém ao mesmo tempo sujeitos a diversas formas 
de fragmentação dentre outros entraves e dilemas sociais, onde grupos diversos 
ou classes diversas estão envolvidos e sendo negligenciados.
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UNIDADE 2 | O NEODESENVOLVIMENTO NO CAPITALISMO E O ACIRRAMENTO DAS
 EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL
Esses tempos são de luta de classes, em escala nacional e mundial. São 
tempos de uma guerra civil mundial permanente, endêmica e aberta, 
moderada e violenta, por dentro e por fora das guerras localizadas e 
mundiais. Sim, por todo o século XX, e entrando pelo século XXI, o que se 
verifica é uma revolução social permanente, subjacente às mais diversas 
formas de integração e fragmentação, acomodação e contradição, 
sempre envolvendo classes e facções de classes, grupos étnicos, de 
gênero, religiosos e outros; na maioria dos casos, transbordando das 
fronteiras nacionais, avançando além de fronteiras continentais (IANNI, 
2004a, p. 16-17).
A globalização por meio da ideologia cria um processo de alienação, fazendo 
emergir uma crise de valores na sociedade, onde o dinheiro, o acúmulo de bens e 
o consumismo se tornam inevitáveis e necessários, bem como atitudes antiéticas 
e imorais se tornam naturais, como também o individualismo, a intolerância, o 
preconceito, discriminação e indiferença se tornam habituais.
O economista Dowbor (2014) enfatiza de forma crítica sobre o processo 
dramático de concentração de renda no planeta e de concentração da riqueza 
acumulada, que atinge níveis absolutamente escandalosos no planeta, decorrentes 
da financeirização geral da economia. Para ele, é uma característica fundamental 
da chamada globalização. Este duplo movimento de concentração de renda e de 
riqueza está, por sua vez, diretamente ligado à centralização do poder de controle 
empresarial, em um pequeno grupo de gigantes corporativos, especificamente de 
corporações financeiras que estão lucrando de forma abusiva e sem precedentes.
Nesta mesma perspectiva de um sistema totalitarista, o francês Thomas 
Piketty (2014), professor de Economia em Paris, em uma entrevista em outubro de 
2014, na qual o tema abordado intitulava “Concentração de renda e riqueza pode 
comprometer a democracia”, enfatizou que:
Os ricos ficarão sempre cada vez mais rapidamente mais ricos, 
pois dispõem de um estoque de rendimentos de capital que traz 
significativamente mais rendimentos do que o trabalho. Para a maioria 
da população, em contrapartida, os rendimentos dos salários não são 
mais suficientes para que criem reservas.
Estamos vivenciando a barbárie da atual fase da expansão capitalista, um 
mundo e uma sociedade com muita riqueza e acumulação de renda e inúmeros 
conflitos. A crise que vem se estabelecendo está enraizada no capitalismo, 
tendo como fundamentalismo o consumismo desenfreado. Estamos sujeitos e 
encurralados em uma globalização da perversidade e da crise de valores, com 
uma ideologia perversa em um sistema global perverso, uma condição humana 
em condições desumanas.
Para Milton Santos (2000, p. 39), 
O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma 
informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. A 
contradição se faz e se refaz na impossibilidade de se produzir, de 
imediato, uma informação libertadora. A alienação é a face que brota 
aguda da globalização financeira, da globalização do dinheiro. Encanta-
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO, LIBERALISMO E NEOLIBERALISMO
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se o mundo. O princípio e o fim são o discurso e a retórica. Então o que