A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
11 pág.
DO FRACASSO MORAL AO RETORNO DA ÉTICA

Pré-visualização | Página 1 de 3

DO FRACASSO MORAL AO RETORNO DA ÉTICA
Prof. Dr. Frei Nilo Agostini, ofm
Introdução
A emergência da modernidade, por um lado, e a atual entrada em cena da pós-modernidade, por outro, nos colocam diante de um fenômeno humano e societário baseado num subjetivismo individualista crescente. Centrados no indivíduo, segundo a modernidade, e embalados pelo subjetivismo narcisista, na versão pós-moderna, vemos crescer a relativização em termos de valores, enfim da própria moral. Isto salta aos nossos olhos, em sua forma doentia, quando se trata de sermos solidários e honestos, de conviver na comunidade (e/ou família) e ser-lhe fiel, de construir a sociedade e ser transparentes e éticos na condução da “coisa”(res) pública e de viver a fé buscando lastreá-la no direito e na justiça. 
O fracasso moral estaria claramente delineado. Ele far-se-ia presente na dificuldade de assumir engajamentos por toda a vida, de preocupar-se com os outros, de interessar-se com a construção da sociedade, de ser honestos também nas pequenas coisas do dia-a-dia, bem como na ânsia de viver o prazer a qualquer custo, na busca de levar vantagem em tudo, entre outros. Na verdade, estes elementos estão sendo perpassados por diversos patamares de relativização, fenômeno de uma cultura e de um comportamento que atravessa o humano e se alastra na sociedade de nossos dias. No entanto, este mesmo processo traz no seu bojo o retorno da ética, com a busca de referenciais, o cultivo de valores, numa reabilitação da “inteligência ética”, numa nova disposição social de valores, numa reapropriação do religioso/transcendente, deixando a ética mobilizar de novo o ser humano. Vejamos como se desenha este quadro.
1. O sentir moderno e sua crise
Há quem fale do fracasso da moral na modernidade. Não é nova a idéia de que a moral é suspeita no mundo moderno. Este necessita, é claro, fundar a existência humana na moral; porém, ao mesmo tempo, tende a destruir os fundamentos que a tomam a sério, tornando-a impossível. E quando cria seus próprios princípios e valores, eis que ela mesma não lhe dá muito crédito. Isto cria uma atmosfera na qual a moral exerce pouca influência naqueles a quem ela se dirige. Embalada ela também pela razão moderna, a moral transforma-se em mais um conhecimento e, no máximo, vem assumida de forma destilada como parte de uma opinião muito subjetiva.
A partir do século XVIII, com a emergência da sociedade comercial, o mercado foi tomando conta da vida e lastreando as relações na sociedade. No século XIX, o capital tornou-se o pivô, fundado na acumulação desenfreada do capital. No século XX, a racionalização consolidou-se como eixo do edifício moderno, cujos fundamentos já vinham sendo lançados bem antes. Foram-se criando modos de vida com suas referências morais próprias, sem, no entanto, formar uma base comum de referenciais para todos. Fundada na racionalidade humana e na ação autônoma do indivíduo, a modernidade buscou a emancipação de toda heteronomia pré-moderna; isto transformou a moral como mero adendo, sem muita importância. Bernard Mandeville, no século XVIII, já havia descrito a moral como um sistema de ilusões. Nietzsche não teve dúvidas em falar do fracasso da moral, sendo o niilismo o destino da modernidade.
Um olhar acurado nas entranhas da modernidade coloca em evidência que houve e há, na verdade, um fracasso moral da modernidade e não um fracasso da moral na modernidade. Esta descambou no utilitarismo, abriu o caminho ao consumismo, cultivou nacionalismos diversos, idolatrou o poder, resvalou num racionalismo fragmentado, cultivou um individualismo crescente, transmutou a liberdade em poder possuir desmedidamente, transformou a razão em instrumentalização técnico-científica, elegeu o mercado como detentor do poder máximo.
“A vida social moderna traz consigo suas próprias contradições: produz conjuntos de desejos incompatíveis e desejos que não poderão ser satisfeitos. De maneira mais fundamental, ela cria um conceito de identidade individual, porém não proporciona os recursos necessários para sustentar essa identidade. O mundo moderno gira em torno da idéia da soberania do indivíduo, porém destruiu igualmente as condições desta soberania” .
Frustração, fraqueza e desintegração são algumas das conseqüências ou o preço que pagamos pelo cultivo do individualismo, pela obsessão do poder e pela autonomia centrados no indivíduo, bem como pela proliferação dos desejos. O mercado acabou isolando os indivíduos e, num reflexo e reprodução do mesmo, este mercado os induz a relações igualmente instrumentais com os demais indivíduos. Os outros acabam sendo um meio para conseguir os fins individuais. O que importa são seus próprios interesses, sua satisfação imediata, numa motivação extremamente egocêntrica. Pensa que assim conquistará poder e poderá saciar-se indefinidamente através do consumo. O reverso desta moeda não é a satisfação, senão a frustração, numa repetição da busca sem fim de satisfações ocasionais, fragmentadas e coisificadoras. Não há criatividade, senão atitudes miméticas. Não há real autonomia, senão fugaz vulnerabilidade.
A modernidade, enquanto movimento histórico-cultural, caracteriza-se por quatro revoluções, nem sempre simultâneas em seu surgimento e evolução, a saber: a revolução científica, política, cultural e técnica. Alguns traços lhes são comuns, tais como: a centralidade da razão crítica e secular, a auto-referência (da própria razão e da liberdade humana) e o formalismo (matematização, dialetização, funcionalização, estruturalismo, informatização). “A modernidade assim entendida está em crise”, sobretudo em sua manifestação a partir da segunda metade do século XX, quando a racionalidade chegou aos seus limites e quando fracassaram os sistemas filosóficos totalizantes.
2. A proposta pós-moderna
A linha que distingue a pós-modernidade da modernidade pode ser tênue, até inexistente, ou ser portadora de traços marcadamente diversos. Trata-se de um debate ainda aberto em nossos dias, no qual encontramos três posições distintas: a neo-conservadora, a pós-moderna e a da teoria crítica e racionalidade comunicativa.
Segundo a posição neo-conservadora, não há outro momento histórico; trata-se de uma crise causada pela modernidade cultural, pelo seu espírito hipercrítico e libertário como por um acento no estético-expressivo. “Isto se manifesta no experimentalismo individualista, na busca da fruição imediata e na tentativa de conseguir auto-realização e autenticidade sem normatividade”. Falta a essa posição a percepção dos vínculos estruturais entre as manifestações que ela critica e a lógica capitalista de mercado que ela aceita sem um distanciamento crítico necessário. A ideologia neoliberal traz conseqüências óbvias, tais como uma sociedade individualista, hedonista e consumista até deslizar no niilismo prático. Certas posições conservadoras entre os cristãos favorecem este jogo ao aceitar ingenuamente a sociedade capitalista tardia, ao mesmo tempo em que se opõe ao iluminismo.
As leituras na linha da pós-modernidade captam, por sua vez, o fracasso dos sistemas unitários e totalizantes dos grandes relatos ideológicos e passam a valorizar a diferença, o pluralismo, a relativização, a desconstrução, o dissenso e o diferendo. Colocam em cena e dão cidadania aos muitos estilos díspares, ao próprio de cada linguagem e formas de vida, à fruição instantânea. É como “dançar nos abismos” (Nietzsche), ou seja, dançar diante da libertação ética e estética de novas possibilidades. Mesmo com elementos de razão crítica, trata-se de um “pensamento frágil” (G. Vattimo), de uma racionalidade plural, heterogênea, ambígua, sem nexos convergentes (a não ser transversais).
A teoria crítica e da racionalidade comunicativa (J. Habermas, K.-O. Apel) afirma que o projeto moderno não foi concluído e, além disso, contém uma utopia a se realizar. Ele contém uma reserva utópica à medida que se dá uma virada lingüística e uma superação da filosofia do ego para buscar a “unidade na ação e na razão comunicativa (Habermas)