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Mao   A História Desconhecida

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Peixes descem pelo leito raso do rio,
 Sob um céu de gelo, dez mil criaturas competem para impor sua vontade.
 Tocado por esta vastidão,
 Pergunto à terra ilimitada:
 Quem, afinal, será teu senhor?
 
 O faro de Mao não o enganou. Nas duas semanas depois de chegar a Cantão, em setembro de 1925, ganhou um punhado de tarefas importantes do chefe nacionalista. Mao seria o dublê de Wang Ching-wei, como diretor do Departamento de Propaganda e editor do novo periódico do Partido Nacionalista, Política Semanal. E, para sublinhar sua importância, também participou do comitê de cinco membros que selecionaria os delegados do segundo congresso do partido, no mês de janeiro seguinte, no qual apresentou um de seus principais relatórios. O papel de Wang na ascensão de Mao é algo que foi diligentemente obscurecido por Pequim, ainda mais porque ele se tornou chefe do governo títere japonês na década de 1940.
 A capacidade de Mao de trabalhar a pleno vapor em Cantão se deveu, em considerável medida, à sua descoberta dos comprimidos para dormir. Ele sofria de insônia aguda, o que o deixava num estado de exaustão permanente. Agora, estava livre. Mais tarde, colocaria o inventor do remédio ao lado de Marx.
 Em novembro de 1925, enquanto trabalhava para os nacionalistas, Mao expressou pela primeira vez interesse pela questão do campesinato chinês. Em um formulário que preencheu, disse que estava “atualmente dando atenção especial” a essas muitas dezenas de milhões. Em 1o de dezembro, publicou um longo artigo sobre camponeses em um periódico nacionalista e, um mês depois, escreveu outro para o primeiro número da revista nacionalista Camponeses Chineses. O novo interesse de Mao não derivava de nenhuma inspiração ou inclinação pessoal, mas vinha nos calcanhares de uma ordem urgente de Moscou, recebida em outubro, instruindo nacionalistas e comunistas a dar prioridade à questão. Os nacionalistas tomaram medidas imediatas.
 Foram os russos que primeiro ordenaram ao PCC que desse atenção ao campesinato. Já em maio de 1923, Moscou se referira à “questão dos camponeses” como “centro de todas as nossas políticas”, e mandara os revolucionários chineses “levarem adiante a revolução agrária camponesa contra os remanescentes do feudalismo”. Isso significava dividir os camponeses chineses em classes diferentes conforme a riqueza e agitar os pobres contra os ricos. Na época, Mao recebera essa ordem com frieza e, quando suas reservas foram relatadas a Moscou, ele foi destituído de um de seus cargos. A posição de Mao, como Dalin escreveu a Voitinski em março de 1924, era: “Sobre a questão camponesa, a linha de classe deve ser abandonada, não há nada a fazer entre os camponeses pobres e é necessário estabelecer laços com os senhores de terras e shenshih [pequena nobreza rural]”.
 Mas agora Mao mudava conforme o vento dominante, ainda que tivesse problemas com os russos em relação à fraseologia ideológica. Em seus artigos, ele tentara aplicar a “análise de classe” comunista ao campesinato, classificando aqueles que possuíam um pequeno lote de terra de “pequena burguesia” e os lavradores de “proletariado”. Uma crítica violenta foi publicada na revista dos agentes soviéticos Kanton, que atingia leitores de alto coturno na Rússia — o primeiro dos cerca de quarenta nomes da lista de distribuição era o de Stálin. O crítico Volin, especialista russo em campesinato, acusava Mao de argumentar como se os camponeses vivessem numa sociedade capitalista, quando a China estava ainda no estágio feudal: “Um erro muito importante salta aos olhos: [...] que a sociedade chinesa, de acordo com Mao, tem uma estrutura capitalista desenvolvida”. O artigo de Mao foi considerado “não científico”, “indiscriminado” e “excepcionalmente esquemático”. Até mesmo seus números básicos estavam errados, de acordo com Volin: ele mencionava uma população de 400 milhões, quando o censo de 1922 mostrava que, na verdade, era de 463 milhões.
 Felizmente para Mao, o Partido Nacionalista não exigia padrões tão altos de correção teórica. Em fevereiro de 1926, seu protetor Wang Ching-wei o designou membro fundador do Comitê do Movimento Camponês dos nacionalistas, bem como chefe do Instituto de Treinamento do Movimento Camponês, criado dois anos antes com fundos russos.
 Foi só então, quando estava com 32 anos, que Mao — que muitos até hoje julgam ter sido o grande defensor dos camponeses pobres — se interessou por eles. Sob sua direção, o Instituto Camponês produziu agitadores que iam para as aldeias, incitavam os pobres contra os ricos e os organizavam em “associações camponesas”. Em Hunan, foram particularmente bem-sucedidos depois de julho, quando o Exército nacionalista ocupou a província. Eles acabavam de começar uma marcha em direção ao norte a partir de Cantão (conhecida como “Expedição ao Norte”) para derrubar o governo de Pequim. Hunan foi o primeiro lugar na rota de 2 mil quilômetros.
 O Exército nacionalista era acompanhado por agentes russos. A Rússia também acabara de abrir um consulado em Changsha e sua base da KGB tinha o segundo maior orçamento das catorze bases na China, depois de Xangai. Um missionário americano escreveu em carta enviada de Changsha no final daquele ano: “Temos um cônsul russo [agora]. Não há interesses russos aqui para representar [...] está clara [...] qual é sua finalidade [...] A China pode pagar caro por sua presença cordial”. Supervisionadas de perto pelos russos, as novas autoridades nacionalistas de Hunan deram às associações camponesas sua bênção — e fundos — e, no final do ano, elas já se haviam espalhado por boa parte do campo dessa província de 30 milhões de habitantes. A ordem social foi virada de cabeça para baixo.
 Naquela época, senhores guerreiros vinham travando guerras esporádicas havia dez anos, e tinham ocorrido mais de quarenta mudanças no governo central desde que o país se tornara uma república, em 1912. Mas eles tratavam de preservar a estrutura social, e a vida continuava como sempre para os civis, desde que não fossem surpreendidos pelo fogo cruzado. Agora, pelo fato de os nacionalistas seguirem instruções russas destinadas a provocar uma revolução de estilo soviético, a ordem social se rompia pela primeira vez.
 A violência irrompeu quando os camponeses pobres se apossaram da comida e do dinheiro dos relativamente ricos, e se vingaram. Bandidos e sádicos também se aproveitaram da situação. Em dezembro, o campo de Hunan estava tomado pela violência. Na qualidade de líder do movimento camponês, Mao foi convidado a voltar a sua província natal para dar orientação.
 
 
 Quando Mao retornou, Changsha era uma cidade mudada. Pelas ruas, vítimas eram obrigadas a desfilar com “orelhas de burro” (uma invenção europeia), em sinal de humilhação, e crianças corriam cantando “abaixo as potências [imperialistas] e eliminem os senhores guerreiros”, hino da revolução nacionalista, cantado com a melodia de “Frère Jacques”.
 Em 20 de dezembro de 1926, cerca de trezentas pessoas lotaram o teatro de lanterna mágica para escutar Mao, que dividiu o palco com um agitador russo chamado Boris Freyer. (Como quase todos os agentes russos na China daquela época, ele depois desapareceu durante os expurgos de Stálin.) Mao não era orador; seu discurso teve duas horas de duração e foi enfadonho. Mas foi moderado. “Ainda não é o momento de derrubar proprietários de terras”, disse. “Devemos fazer algumas concessões a eles.” No estágio atual, “devemos apenas reduzir aluguéis e taxas de juros, e aumentar os salários dos lavradores”. Citando Mao, que teria dito “não estamos preparados para tomar a terra imediatamente”, Freyer contou ao órgão controlador russo, o Birô do Extremo Oriente, que o discurso dele estava basicamente “correto”, mas inclinado a ser moderado demais.
 Embora Mao não tenha tratado da questão da violência, sua abordagem geral não era militante.