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Mao   A História Desconhecida

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de 1931, ele resmungou para líderes militares que era “apenas um joguete nas mãos de Mao, não tinha poder, Mao simplesmente jogava com ele”. Isso foi relatado a Moscou, mas os russos não levantaram um dedo para controlar Mao.
 
 
 O retorno de Mao ao comando foi anunciado num grande encontro de delegados do Exército realizado na cidade de Gutian, em dezembro de 1929. Para impedir a dissensão, ele utilizou um estratagema. Sabia que aquilo que os soldados mais detestavam era a prática de executar os desertores. De acordo com um relatório da época enviado a Xangai, “antes de cada partida, alguns desertores eram executados e deixados ao longo da estrada como advertência aos outros”. Isso demonstra como era difícil manter as pessoas no Exército Vermelho, ao contrário do que foi dito muitas vezes. O fato é que até as execuções nem sempre funcionavam, como dizia o relatório em seguida: “Mas ainda não conseguimos deter os desertores”.
 Em Gutian, Mao apresentou uma resolução para abolir essa prática. Essa medida foi muito bem recebida pelos soldados. Mas alguns meses depois, quando as resoluções de Gutian circularam, esse item não estava entre elas. Depois que Mao se estabeleceu, ela desapareceu, e os desertores continuaram a ser executados.
 Depois de engambelar os delegados em Gutian para que o vissem de modo mais favorável, mostrando uma tolerância especiosa quanto à questão da deserção, Mao conseguiu o que realmente queria: resoluções para condenar o que quer que se colocasse entre ele e o poder absoluto, em especial a autoridade dos militares profissionais. Mao não era um soldado profissional. Zhu era. Então, Mao inventou um chavão pejorativo, ao estilo soviético — “ponto de vista puramente militar” —, para definir que era errado valorizar demais o profissionalismo militar. Ele detestava cada vez mais a convenção de votar, pois fora o voto livre que o havia tirado do cargo. Então chamou a votação de “ultrademocracia” e aboliu a prática.
 Mao era viciado em conforto, enquanto Zhu levava a vida de um soldado comum. A aversão ao privilégio era particularmente forte no Exército porque muitos haviam sido atraídos para suas fileiras pela sedução da igualdade, que era o principal atrativo do partido. Para sufocar qualquer protesto em relação a privilégios, Mao cunhou a expressão “igualitarismo absoluto” para designar uma ofensa, acrescentando a palavra “absoluto” para tornar mais difícil a discordância de oponentes. Foi a partir de então que os privilégios foram formalmente endossados como parte inalienável do comunismo chinês.
 Ao final de 1930, Mao, que acabara de fazer 36 anos, podia ver o ano decorrido com considerável satisfação. O partido lhe entregara o maior exército vermelho fora do bloco soviético depois que ele infringira todas as regras. Moscou e Xangai o estavam visivelmente subornando, o que significava que precisavam dele. Agora, ele poderia explorar mais a alavancagem que isso lhe dava.
 “Para onde vou agora?”, perguntou-se Mao, ao partir a cavalo cantarolando um poema ao longo de trilhas musgosas da floresta. Ele sabia exatamente para onde ia: realizar mais tomadas de poder.
 
 
 a Tal como seu similar soviético, esse órgão teve seu nome mudado várias vezes, e o chamaremos simplesmente de KGB chinesa.
 
 
 b O chefe do Comintern Bukhárin chamou a zona da ferrovia de “nosso dedo revolucionário apontado para dentro da China”, e ela servia como uma importante base para o financiamento e patrocínio russo dos comunistas chineses.
 
 
 
 Mao-13.html
 
 
 
 7. Tomada de poder leva à morte
 da segunda mulher
 (1927-30; 33-36 anos)
 Depois que estabeleceu um governo nacionalista com sede em Nanquim, em 1928, com autoridade nominal sobre toda a China, Chiang Kai-shek iniciou uma campanha para fundir os diferentes exércitos controlados por potentados provinciais em um exército nacional unificado sob seu controle. Essa tentativa encontrou uma resistência feroz de uma aliança de senhores provinciais e, no início de 1930, os dois lados tinham em campo centenas de milhares de soldados. Essa luta mutuamente destrutiva deu ao PCC uma chance de expandir seu Exército e suas bases.
 Moscou começou a pensar em criar um Estado comunista na China. Chou En-lai foi para a União Soviética em março de 1930, levando consigo um relatório detalhado sobre o Exército Vermelho chinês, segundo o qual este contava com 62700 homens e era composto por treze grupos armados (chamados “exércitos”), espalhados por oito províncias. O Exército Zhu-Mao era o mais conhecido deles e respondia por quase um quarto do total, tendo se expandido para 15 mil homens, graças ao seu controle de uma grande base. As bases eram a chave para expandir o Exército, pois sua posse possibilitava a obtenção de recrutas.
 Enquanto Chou En-lai estava fora, o homem encarregado do poder em Xangai era Li Li-san. Filho de Hunan e ex-subordinado de Mao, ele fizera fama como organizador dos trabalhadores e era um ativista impulsivo e defensor apaixonado de uma maior expansão do PCC. Sob seu comando, criou-se um plano muitíssimo ambicioso para tomar um grande pedaço do interior, inclusive grandes cidades como Nanchang e Changsha, e criar um governo comunista no coração da China, em Wuhan, às margens do Yangtze. Mao recebeu a incumbência de tomar Nanchang, a capital de Jiangxi.
 Mao era um realista. Ele sabia que, mesmo com a luta interna dos nacionalistas, o Exército Vermelho não teria chance de tomar e manter grandes cidades. De início, manifestou relutância em levar o plano adiante, mas pouco depois de expressar dúvidas explodiu de entusiasmo. Continuava sem fé no projeto, mas percebeu que poderia explorar a fantasia de Xangai para seu próprio objetivo: tomar o segundo maior ramo do Exército Vermelho, comandado por Peng De-huai.
 * * *
 Peng, cinco anos mais moço do que Mao, nasceu numa aldeia do mesmo distrito deste, em Hunan. Ele chegaria a ser o primeiro ministro da Defesa da China comunista, e também o mais feroz e corajoso crítico de Mao de dentro do regime — o que lhe custaria a expulsão do governo e a morte no ostracismo.
 Peng tinha boca e olhos muito expressivos, que pareciam mostrar uma tristeza permanente. Preocupava-se com os pobres e oprimidos. Ao contrário da maioria dos líderes comunistas, tivera uma infância miserável, que o marcou profundamente. Na época da morte de sua mãe, o irmão mais moço, então com seis meses de vida, tinha morrido de fome. Décadas depois, Peng escreveu sobre sua infância:
 No rigor do inverno, enquanto as outras pessoas usavam roupas e sapatos forrados, meus irmãos e eu andávamos de pés nus em sandálias de palha e usávamos roupas feitas de folhas de palmeira, como homens primitivos. [...] Quando eu estava com dez anos, não tínhamos do que sobreviver. Na noite de ano-novo, quando as pessoas ricas soltavam fogos, minha família não tinha um grão de arroz. Então levei meu segundo irmão para mendigar, pela primeira vez.
 
 Peng descreveu como desmaiou de fome depois que eles chegaram em casa. Por orgulho, recusou-se a mendigar no dia seguinte, de modo que sua avó, que tinha mais de setenta anos, saiu mancando com os pés amarrados, levando consigo seus irmãos mais moços, um dos quais tinha apenas três anos. Peng disse depois que, ao observá-los desaparecer na neve, sentiu facas afiadas cortando seu coração; foi então até as montanhas e cortou um pouco de lenha, que vendeu por um pequeno punhado de sal. Naquela noite, não comeu o arroz que a avó mendigara e toda a família chorou.
 Quando estava com quinze anos, sua aldeia foi atingida por uma seca que causou a morte de muita gente por inanição. Peng envolveu-se numa tentativa de forçar um rico senhor de terras a doar um pouco de arroz: subiu ao teto do celeiro dele,