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Mao   A História Desconhecida

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mais uma “expedição de aniquilação” — a quinta — contra a base de Ruijin. Em maio, ele fizera uma trégua com os japoneses, cedendo-lhes partes do norte da China, além da Manchúria, e isso o deixou livre para concentrar suas forças contra os comunistas.
 Ao longo dos meses anteriores, Chiang construíra estradas sólidas que permitiram a reunião de suas tropas na região e a vinda de suprimentos. Com essa preparação logística, estava em condições de atacar os comunistas. Seus exércitos avançaram então dentro da área da base vermelha lentamente, fazendo frequentes pausas para construir pequenos fortes, tão próximos uns dos outros que podiam virtualmente ser conectados pelo fogo de metralhadoras. Os comunistas foram cercados por esses fortins. Como descreveu Peng De-huai, Chiang estava forçando a área vermelha a “encolher gradualmente: a tática de secar o lago e depois pegar os peixes”.
 O Exército Vermelho tinha apenas um décimo da força de Chiang e estava muito menos bem armado. Além disso, os soldados nacionalistas estavam agora muito mais bem treinados, graças ao trabalho de um grande grupo de assessores militares alemães. Em especial, o Generalíssimo obtivera os serviços do homem que desempenhara o papel fundamental na reconstituição secreta do Exército alemão depois da Primeira Guerra Mundial, o general Hans von Seeckt. Então Moscou montou uma rede “alemã” própria para ajudar os comunistas chineses a contrabalançar os assessores de Chiang, enviando o especialista militar Manfred Stern (que ficou famoso mais tarde como o general Kléber da Guerra Civil Espanhola) para ser o principal consultor militar, com base em Xangai. E o alemão Otto Braun foi mandado para Ruijin em setembro, como comandante do Exército de facto em campo.
 Em Ruijin, Braun instalou-se na área barricada reservada para os dirigentes do partido, numa casa de sapé no meio de campos de arroz. Conforme relatou, pediram-lhe para “ficar dentro de minha casa o máximo possível para minha segurança como ‘demônio estrangeiro’ e tendo em vista o clamor constante [dos nacionalistas] sobre a presença de ‘agentes russos’”. Deram-lhe um nome chinês, Li De — “Li, o Alemão” — e providenciaram-lhe uma “esposa” cuja qualificação essencial era que “devia ser grande” e “de físico muito forte”, pois supunham que os estrangeiros precisavam de mulheres fortes para dar conta de suas demandas sexuais.
 De acordo com a sra. Zhu De (sucessora da esposa que foi executada pelos nacionalistas), cuja informação reflete a fofoca da época, “nenhuma camarada queria se casar com um estrangeiro incapaz de falar chinês. Então, durante algum tempo, eles [o partido] não conseguiram encontrar uma parceira apropriada”. Por fim, toparam com uma jovem e bonita camponesa que fugira do casamento arranjado quando ainda era criança para se incorporar à revolução. Porém, apesar da pressão oficial, ela não aceitou. “Alguns dias depois, recebeu uma ordem: ‘Li De é um camarada importante, enviado para ajudar a revolução chinesa. Ser esposa dele é a necessidade da revolução. A organização decidiu que você vai casar com ele’. Ela obedeceu, com grande relutância [...] eles não se deram bem.”
 Nesse seu segundo casamento arranjado, a mulher teve um filho de Braun. O menino tinha pele escura, mais próxima da cor de um chinês do que de uma pessoa branca, o que levou Mao a fazer uma piada: “Então, isso acaba com a teoria da superioridade da raça germânica”.
 O homem mais próximo de Braun era Po Ku, o primeiro em importância do partido, que trabalhara com ele em Xangai e podia conversar com o alemão em russo. Eles jogavam cartas com os intérpretes e cavalgavam juntos. Chou En-lai, o segundo em comando e militar mais graduado, também convivia muito com Braun. Mas o alemão tinha pouco a ver com Mao, com quem só se encontrava em funções oficiais. Nessas ocasiões, escreveu Braun, Mao “mantinha uma reserva solene”. Mao não falava russo e mantinha a guarda levantada contra Braun, considerando-o uma ameaça.
 
 
 Quando chegou a primavera de 1934, a expedição nacionalista já pressionava a base comunista havia cerca de seis meses. Os agentes de Moscou e os líderes do PCC não tinham uma solução para se contrapor à guerra de fortins de Chiang e sua avassaladora superioridade militar. Os líderes comunistas de Ruijin sabiam que os dias da base estavam contados e começaram a planejar a retirada. Em 25 de março, Moscou mandou um telegrama a Ruijin, que foi interceptado pelo setor de informações britânico, dizendo que as perspectivas para a base eram muito ruins — muito piores do que o próprio PCC imaginava. Assim que recebeu essa mensagem, Po Ku começou a tentar tirar Mao de seu caminho. Em 27 de março, Xangai telegrafou a Moscou para dizer que Ruijin “comunica que Mao está doente há muito tempo e pede para ser enviado a Moscou”. Mas ele certamente não estava doente. Po Ku e seus colegas não o queriam por perto, para evitar novos problemas.
 O pedido de Ruijin para que buscassem Mao foi rejeitado. Em 9 de abril, Moscou respondeu ser “contra a visita de Mao” porque a jornada, que envolveria a travessia de áreas nacionalistas, seria arriscada demais. “Ele deve ser tratado na região do soviete [ou seja, na área comunista da China], mesmo que isso necessite de grandes custos. Somente em caso de total impossibilidade de tratá-lo no local e de perigo de resultado fatal da doença é que podemos concordar com sua vinda a Moscou.”
 Mao não tinha vontade nenhuma de ser mandado embora. “Minha saúde está boa. Não vou a nenhum lugar”, retorquiu a Po Ku, que controlava as comunicações com Moscou. Mas Po logo arranjou outra solução: deixar Mao na retaguarda para defender o forte. Manter o chefe de Estado in situ seria uma maneira perfeita de proclamar que o Estado vermelho estava vivo.
 Ninguém queria ficar para trás. Muitos dos que ficaram perderam a vida, em batalha ou capturados e executados. Tse-tan, o irmão mais moço de Mao, foi um deles. Outro foi Ho Shu-heng, o amigo que Mao levara ao I Congresso do PCC. Outro ainda foi Chu Chiu-pai, ex-líder do partido. O segundo da hierarquia que ficou para trás, Chen Yi, sofreu um grave ferimento de granada no quadril. Fez-se conduzir numa maca até Zhu De e implorou, em vão, para ser levado embora. Duas décadas depois, ele relembrou com raiva como a decisão lhe foi comunicada (dando ao mesmo tempo um raro vislumbre de como os líderes do PCC viam os sofismas de seus colegas): “Me passaram a conversa: ‘Você é um funcionário graduado, então devemos levá-lo numa maca. Mas, como vem trabalhando em Jiangxi há mais de dez anos [sic], você tem influência e prestígio [...] Agora que o centro vai embora, não podemos encarar as massas se não o deixarmos para trás’.”. O homem que aplicou essa conversa fiada foi Chou En-lai.
 Mao sabia que, se ficasse para trás, estaria muito longe do centro do partido e do Exército, mesmo se conseguisse sobreviver. Não pretendia que se livrassem dele com tanta facilidade. Àquela altura, privado do comando militar, não estava com nenhum exército. Mas, como presidente do governo, era dono de seu nariz e podia escolher o que queria fazer e onde queria estar. Ao longo dos seis meses seguintes, devotou-se a garantir que Po Ku e companhia não o abandonassem ao partir.
 Assim, instalou-se numa posição na rota de fuga. O primeiro lugar em que acampou foi na fronteira meridional, que na época era o ponto de saída previsto. Ali, os comunistas estavam diante de um senhor da guerra cantonês que vinha mantendo um lucrativo comércio de tungstênio com eles e que odiava Chiang. Ao contrário de outras frentes, onde os nacionalistas estavam avançando cada vez mais, ali não havia muita luta. No final de abril, o senhor da guerra cantonês começou a conversar com os comunistas sobre estabelecer um corredor pelo qual eles pudessem sair e prosseguir adiante. Assim que Mao soube disso, desceu para o QG da frente meridional, em Huichang, na