A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
Mao   A História Desconhecida

Pré-visualização | Página 46 de 50

vasta região sudoeste que cobria mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, com uma população de cerca de 100 milhões de habitantes; elas eram virtualmente independentes do governo central, pois mantinham seus próprios exércitos e pagavam poucos impostos a Nanquim. Sichuan era particularmente importante, por ser a maior, mais rica e mais populosa, com cerca de 50 milhões de habitantes. Estava protegida em todos os lados por montanhas quase inatingíveis, o que tornava o acesso “mais difícil do que subir ao céu azul”, nas palavras do poeta Li Po. Chiang a considerava “a base para o renascimento nacional”, isto é, uma retaguarda segura numa eventual guerra contra o Japão.
 Chiang poderia exercer o controle apenas se tivesse seu próprio exército presente nas províncias, mas elas haviam rejeitado seus soldados e, se ele quisesse forçar a entrada, haveria guerra. Chiang não queria declarar guerra aberta aos senhores da guerra. Seu projeto de construção da nação era mais maquiavélico — e mais profícuo. Ele queria empurrar o Exército Vermelho para essas províncias, de modo que os senhores da guerra ficassem tão assustados com o estabelecimento dos comunistas em seus territórios que permitiriam que o Exército nacionalista entrasse para expulsar os vermelhos. Assim, Chiang imaginava, seu exército poderia entrar e ele poderia impor o controle do governo central. Queria preservar o corpo principal do Exército Vermelho para que este ainda significasse uma ameaça aos senhores da guerra.
 Chiang explicou o plano para seu secretário mais próximo: “Quando o exército comunista entrar em Guizhou, poderemos segui-lo. É melhor do que começar uma guerra para conquistar Guizhou. Sichuan e Yunnan terão que nos receber bem, para se salvarem [...] A partir de agora, se jogarmos nossas cartas direito [...] poderemos criar um país unificado”. Em 27 de novembro, no mesmo dia em que os comunistas começaram a atravessar o rio Xiang e marcharam para Guizhou, Chiang lançou seu projeto de construção da nação, uma “declaração sobre a divisão dos poderes entre o governo central e as províncias”.
 Esse projeto permaneceu secreto durante toda a vida de Chiang e ainda é escondido pela história oficial, tanto dos nacionalistas como dos comunistas. Ambas atribuem a fuga dos comunistas aos senhores da guerra regionais, com Chiang pondo a culpa neles e os comunistas os elogiando. Ambos compartilham a mesma preocupação: não revelar que foi o próprio Generalíssimo que deixou os comunistas escaparem. Para os nacionalistas, os métodos de Chiang para estabelecer seu domínio sobre as províncias recalcitrantes eram tortuosos demais, e seu erro de cálculo sobre o uso dos comunistas — que acabou levando ao triunfo deles —, demasiado humilhante. Para os comunistas, é embaraçoso reconhecer que a famosa Longa Marcha foi, em larga medida, dirigida por Chiang Kai-shek.
 Deixar que os comunistas fossem embora foi também um gesto de boa vontade de Chiang para com a Rússia. Ele precisava de uma relação harmoniosa com o Kremlin porque estava sob ameaça do Japão. E o PCC era cria de Moscou.
 Mas havia um outro motivo mais secreto e totalmente privado. Ching-kuo, filho de Chiang, era refém de Moscou havia nove anos. Ele era o único descendente natural de Chiang Kai-shek; não era filho da famosa madame Chiang, mas de sua primeira esposa. Depois que Ching-kuo nasceu, Chiang aparentemente ficou estéril por ter contraído doenças venéreas várias vezes e adotou outro filho, Weigo. Mas Ching-kuo, por ser o único herdeiro de sangue, estava mais perto de seu coração. Chiang foi criado na tradição chinesa em que a preocupação central é ter um herdeiro. Não conseguir dar seguimento à linhagem familiar era considerada a desgraça, a maior dor que alguém poderia infligir aos pais e ancestrais, cujas almas mortas, então, jamais poderiam descansar em paz. Uma das piores maldições na China era: “Que você não tenha herdeiro!”. E o respeito pelos pais e ancestrais, a piedade filial, era a principal injunção moral ditada pela tradição.
 Em 1925, Chiang mandara Ching-kuo, então com quinze anos, para uma escola em Pequim. Era uma época em que a estrela dele estava em ascensão num Partido Nacionalista patrocinado por Moscou. Não demorou para que os russos convidassem Ching-kuo para estudar na Rússia. O rapazinho ficou muito interessado. Alguns meses depois de chegar em Pequim, Ching-kuo foi levado para Moscou por uma figura pouco conhecida, mas fundamental, chamada Shao Li-tzu, um espião comunista importante dentro do Partido Nacionalista.
 Infiltrar espiões foi um dos presentes valiosos que Moscou deu ao PCC. A maioria deles uniu-se aos nacionalistas na primeira metade da década de 1920, quando Sun Yat-sen, que estava cortejando os russos, abriu seu partido aos comunistas. A infiltração funcionava em vários níveis. Assim como havia comunistas conhecidos trabalhando dentro do movimento nacionalista, como Mao, havia também comunistas secretos e um terceiro grupo, os que haviam encenado uma falsa deserção do PCC. Em 1927, quando Chiang rompeu com os comunistas, muitos desses agentes secretos permaneceram como “dormentes”, a serem ativados no momento oportuno. Nos vinte e tantos anos seguintes, eles não somente deram aos comunistas informações cruciais, como estiveram muitas vezes em posição de exercer influência substancial nas diretrizes, pois muitos haviam subido na hierarquia do sistema nacionalista. Em última análise, os agentes infiltrados desempenharam um papel gigantesco na conquista da China por Mao — talvez um papel maior na alta política do que em qualquer outro país do mundo. Muitos continuam secretos até hoje.
 Shao Li-tzu era um deles. Na verdade, tratava-se de um membro fundador do PCC, mas, por ordens de Moscou, ficou longe das atividades partidárias e sua identidade foi mantida em segredo até para a maioria dos líderes do partido. Quando Chiang voltou-se contra os comunistas em Xangai, em abril de 1927, Shao escreveu um telegrama aos russos que foi imediatamente enviado a Stálin, pedindo instruções: “Xangai me perturba muito. Não posso ser a arma da contrarrevolução. Peço conselhos sobre como lutar”.
 Nos 22 anos seguintes, Shao permaneceu com os nacionalistas, ocupando muitos postos importantes, até a vitória comunista em 1949, quando passou para o lado de Mao. Morreu em Pequim, em 1967. Mesmo sob o regime comunista, sua verdadeira face nunca foi revelada e ele ainda hoje é apresentado como um honesto simpatizante, não um dormente de longo tempo.
 Foi, sem dúvida, por instruções de Moscou que Shao levou o filho de Chiang para a Rússia em novembro de 1925. Dois anos depois, ao completar seus estudos, ele não teve permissão para ir embora e foi forçado a denunciar o pai publicamente. Stálin o mantinha como refém, enquanto dizia ao mundo que ele ficara por vontade própria. Stálin gostava de manter reféns. Peggy Dennis, esposa do líder comunista americano Eugene Dennis, descreveu uma visita da eminência parda do Comintern Dmitri Manuilski, quando ela e o marido estavam para partir da Rússia e retornar à América, em 1935. “A bomba foi jogada tranquilamente [...] Quase por acaso, Manuilski nos informou que não poderíamos levar Tim [seu filho] de volta [...] ‘Mandaremos Tim em outro momento, em outras circunstâncias.’.” Os russos nunca o fizeram.
 O fato de Ching-kuo ser um refém foi revelado a seu pai no final de 1931, por ninguém menos que sua cunhada, madame Sun Yat-sen (née Soong Ching-ling), que também era agente soviética.b Falando por Moscou, ela propôs a troca de Ching-kuo por dois altos agentes russos que haviam sido presos recentemente em Xangai. Chiang recusou a proposta. A prisão dos dois agentes era assunto público e eles haviam sido julgados e encarcerados abertamente. Mas a oferta de Moscou desencadeou uma torrente de angústia em Chiang, que pensou que o filho poderia agora ser “cruelmente morto pelos russos soviéticos”. Em 3 de dezembro de 1931, o