A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
Mao   A História Desconhecida

Pré-visualização | Página 49 de 50

Ming, representante do PCC em Moscou, e Chang Kuo-tao, líder do que era então a segunda maior base comunista. Em Zunyi, o Professor Vermelho propôs que Mao fosse admitido no secretariado. Na verdade, o Professor Vermelho não tinha direito a fazer essa indicação, por não ser membro pleno do Politburo. Mas Po Ku sentia-se culpado e desmoralizado demais para se opor à promoção de Mao, e ela passou. Moscou não foi consultada, pois as comunicações por rádio haviam sido cortadas.
 Uma vez dentro do secretariado, Mao estava em posição de manipulá-lo. Dos quatro outros membros que participavam da marcha, Lo Fu já era seu aliado e Chen Yun não se interessava pelo poder e estava amiúde ausente fisicamente, tratando de logística. Restavam Chou e Po. A estratégia de Mao em relação a Chou era separá-lo de Po com uma combinação de prêmios e punições, das quais a principal era a chantagem, com a ameaça de torná-lo corresponsável pelos fracassos passados. Em Zunyi, foi decidido que deveriam produzir uma resolução sobre como o Estado comunista havia sido perdido, e Lo Fu, o comparsa de Mao, conseguiu tomar para si a tarefa de redigir o documento, o que normalmente seria feito pelo líder do partido.
 Esse documento seria o veredicto a ser enviado ao partido e a Moscou. Lo Fu fez um esboço inicial com o subtítulo “Análise dos erros de política militar dos camaradas Po Ku, Chou En-lai e Otto Braun”, em que Chou era também réu na perda do Estado vermelho. Depois que Chou concordou em cooperar, seu nome foi retirado, e a culpa, omitida.
 Como disse Braun friamente, Chou “distanciou-se sutilmente de Po Ku e de mim, proporcionando assim a Mao o pretexto desejado para concentrar seu ataque em nós, ao mesmo tempo que o poupava”. Isso tornava Po o único problema, mas Mao sempre poderia deixá-lo em minoria. Com efeito, assim que terminou a reunião de Zunyi e a maioria dos participantes voltou para suas unidades, Mao obteve desse novo grupo central o título nunca ouvido e decididamente esquisito de “ajudante do camarada En-lai na condução dos assuntos militares”. Desse modo, Mao enfiava um pé porta adentro da liderança militar.
 Esse novo centro promoveu então o Professor Vermelho a membro pleno do Politburo e não demorou a lhe atribuir um alto posto militar, embora ele nada soubesse de questões militares. E, o que é mais importante, três semanas depois de Zunyi, em 5 de fevereiro, numa aldeia em que as três províncias se encontravam, chamada “Um Galo Cocorica Sobre Três Províncias”, Lo Fu foi catapultado para o primeiro posto do partido, no lugar de Po Ku. Primeiro, Mao e Lo Fu fizeram Chou capitular e depois confrontaram Po Ku com uma “maioria” do centro. Po concordou em entregar seu posto “somente depois de muitas discussões e pressões”, como ele descreveu.
 A ascensão de Lo Fu ao primeiro posto no partido foi um golpe por baixo do pano e durante semanas manteve-se em segredo, tanto dos membros do partido como do Exército. A mudança no topo só foi revelada quando uma vitória militar colocou os conspiradores numa posição mais forte. Po foi então excluído da tomada de decisões e, como Lo Fu era um caráter um tanto fraco, Mao passou a dar as cartas.
 
 
 A reunião de Zunyi decidiu pela ida para Sichuan. Sichuan fica logo ao norte de Zunyi e era o destino óbvio da marcha por ser uma província grande, rica e populosa — e recomendada havia muito tempo pelos russos. Era muito mais próxima da Mongólia, controlada pelos soviéticos, e de Xinjiang (então, praticamente uma colônia soviética, guarnecida por tropas russas), dois lugares para os quais Moscou vinha se preparando para enviar armas ao PCC. Stern, o ex-assessor-chefe soviético na China, investigara formas de ligar Sichuan a locais onde os russos poderiam fornecer até “aviões e artilharia [...] e armas suficientes para 50 mil pessoas”.b
 Mas Mao não queria ir para Sichuan. Fazê-lo significaria unir forças com Chang Kuo-tao, um veterano que encabeçava uma força muito superior, de mais de 80 mil homens. Se fizessem a conexão com esse poderoso exército, não haveria esperança de Lo Fu se tornar líder do partido — ou de Mao se tornar o poder por trás do trono. Chang Kuo-tao presidira o I Congresso do partido, em 1921, quando Mao fora um participante marginal e Lo Fu nem era do PCC (ele entrou em 1925). Era um membro bona fide do secretariado — ao contrário de Mao, que acabara de entrar, contra as regras. Além disso, Kuo-tao era membro pleno do Comitê Executivo do Comintern, o que lhe dava considerável prestígio, e tinha influência na Rússia, onde vivera durante anos e conhecera Stálin. Depois que voltou de Moscou, em janeiro de 1931, foi enviado por Xangai para chefiar o enclave comunista chamado Eyuwan, nas fronteiras das províncias de Hubei, Henan e Anhui, no centro-leste do país. Ali ele montou uma base comparável a Ruijin, que no verão de 1932 tinha uma área de mais de 40 mil quilômetros quadrados e uma população de 3 milhões e meio de habitantes, com um exército de 45 mil soldados. Naquele outono, depois que foi expulso por Chiang Kai-shek, mudou-se para o norte de Sichuan, onde montou uma base maior em um ano e expandiu seu exército para mais de 80 mil homens.c Kuo-tao era, sem dúvida, o mais bem-sucedido de todos os comunistas. Depois que se juntasse ao resto da liderança, parecia inevitável que fosse eleito o novo chefe.
 Mao também não podia esperar transformá-lo em um títere. Kuo-tao não sentia remorsos de matar pelo poder. Em suas bases, realizara expurgos sangrentos dos comandantes locais originais que se haviam oposto a ele. Tal como Mao, presidia pessoalmente os interrogatórios que envolviam tortura. Suas vítimas eram em geral passadas pela baioneta ou estranguladas; algumas foram enterradas vivas. Como disse seu comandante militar Xu, ele prontamente “se livrava de gente que se atravessasse em seu caminho a fim de estabelecer seu domínio pessoal”.
 Com essa figura atemorizante para enfrentar, as perspectivas de vitória de Mao seriam mínimas. Ademais, se ele travasse uma luta pelo poder com Kuo-tao, poderia pôr em risco a própria vida. Até então, vinha tratando com líderes cuja devoção ao partido significava que matariam em nome do PCC, mas não por poder pessoal. Ele estava perfeitamente seguro com Po Ku e Chou En-lai, mesmo que criasse problemas para eles. Mas não podia contar com uma indulgência similar de Kuo-tao, de modo que seu objetivo principal era atrasar a entrada em Sichuan, até que tivesse um domínio inquebrantável da liderança do partido.
 Mas Mao não podia declarar abertamente esse objetivo. Tinha de obedecer ao plano de ir para Sichuan. Em 19 de janeiro de 1935, a força que estava com ele partiu de Zunyi e, no dia 22, telegrafaram a Chang Kuo-tao, que estava no norte de Sichuan, para anunciar a chegada iminente e lhe dizer para ir ao sul a fim de fazer a conexão. Mas Mao tinha um ás na manga. Quatro dias depois, insistiu que o Exército Vermelho deveria emboscar uma tropa inimiga que o seguia. Era uma força de Sichuan e tinha a reputação de dura. O cálculo inconfesso de Mao era que o Exército Vermelho poderia sofrer uma derrota e, nesse caso, ele poderia argumentar que o inimigo de Sichuan era forte demais e que seria melhor ficar em Guizhou.d
 A ideia da emboscada era absurda, pois a unidade inimiga que Mao escolheu para atacar não estava barrando o caminho para Sichuan, mas encontrava-se atrás dos comunistas, e sem sequer importuná-los. Na verdade, o plano original que designara Sichuan como destino deles continha uma ordem específica: “manter-se bem distante” de perseguidores, e “não se meter” com eles. Porém Mao conseguiu obter o consentimento de Chou En-lai, que tinha a palavra final em decisões militares, muito provavelmente porque ameaçou Chou de que, se não o apoiasse, seria denunciado como corresponsável pela perda do Estado comunista na “resolução” que Lo Fu estava escrevendo. Parece que Chou tinha um medo mortal