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Essencial Sociologia   André Botelho

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a que se seguiu minha expulsão da Bélgica.
 A publicação da Neue Rheinische Zeitung4 em 1848-9 e os acontecimentos posteriores interromperam meus estudos econômicos, que só pude retomar em 1850, em Londres. A prodigiosa documentação sobre a história da economia política reunida no Museu Britânico, o posto favorável que Londres oferece para a observação da sociedade burguesa e, por último, o novo estágio de desenvolvimento em que esta parecia entrar com a descoberta do ouro californiano e do australiano, fizeram com que me decidisse a recomeçar e a estudar a fundo, com espírito crítico, os novos materiais. Esses estudos conduziam-me a disciplinas que pareciam distanciar-me de meu propósito e nas quais tive de me fixar mais ou menos tempo. Mas o que limitou o tempo de que dispunha foi principalmente a imperiosa necessidade de fazer um trabalho remunerado. Uma colaboração de há oito anos a esta parte no New York Tribune, o primeiro jornal anglo-americano, provocou, na medida em que só excepcionalmente me ocupo do jornalismo propriamente dito, uma extraordinária dispersão em meus estudos. Entretanto, os artigos sobre os acontecimentos econômicos de relevo na Inglaterra e no continente formavam uma parte tão considerável de minhas colaborações que fui levado a familiarizar-me com os pormenores práticos que não são do domínio da ciência pura da economia política.
 Com este esboço da evolução de meus estudos no terreno da economia política, quis apenas mostrar que minhas opiniões, seja qual for o julgamento que mereçam e por muito pouco que concordem com os preconceitos interessados das classes dirigentes, são o resultado de longas e conscienciosas pesquisas. Mas, no limiar da ciência, como à entrada do inferno, esta obrigação se impõe:
 
 Qui se convien lasciare ogni sospetto
 Ogni viltà convien che qui sia morta.5
 Londres, janeiro de 1859
 karl marx
 
 
 
 
 
 
 * Texto publicado originalmente em Karl Marx, Contribuição à crítica da economia política. Trad. de Maria Helena Barreiro Alves. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (n. e.)
 
 
 EssencialSociologia-8
 
 
 
 Introdução a Contribuição à crítica
 da economia política*
 i. produção, consumo,
 distribuição, troca (circulação)
 1. Produção
 O objeto deste estudo é, em princípio, a produção material.
 Indivíduos produzindo em sociedade, portanto uma produção de indivíduos socialmente determinada — esse é, naturalmente, o ponto de partida. O caçador e o pescador individuais e isolados, de que partem Smith e Ricardo, pertencem às inocentes ficções do século xviii. São “robinsonadas” que não exprimem de forma alguma, como parecem crer alguns historiadores da civilização, uma simples reação contra os excessos de requinte e um regresso a um estado de natureza mal compreendido. Do mesmo modo, o contrato social de Rousseau, que estabelece, entre indivíduos independentes por natureza, relações e laços por meio de um pacto, nem por isso se acha mais assentado em um tal naturalismo. Não passa de aparência, aparência de ordem puramente estética nas pequenas e grandes “robinsonadas”. Na realidade, trata-se de uma antecipação da “sociedade burguesa” que vem se preparando desde o século xvi e que, no século xviii, caminhava a passos de gigante para sua maturidade. Nessa sociedade onde reina a livre concorrência, o indivíduo aparece isolado dos laços naturais que fazem dele, em épocas históricas anteriores, um elemento de um conglomerado humano determinado e delimitado. Para os profetas do século xviii — Smith e Ricardo fundamentam-se ainda completamente em suas teses —, esse indivíduo do século xviii — produto, por um lado, da decomposição das formas feudais de sociedade e, por outro, das novas forças de produção que se desenvolvem a partir do século xvi — surge como um ideal que teria existido no passado. Veem nele não um resultado histórico, mas o ponto de partida da história, porque consideram esse indivíduo algo natural, de acordo com sua concepção de natureza humana, não como um produto da história, mas como um dado da natureza. Essa ilusão tem sido partilhada, até o presente, por todas as novas épocas. Steuart, que em mais de um aspecto se opõe ao século xviii e que, em sua condição de aristocrata, se situa mais sobre o terreno histórico, conseguiu fugir a essa ilusão ingênua.
 Quanto mais se recua na história, mais o indivíduo — e, por conseguinte, também o indivíduo produtor — se apresenta num estado de dependência, membro de um conjunto mais vasto; esse estado começa por se manifestar de forma totalmente natural na família, e na família ampliada até as dimensões da tribo; depois, nas diferentes formas de comunidades provenientes da oposição e da fusão das tribos. Só no século xviii, na “sociedade burguesa”, as diferentes formas do conjunto social passaram a apresentar-se ao indivíduo como um simples meio de realizar seus objetivos particulares, como uma necessidade exterior. Mas a época que dá origem a esse ponto de vista, o do indivíduo isolado, é precisamente aquela em que as relações sociais (revestindo esse ponto de vista de um caráter geral) atingiram o seu máximo desenvolvimento. O homem é, no sentido mais literal, um dzôon politikhón,1 não só um animal sociável, mas um animal que só em sociedade pode isolar-se. A produção realizada à margem da sociedade pelo indivíduo isolado — fato excepcional que pode muito bem acontecer a um homem civilizado transportado por acaso para um lugar deserto, mas já levando consigo em potência as forças próprias da sociedade — é uma coisa tão absurda como o seria o desenvolvimento da linguagem sem a presença de indivíduos vivendo e falando em conjunto. É inútil insistirmos nisso. Nem mesmo haveria razão para abordarmos esse assunto se tal banalidade, que tinha um sentido e uma razão de ser para as pessoas do século xviii, não tivesse sido reintroduzida muito a sério por Bastiat, Carey, Proudhon e outros em plena economia política moderna. Para Proudhon torna-se por certo muito cômodo fazer mitologia para dar uma explicação histórico-filosófica de uma relação econômica de que ele ignora a origem histórica: a ideia dessa relação teria surgido já acabada, um belo dia, na cabeça de Adão ou Prometeu, que depois a deixaram ao mundo como herança (…). Nada é mais fastidioso e árido do que o locus communis [lugar-comum] possesso de delírio.
 Eternização das relações históricas de produção. Produção e distribuição em geral. Propriedade
 Assim, sempre que falamos de produção, é à produção num estágio determinado do desenvolvimento social que nos referimos — à produção de indivíduos vivendo em sociedade. Pode parecer que, para falar da produção em geral, será conveniente ou seguir o processo histórico de seu desenvolvimento em suas diversas fases, ou declarar antes de mais nada que iremos ocupar-nos de uma época histórica determinada — por exemplo, da produção burguesa moderna, que é, de fato, o nosso verdadeiro tema. Mas todas as épocas da produção têm certas características comuns, certas determinações comuns. A produção em geral é uma abstração, mas uma abstração racional, na medida em que, sublinhando e precisando os traços comuns, nos evita a repetição. No entanto, esse caráter geral ou esses traços comuns, que a comparação permite estabelecer, formam por seu lado um conjunto muito complexo cujos elementos divergem para revestir diferentes determinações. Algumas dessas características pertencem a todas as épocas, outras são comuns apenas a umas poucas. [Algumas] dessas determinações revelar-se-ão comuns tanto à época mais recente como à mais antiga. Sem elas, não é possível conceber nenhuma espécie de produção. Mas, se é verdade que as línguas mais evoluídas têm de comum com as menos evoluídas certas leis e determinações, é precisamente aquilo que as diferencia desses