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Teoria Geral do Processo Penal

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de aprendizagem, Tício foi preso em flagrante, obrigado a realizar o exame de alcoolemia. Em seguida, ele foi encaminhado para a delegacia, momento em que a autoridade policial abriu o inquérito e ouviu todos os envolvidos. Posteriormente, Tício também foi conduzido para o magistrado analisar a legalidade do flagrante. Ocorre que o juiz da comarca já estava cansado de ouvir pela imprensa casos de motoristas embriagados que se envolviam em acidentes e, ainda assim, recusavam-se a confessar a culpa pelos fatos. Sempre os suspeitos afirmavam que somente falariam em juízo, acompanhados de advogado, etc. O julgador decidiu agir, por conseguinte, como os inquisidores faziam na Idade Média. Partindo ele da premissa de que ninguém confessa algo que não praticou, Tício foi forçado a confessar o crime perante o juiz na audiência de custódia, em um contexto no qual o magistrado coagiu o preso a assumir toda a culpa, sob pena de ficar preso durante todo o processo. O julgador foi enfático ao afirmar que, se o acusado não confessasse, seria decretada uma prisão preventiva. Antônio, advogado recém-formado, ao ouvir os relatos de seu cliente, lembra-se da matéria acerca dos sistemas processuais penais ao longo da história, da opção do legislador brasileiro de como estas características justificam ou repudiam a ação dos policiais e dos magistrados. Leia nosso material e, em seguida, responda ao seu cliente se essa condução foi legal sob o paradigma constitucional brasileiro a partir das seguintes indagações por ele formuladas: é certo um juiz agir desse modo? Qual sistema processual penal mais se compatibiliza com a ação dos policiais? Qual é o sistema adotado pelo Código de Processo Penal? Qual é o sistema que mais se compatibiliza com nossos princípios constitucionais? A atuação do magistrado corresponde ao paradigma processual previsto na nossa Constituição? Com este estudo, podemos compreender de forma global e completa os princípios e as regras que definem o nosso próprio sistema processual penal, no qual, em breve, você será um ativo profissional. Vamos ao conteúdo!
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SISTEMAS PROCESSUAIS: CONCEITO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Estudaremos, nesta seção, os sistemas processuais penais ao longo da história, ou seja, a forma ou estrutura através da qual os elementos processuais se manifestam quanto às figuras dos agentes do processo, os critérios de avaliação da prova e a igualdade ou desigualdade das oportunidades das partes. Para fins didáticos, podemos adiantar que existiram 3 sistemas processuais penais ao longo da história: 
•. INQUISITÓRIO – no qual as funções de acusador, juiz e defensor estão aglutinadas nas mãos de uma mesma pessoa que tem plenos poderes de gestão e produção da prova. 
•. ACUSATÓRIO – no qual há clara distinção entre acusador, juiz e defensor, a atividade probatória é ônus das partes e o juiz deve decidir conforme seu convencimento motivado. 
• MISTO – que possui uma fase pré-processual inquisitiva e uma fase processual acusatória. Esta matéria não é meramente introdutória ou incipiente, ao contrário, a compreensão de nosso sistema processual te ajudará a entender o assunto de forma global e holística, pois os institutos do processo penal não são ilhas de conhecimento compartimentalizado, mas sim conteúdo do mesmo continente. Ademais, a melhor doutrina afirma que os sistemas processuais penais servem como medidores do grau de autoritarismo dos elementos de uma constituição. As constituições democráticas tendem a adotar um sistema mais acusatório, enquanto os países mais autoritários pendem para o inquisitório (LOPES, 2018). Historicamente falando, o sistema acusatório foi o predominante nos países ocidentais até o século XII, quando foi paulatinamente substituído por um sistema inquisitório por conta da influência da igreja católica e do direito canônico. Somente no século XVIII (século XIX para alguns países) o sistema acusatório voltou a prevalecer, por causa da influência de movimentos políticos, culturais e sociais, tal como o iluminismo penal (LOPES, 2018). Analisaremos, ao longo do capítulo, os três sistemas supracitados e tentaremos chegar à conclusão acerca do sistema adotado no Brasil.
	ASSIMILE
Os sistemas processuais ao longo da história variam entre inquisitório, acusatório e misto. As diferenças entre eles referem-se, principalmente, à concentração das funções de acusar e julgar, à iniciativa probatória e aos sistemas de apreciação da prova, entre outras peculiaridades.
SISTEMA INQUISITÓRIO: surgimento e características
A maioria dos países do ocidente herdou dos romanos um sistema acusatório que, a partir do século XII, foi substituído por um sistema inquisitivo, por influência da igreja católica, que se prolongou como a regra por aproximadamente 7 séculos, até que os ideais iluministas o tornaram anacrônico. O surgimento de tal sistema, todavia, foi permeado de boas intenções. Durante o feudalismo medieval, os abusos da casta aristocrática contra seus vassalos eram notáveis. O típico camponês dificilmente conseguia amealhar provas, comparecer a um juízo e acusar seu senhor local, tendo em vista que as justiças senhoriais eram cooptadas, quando não comandadas pessoalmente por estes. Assim, os reis enviavam, em seus nomes, juízes inquisidores que tinham pleno poder na produção e na apreciação da prova e que, ao mesmo tempo, acusavam, defendiam e julgavam (NUCCI, 2018). Como principais características do sistema inquisitivo, podemos citar, a princípio, a cumulação das funções e sujeitos processuais na figura de uma só pessoa. O juiz inquisidor tinha a missão de sobrepujar a influência da aristocracia local e, por isso, tocava o processo inteiramente sozinho: começava-o de ofício (ou seja, sem provocação das partes). A gestão da prova cabia totalmente ao inquisidor. O juiz tinha a iniciativa probatória, podendo determinar a produção de prova que achava ser mais eficaz para elucidar o fato. A avaliação da prova também estava a critério do juiz. O inquisidor poderia valorar a prova como entendesse mais adequado – conforme sua íntima convicção – e não tinha a necessidade de fundamentar suas decisões. No contexto da prova, o período inquisitório também foi caracterizado pelo sistema da prova tarifada, no qual determinados meios tinham mais valor que outros, e a confissão era considerada a rainha das provas – o que justificava a tortura como meio de obtê-la. O acusado não possuía garantias no decorrer do processo. Não havia ampla defesa ou devido processo legal. Também se percebe a ausência de um contraditório pleno, pois o réu raramente podia manifestar-se, não se falando, também, em paridade de armas (AVENA, 2015). Não havia presunção de inocência, de forma que a prisão era a regra durante todo o processo. Aliás, até a revolução industrial, a prisão funcionava apenas para custódia do acusado até a aplicação da pena principal, que era quase sempre corporal, ou seja, mutilação ou morte (GRECO, 2018). Por fim, o processo era quase sempre sigiloso, de forma que o acusado não sabia claramente quais provas haviam sido produzidas contra ele ou quem as produziu e como. Nem tampouco sabia-se claramente por qual delito o réu estava sendo acusado, já que os crimes não eram notoriamente definidos em tipos penais explícitos e diretos.
	ASSIMILE
As principais características do sistema inquisitivo são: concentração dos sujeitos processuais em uma só pessoa, gestão e iniciativa da prova nas mãos do juiz, processo escrito, inexistência de contraditório pleno, disparidade de armas e oportunidades, processo sigiloso e juiz parcial que decide segundo sua íntima convicção.
Apesar de seu evidente lado positivo e das boas intenções que permearam sua criação, o sistema inquisitório foi cooptado pela igreja católica ao final da idade média e utilizado na frenética e abusiva perseguição aos hereges.  O instrumento que permitia a defesa de pobres servos contra o abuso da aristocracia agrícola feudal viabilizou uma literal e sanguinária caça às bruxas, que culminou nas conhecidas