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O filme O experimento de Milgram

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O filme “O experimento de Milgram” (2015), baseado em fatos reais, relata o experimento do psicólogo social Stanley Milgram (1933-1984) realizado na universidade de Yale em 1962. O experimento consistiu em analisar sujeitos, que se interessaram voluntariamente, a participar de uma pesquisa sobre a punição como método de aprendizagem. Foram recrutados 40 homens entre 20 a 50 anos, que reuniam uma variedade de profissões entre eles engenheiros, professores e vendedores. Os participantes, em duplas, recebiam orientações de um orientador, cientista. Um dos participantes era denominado “aluno” e o outro “professor”. O aluno, em uma sala, receberia choques do professor, que estava em outra sala, cada vez que errasse um exercício de memorização. Os choques iniciavam em 15 volts e progrediam até chegar em 450 volts. O aluno era parte da equipe de Milgram, e o professor, o voluntário não sabia que os choques eram falsos. 
Durante a experiência, o aluno, nesse caso ator, encenava dores e gritos para que os choques parassem, cada vez que a voltagem aumentava. Não responder a uma pergunta era considerado resposta errada, e com isso a continuidade dos choques aumentando sua intensidade. O voluntário professor hesitava em aplicar os choques algumas vezes, mas era incentivado pelo “cientista” a continuar. A experiência só chegava ao fim se o professor desistisse. 
Antes de iniciar o experimento, Milgram perguntou, de leigos a psicólogos e psiquiatras, até que ponto achavam que os voluntários aplicariam os choques elétricos nessas circunstâncias. Porém a maioria supôs que os participantes não ultrapassariam uma intensidade que provocaria dor, por exemplo. E para a surpresa de todos, 65% dos participantes foram até o limite dos choques que poderiam aplicar no experimento, obedecendo às instruções do ”cientista”. Dos 40 homens apenas 5 se recusaram a ir até o fim. E nenhum foi a sala do aluno constatar se estava bem, vivo ou morto.
O psicólogo sociólogo, nascido no Bronx, de família judaica fugida da Alemanha nazista, ficou interessado em estudar essa questão da obediência durante o julgamento do alemão nazista Adolf Eichmann, responsável por perseguições, sequestros e deportações de milhares de judeus para campos de concentração. Adolf foi levado a julgamento em 1961, e em seu depoimento afirmou que estava apenas cumprindo ordens e nunca tinha pensado em questioná-las. Sendo assim, Milgram decidiu testar se pessoas normalmente boas poderiam ser convencidas a agir contra seus próprios valores morais em um contexto que houvesse algum tipo de autoridade no comando. Os resultados dessa experiência demonstraram que a maioria das pessoas são capazes de causar danos aos outros se receberem ordens nesse sentido de uma autoridade, e também levantou questões sobre os limites éticos de experimentos. 
Após criticas ao experimento, e um tempo depois, Milgram ajusta e aplica o experimento na Europa e também incluindo mulheres, porém os resultados continuam a se manter na media de 65%. Esses resultados foram apresentados no artigo Behavioral Study of Obedience no Journal of Abnormal and Social Psychology, e posteriormente no seu livro “Obediência a autoridade: uma visão experimental”, 1974. 
O filme, disponível também no Netflix, tem uma narrativa e diálogos com o próprio Stanley Milgran, interpretado por Peter Sarsgaard, e promove mais uma reflexão sobre a questão da obediência do que o sensacionalismo que os resultados da experiência suscitaram. 
O experimento de Milgran é estudado até hoje por profissionais da psicologia e ainda provoca reações cada vez que é apresentada pois tornou-se um dos mais impactantes e controversos, do ponto de vista ético, das ciências humanas e sociais. Essa reação desconcertante, em relação ao experimento, ecoa nas nossas consciências pois como seria possível não ser fiel ao senso moral, aos valores humanos por causa de uma submissão a uma suposta autoridade cientifica? Milgram lançou luz sobre as realidades obscuras do poder e das consequências de nossa tendência a obedecer. Segundo ele, nosso senso de obediência deve-se ao fato da socialização ser concebida, desde a infância, para que no indivíduo seja obediente desde cedo e siga ordens. Em seus estudo, Milgram afirma: A obediência é um elemento tão básico, na estrutura da vida social como qualquer outro. Parte do sistema de autoridade é uma necessidade de toda vida comunitária e somente a pessoa que habita em isolamento não é forçada a responder, com desafio ou submissão, às ordens de outros. Para muitos, a obediência é uma tendência comportamental profundamente arraigada, chegando mesmo a ser um forte impulso que sobrepuja o treinamento em ética, solidariedade e conduta moral.[1: Behavioral Study of Obedience, Journal of Abnormal and Social Psychology, 67, 371-378. Tradução do Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro – Revista Diálogo ]
Mas há algumas questões interessantes que devemos estabelecer com essa experiência, pois o homem, vivendo em uma sociedade e para a manutenção da ordem, obedece à regras, contratos, leis e autoridades. Para o suíço, filosofo, Jean-Jacques Rousseau, quando expõe em sua obra, que na noção de contrato social, o homem é naturalmente bom, sendo a sociedade, instituição regida pela política, a culpada pela "degeneração" dele. O contrato social para Rousseau é um acordo entre indivíduos para se criar uma sociedade, e só então um Estado, isto é, o contrato é um pacto de associação, não de submissão. Esse pacto garante não apenas os direitos e deveres do Estado a sociedade, mas reciprocamente a sociedade para com o Estado. Assim, o pacto estabelecido, há a conduta social e garantias de direitos básicos a todos. 
Inspirado em Milgran, o ilusionista Derren Brown faz alguns experimentos sociais para provar que pessoas podem cometer atos chocantes, influenciadas pela autoridade, seja ela de uma pessoa, de um grupo ou ideologia. A pergunta é será que podemos ser manipulados a pressões sociais a cometer um homicídio? Esse é um experimento extremo do que Derren associa ao “Complice Social”, ato de fazer porque alguém disse que é certo fazer. O complice social faz parte da vida e nos ensinou, através da evolução das espécies, que é mais fácil fazer parte da multidão.
No filme “The Push” (2018), também disponível no Netflix, Derren faz um experimento para testar se pessoas através de um reality show, previamente selecionadas e manipuláveis, são capazes de cometer um crime, por exemplo. Para isso, ele seleciona 4 participantes que são envolvidos em uma trama combinada, com vários atores interpretando papeis que criam um ambiente, onde o participante recebe pequenas tarefas que lentamente o envolve a se tornar mais propenso em obedecer a ordens cada vez mais serias. Toda a estrutura do experimento faz com que o ambiente e as cenas sejam cada vez mais real e intenso, em um momento os participantes estão em um leilão, no outro eles assumem uma identidade falsa para encobrir uma morte.
Para quem está assistindo, a pergunta é “será que ele ou ela fará isso?”, mas a resposta não importa ao chegarmos a conclusão do experimento de como entregamos diariamente o controle de nossas vidas e qual o perigo de se perder esse controle. Ao final do experimento, podemos constatar que dos 4 participantes envolvidos, apenas 1 se recusa a obedecer a ordem de cometer um homicídio. A grande questão é como as pessoas traem seus princípios pelo conformismo e pela necessidade de se encaixar em um grupo ou em uma ideologia. 
A necessidade do indivíduo de pertencimento ou de se encaixar em um determinado grupo, nos comprova, através desses experimentos, que a natureza humana pode ser surpreendente. Que pessoas podem ser influenciadas por estímulos do ambiente corporativo, político, religioso ou social a corromper seus próprios princípios de humanidade em detrimento a obedecer aquela determinada autoridade, mesmo sendo uma ordem que prejudique outras pessoas. 
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