Drogas e Biopolitica- Uma Genealogia da Redução de Danos - Pabo Ornelas Rosa
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Drogas e Biopolitica- Uma Genealogia da Redução de Danos - Pabo Ornelas Rosa


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às redes de refino, distribuição e comércio trouxeram como 
conseqüência não apenas o aumento de seu preço unitário, mas também proporcionaram 
a intensificação do monopólio e oligopólio dos grandes vendedores ou \u201ctraficantes\u201d e 
das redes de refino e distribuição de droga, acarretando em um aumento expressivo de 
seus preços, na medida em que não respeitavam as leis de mercado e concorrências. 
 Além disso, este processo também gerou outro fenômeno bastante significativo 
do ponto de vista da criminalidade referente ao nível de intoxicação e dependência dos 
indivíduos que faziam uso destas substâncias. Como o consumo de drogas ocorre de 
forma absolutamente elástica, pelo menos no caso daqueles mais intoxicados, o 
indivíduo realmente dependente da substância estará disposto a pagar o preço que for 
pela mercadoria que necessita. A elasticidade da demanda da droga proporciona um 
aumento na criminalidade na medida em que o indivíduo que depende fisicamente, 
psiquicamente ou socialmente destas substâncias, em caso de necessidade 
possivelmente poderá assaltar alguém na rua objetivando auferir a quantia necessária 
para o seu consumo. 
 As legislações ou os estilos de legislações e de esforços de lei que foram 
desenvolvidos no decorrer dos anos 1960 revelaram-se um fracasso sensacional no que 
se refere ao controle da criminalidade decorrente das drogas (FOUCAULT, 2008b: 352) 
porque jamais conseguiram operar veementemente sobre as duas categorias de 
compradores que são estabelecidas a partir de uma demanda elástica e outra inelástica. 
Enquanto os consumidores que fazem parte da demanda elástica podem optar por não 
pagar pelos preços demasiadamente altos, renunciando o consumo que lhes é prometido 
como fonte de muitos prazeres, os consumidores envolvidos pela demanda inelástica 
 
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 O esforço da lei é mais do que a simples aplicação da lei. Trata-se de um conjunto de instrumentos 
postos em prática para dar ao ato de interdição, fundamentado na formulação da lei, uma realidade 
política e social. O esforço da lei deve ser entendido como um conjunto de instrumentos de ação sobre o 
mercado do crime que opõe à oferta do crime a uma demanda negativa (FOUCAULT, 2008b: 348). 
 
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estarão condicionados a pagar o preço que for pela droga em decorrência de suas 
necessidades. 
Há toda uma política que se traduziu aliás, como vocês sabem, por uma 
[atitude] que não procurava tanto diferenciar entre as chamadas drogas leves e 
as drogas pesadas, mas distinguia entre as drogas com valor indutivo e as 
drogas sem valor indutivo, e distinguia sobretudo, dois tipos de consumo, o 
consumo elástico da droga e o consumo inelástico. E a partir daí toda uma 
política de esforço da lei voltada para os novos consumidores, para os 
consumidores potenciais, para os pequenos traficantes, para esse pequeno 
comércio que se faz nas esquinas; política de esforço da lei que obedecesse a 
uma racionalidade econômica que era a racionalidade de um mercado, com 
esses elementos diferenciados de que eu lhes falava (FOUCAULT 2008b: 
353). 
 Portanto, não se tratava de eliminar o criminoso em escala individual, mas de 
postular um elemento, uma dimensão e um nível de conduta que pode ser interpretada 
como um comportamento econômico e controlado amparada pela noção de sujeito 
econômico que pressupõe, no sentido estrito, a procura em qualquer circunstância pela 
maximização do lucro e pela otimização da relação entre ganho/perda. 
Em agosto de 1986 o presidente Reagan declarou publicamente que as \u201cdrogas 
eram o problema número um do país\u201d e que \u201ca guerra deviria começar dentro de casa\u201d. 
Buscando solucionar este problema, ele apresentou um novo programa, que objetivava 
eliminar as drogas nos Estados Unidos, pautado em seis princípios: Eliminar as drogas 
ilegais dos locais de trabalho; eliminar o abuso de drogas nas escolas; proporcionar 
tratamentos efetivos para os consumidores crônicos; melhorar a cooperação 
internacional para evitar a entrada de drogas ilegais intensificando a aplicação da lei; 
ampliar a punição destes crimes, e aumentar o conhecimento do público sobre as 
políticas de prevenção do \u201cabuso de drogas\u201d. 
 Os indivíduos pertencentes a determinados grupos ou etnias diferentes da 
dominante, dentre eles os imigrantes, e em particular os recém chegados, representavam 
o a população redundantes26 que assombravam a vida das potenciais \u201cvítimas do medo\u201d. 
Para aqueles que os detratava e os odiava, o imigrante encarnava de modo visível, 
tangível, em carne e osso, o pressentimento inarticulado, mas pungente e doloroso, de 
sua própria condição de descartável (BAUMAN, 2004), uma espécie de produto 
 
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 Ser redundante significa ter sido dispensado pelo fato de ser dispensável \u2013 tal como a garrafa de 
plástico vazia e não retornável, ou a seringa usada, uma mercadoria desprovida de atração e de 
compradores, ou um produto abaixo do padrão, ou manchando, sem utilidade, retirado da linha de 
montagem pelos inspetores de qualidade. \u201cRedundância\u201d compartilha o espaço semântico de \u201crejeitos\u201d, 
\u201cdejetos\u201d, \u201crestos\u201d, \u201clixo\u201d \u2013 com refugo (BAUMAN, 2004: 20). 
 
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perecível. Na lógica dos indivíduos estabelecidos, os imigrantes ou outsiders ocupavam 
um lugar que não lhes pertencia. 
 Conforme Elias & Scotson (2000), tanto no caso de Winston Parva - nome 
fictício designado à cidade em que os autores desenvolveram suas pesquisas - quanto 
nos demais locais, os outsiders geralmente são reconhecidos como indivíduos ou grupos 
anômicos. O contato mais íntimo com eles é visto como algo extremamente 
desagradável, uma vez que coloca em risco certas defesas intensamente arraigadas pelo 
grupo estabelecido. 
 O fato de os imigrantes estarem conquistando novos espaços na sociedade 
estadunidense, competindo no mercado de trabalho com os estabelecidos, acabou 
provocando uma reação pelo controle da antiga ordem instituída que passou a ser 
ameaçada pelos imigrantes. À medida que a população estadunidense aumentava 
através da imigração, ampliava-se também o acirramento pelo trabalho e a 
competitividade. Além de imigrantes mexicanos, chineses, irlandeses, italianos, dentre 
outros, os estadunidenses também possuíam hábitos considerados desviantes e 
cometiam crimes. No entanto, as [condutas] delituosas eram atribuídas principalmente 
aos imigrantes que ameaçavam a ordem através de seus hábitos. 
Dos ladrões que atentam contra a propriedade, passando pelos socialistas que 
desafiam o Estado burguês, até a grande massa de miseráveis, convertidos em 
dados estatísticos, a preocupação com os desestabilizadores tornou-se centro da 
preocupação das jovens democracias liberais. A ameaça parte \u201cde baixo\u201d, das 
vielas e cortiços, dos homens com costumes \u201canômalos\u201d e línguas 
incompreensíveis, das doutrinas revolucionárias e instabilizadoras, do outro 
que está dentro como peste. Se assim é, torna-se imprescindível a tomada de 
medidas para salvaguardar a sociedade; medidas que se cristalizam na noção de 
prevenção geral, força que cataloga a amedrontadora alteridade. 
Instrumentalizada pelas técnicas de repressão do sistema jurídico-policial, a 
prevenção geral determina a intervenção sobre os alvos selecionados 
prendendo-os ou eliminando-os e, com isso, circunscrevendo os \u201cperigosos\u201d ao 
seu espaço: o gueto ou o cárcere. (RODRIGUES, 2004b: 138). 
 
 Até os anos de 1950 algumas das drogas consideradas extremamente perigosas 
hoje não eram tratadas com a precaução hodierna porque não tinham a mesma 
importância econômica e política, além disso, o seu consumo também não atingia 
proporções elevadas. Conforme Del Olmo (1990), as distintas maneiras de consumir 
essas variadas substâncias psicoativas produziam um universo bastante misterioso, a 
exemplo