Drogas e Biopolitica- Uma Genealogia da Redução de Danos - Pabo Ornelas Rosa
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Drogas e Biopolitica- Uma Genealogia da Redução de Danos - Pabo Ornelas Rosa


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a Colômbia, tendo como 
principal finalidade o julgamento de traficantes colombianos que atentavam contra a 
economia estadunidense, tornando evidente que havia outra medida discursiva dirigida à 
cocaína, pois como a Colômbia havia se tornado o principal centro de processamento 
desta substância, era conveniente elaborar um discurso responsabilizando os imigrantes 
ilegais pelos problemas não somente econômicos, mas também pelos problemas sociais 
dos Estados Unidos. 
Segundo Passetti (2004), o crime possui um caráter político, na medida em que o 
processo seletivo do \u201ccriminoso\u201d pressupõe a seleção de situações conflituosas ou de 
fatos considerados socialmente negativos que não são necessariamente violentos, mas 
considerados desviantes ou fora de uma moralidade. Como são objetos da lei penal 
acabam sendo chamados de crimes, na medida em que traduzem uma manifestação de 
poder do Estado e moral da sociedade. Portanto, essa decisão política é ditada por uma 
instrumentalização do exercício de poder do Estado, expressa de uma forma punitiva 
que busca proporcionar uma disciplina social e resulta na manutenção e reprodução da 
organização e do equilíbrio global de uma formação social. 
A consolidação das expressões \u201cnarcotráfico\u201d \u2013 a partir da década de 80 \u2013 e 
\u201ccrime organizado\u201d \u2013 a partir da década de 90 \u2013, propunham nova espécie de 
criminalidade dita globalizada, transnacional e poderosa, deu-se através de sua repetição 
e interiorização, sem se atentar para o fato de que jamais se conseguiu estabelecer 
qualquer definição com um mínimo de cientificidade que traduza tais expressões. 
A expressão \u2018crime organizado\u2019 (ou \u2018criminalidade organizada\u2019) não tem 
nenhum significado particular, apenas servindo para assustar e permitir a 
produção de leis de exceção, aplicáveis ao que quer que se queira convencionar 
como sendo uma suposta manifestação de um tal imaginário fenômeno (...) Na 
mesma linha, foi criada e consolidada a expressão \u2018narcotráfico\u2019. Tal expressão 
surgiu na década de 80, com a política norte-amercicana de \u2018guerra contra as 
drogas\u2019, que elegeu um agente externo \u2013 os produtores e distribuidores dos 
países latino-americanos \u2013 como o inimigo a ser enfrentado. A expressão 
\u2018tráfico\u2019, que tem o sentido de negócio ilegal, já traz uma forte carga 
emocional, que a diferencia da expressão equivalente \u2018comércio ilegal\u2019. 
(KARAM, 2004: 76). 
 A chamada \u201cguerra contra as drogas\u201d acabou consolidando a expressão 
\u201ctráfico\u201d, além de propiciar o uso do radical da palavra inglesa narcotics, presente em 
outros idiomas, permitindo concomitantemente uma uniformização de linguagens e uma 
maior carga emocional no que se refere às atividades de produção e distribuição das 
substâncias psicoativas qualificadas como ilícitas. Assim, a expressão \u201cnarcotráfico\u201d 
 
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passou a ser repetida e interiorizada, consolidando um caráter distorcido e funcional ao 
uso da linguagem e um útil e exacerbado apelo emocional (KARAM, 2004). 
 A economia informal, neste caso, ocorre de forma similar à economia formal por 
compartilharem das mesmas determinações estruturais cunhadas nas leis de mercado. 
Estas atividades de produção, comércio e, às vezes, consumo de certas substâncias 
psicoativas consideradas pelos Estados como ilícitas, também são reguladas por leis de 
oferta e de demanda, concomitante a divulgação de uma verdade fundamentada em um 
apelo emocional que cria o \u201cmito da droga\u201d, disseminado pela mídia e acolhido pelo 
imaginário social a partir de estratégias oriundas dos países capitalistas centrais, 
responsáveis pela volumosa demanda por drogas no mercado internacional. 
O sistema neoliberal produz uma visão esquizofrênica das drogas, 
especialmente a cocaína: por um lado estimula a produção, comercialização e 
circulação da droga, que tem alta rentabilidade no mercado internacional, e por 
outro lado constrói um arsenal jurídico e ideológico de demonização e 
criminalização desta mercadoria tão cara à nova ordem econômica. 
(BATISTA, 2003: 82). 
A questão da proibição de determinadas substâncias psicoativas está situada, 
sobretudo, em discursos que transitam entre a saúde e a segurança, expondo os 
elementos econômicos e políticos que impedem soluções para aquilo que é considerado 
um problema de ordem moral, ético, jurídico, médico, dentre outros, de acordo com a 
conveniência. 
Durante as últimas décadas foram tecidos vários discursos e diferentes verdades 
sobre as atividades relacionadas às substâncias psicoativas que serviram para criar uma 
série de estereótipos cujas finalidades foram demonizar certas práticas sócio-culturais, 
como também inseri-las à governamentalidade neoliberal. Com isso, os Estados ao 
redor do mundo, influenciados pela diplomacia e pela guerra estadunidense, passaram a 
utilizar a política e a economia como tecnologias de controle sobre as drogas, criando, 
inicialmente, um discurso proibicionista, baseado na implantação de políticas criminais; 
que, com a difusão do pensamento neoliberal, passou a capturar determinadas atividades 
tidas pelos Estados como delituosas, transformando-as em vantagens. Tratando, por 
exemplo, os produtores, comerciantes e consumidores de drogas como capital humano. 
 
 
 
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Drogas, Saúde e Segurança Pública 
As análises desenvolvidas neste trabalho mostram que, por mais que a redução 
de danos seja uma importante política que atua no campo da saúde pública reduzindo a 
incidência de doenças transmitidas pelo consumo de drogas e pela prática de sexo sem a 
utilização de preservativos, ainda assim ela opera como um dispositivo de controle 
extremamente eficaz que também atua na área segurança pública. 
A metodologia utilizada neste trabalho partiu primordialmente de uma 
perspectiva genealógica foucaultiana, procurando pensar a política não somente 
centrada nas análises institucionais, mas nas relações destas com os mais variados 
dispositivos de poder que engendram governamentalidades. Não é, portanto, o poder 
constituído através dos governos institucionalizados que procuro analisar. O que busco 
são as relações de poder existentes e reproduzidas através das verdades. São elas que 
acabam legitimando, também através das instituições, o que Foucault (2007) chamou de 
governos dos vivos. 
Da mesma forma que os arqueólogos escavam terras em busca dos 
conhecimentos advindos de outras épocas, buscarei escavar as relações de poder e os 
saberes que apresentam outras verdades existentes nas políticas públicas de saúde e 
segurança pública orientadas para controlar àqueles que estão envolvidos com as drogas 
ilícitas. Contudo, essa perspectiva genealógica do poder adotada proporciona o 
entendimento sobre as formas com que são desenvolvidas certas verdades em certas 
épocas e, sobretudo, de que forma elas relacionam os discursos que envolvem tanto o 
tratamento quanto a repressão que não são somente institucionalizadas, mas também 
governamentalizadas. 
Em conferência realizada sobre o nascimento da medicina social, Foucault 
afirmou sua incredibilidade sobre a idéia de que a medicina social teria longa história, 
remontando a Grécia Antiga. Para ele, contrariamente, até a Idade Média as práticas 
médicas eram individualizadas, centrando-se na relação entre médico e paciente. Assim, 
a medicina de caráter propriamente social seria bem mais recente, tendo se 
desenvolvido a partir do capitalismo e de toda uma tecnologia do corpo social ligada a 
ele. A hipótese formulada pelo autor no princípio desta conferência pressupõe que tanto 
o corpo quanto a medicina são elementos cruciais para essa nova economia de poder 
que se configura na modernidade. 
 
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(...) com o capitalismo não se deu na passagem de uma medicina coletiva para 
uma medicina privada, mas justamente o contrário; que o capitalismo, 
desenvolvendo-se em fins do século XVIII e início do século XIX,