José Afonso da Silva - Direito Constitucional Positivo - 25º (2)
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Canotilho e Vital Moreira. Algumas são norrnas- 
síntese ou normas-matriz cuja relevância consiste essencialmente na 
integração das normas de que são súmulas, ou que as desenvolvem,19 
mas têm eficácia plena e aplicabilidade im ediata,20 com o as que con­
têm os princípios da soberania popular e da separação de poderes 
(arts. I a, parágrafo único, e 29). A expressão "República Federativa 
do Brasil" é, em si, uma declaração norm ativa, que sintetiza as for­
mas de Estado e de governo, sem relação predicativa ou de imputa­
bilidade explícita, m as vale tanto quanto afirm ar que o "Brasil é uma 
República Federativa". É um a norm a implícita, e norma-síntese e 
matriz de ampla norm atividade constitucional. A afirmativa de que 
a "República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democráti­
co de Direito" não é um a m era prom essa de organizar esse tipo de 
Estado, m as a proclam ação de que a Constituição está fundando um 
novo tipo de Estado, e, para que não se atenha a isso apenas em sen­
tido formal, indicam-se-lhe objetivos concretos, em bora de sentido 
teleológico,21 que mais valem por explicitar conteúdos que tal tipo de 
Estado já contém, como discutiremos mais adiante. Outras normas 
dos princípios fundamentais são indicativas dos fins do Estado,22 
como a do inc. III do art. 3e. Outras são definições precisas de com ­
portam ento do Brasil como pessoa jurídica de Direito internacional, 
como as que integram o art. 49.
18. Cf. Manual de Direito constitucional, t. 11/199.
19. Cf. Fundamentos da Constituição, p. 72.
20. Sobre essa temática, cf. nosso Aplicabilidade das normas constitucionais, 2- 
ed., São Paulo, Ed. RT, 1982.
21. Nas edições anteriores, estava "em bora program áticas", que agora 
substituímos por "embora de sentido teleológico", porque o termo "programático" 
não exprime com rigor o sentido dessas normas e porque se trata de expressão com­
prometida com teorias ultrapassadas que viam na Constituição normas sem valor 
jurídico que davam aquela denominação.
22. Também aqui se usava antes "programáticas", substituída por \u201cindicati­
vas dos fins do Estado".
Capítulo II
DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS 
DO ESTADO BRASILEIRO
1. REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL: 1. O País e o Estado brasileiros.
2. Território e forma de Estado. 3. Estado Federal: forma do Estado brasileiro. 4. 
Forma de Governo: a República. 5. Fundamentos do Estado brasileiro. 6. Obje­
tivos fundamentais do Estado brasileiro. II. PODER E DIVISÃO DE PODE­
RES: 7. O princípio da divisão de poderes. 8. Poder político. 9. Governo e dis­
tinção de funções do poder. 10. Divisão de poderes. 11. Independência e harmo­
nia entre os poderes. 12. Exceções ao princípio. III. O ESTADO DEMOCRÁ­
TICO DE DIREITO: 13. Democracia e Estado de Direito. 14. Estado de Direi­
to. 15. Estado Social de Direito. 16. O Estado Democrático. 17. Caracterização 
do Estado Democrático de Direito. 18. A lei no Estado Democrático de Direito.
19. Princípios e tarefa do Estado Democrático de Direito.
I. REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
1. O Pais e o Estado brasileiros
País é palavra que se refere aos aspectos físicos, ao habitat, ao 
torrão natal, à paisagem territorial. O termo país (de pagus, pagos) 
manifesta a unidade geográfica, histórica, econôm ica e cultural das 
terras ocupadas pelos brasileiros.10 nome do país pode ou não coin­
cidir com o nom e do respectivo Estado: Espanha (nome de país e de 
Estado); Portugal (país), República Portuguesa (nome do Estado); Esta­
dos Unidos da América do N orte (nome do Estado e do país). Por 
outro lado, mesm o quando não haja coincidência, não raro se utiliza 
o nom e do país para indicar o Estado. Pois bem, ao país brasileiro 
chamou-se, inicialmente, Monte Pascoal, Terra de Santa C ruz e, por 
fim, Brasil (terra do pau cor de brasa).
Estado é, na justa definição de Balladore Pallieri, um a ordenação 
que tem por fim específico e essencial a regulam entação global das 
relações sociais entre os m embros de uma dada população sobre um 
dado território,2 na qual a palavra ordenação expressa a idéia de poder
1. Sobre a noção de país, cf. Juan Ferrando Badía, EI Estado unitário, el federal y 
el Estado autonómico, pp. 158 e ss.
2. Cf. Diritto costituzionale, p. 14.
98 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
soberano, institucionalizado. O Estado, com o se nota, constitui-se de 
quatro elementos essenciais: um poder soberano de um povo situado 
num território com certas fin alidades. E a constituição, com o dissemos 
antes, é o conjunto de normas que organizam estes elementos consti­
tutivos do Estado: povo, território, poder e fin s .
U m a coletividade territorial, pois, só adquire a qualificação de 
Estado, quando conquista sua capacidade de autodeterminação, com 
a independência em relação a outros Estados. Foi o que se deu com o 
Estado brasileiro, proclam ado independente em 1822, assumindo a 
condição de ente com poder soberano num território de mais de oito 
milhões e meio de quilômetros quadrados, com população superior 
a cento e setenta milhões de pessoas, com os fundamentos, objetivos 
(finalidades) e estrutura previstos nos arts. 1®, 29 e 39 da Constituição, 
que analisaremos no correr deste curso.
República Federativa do Brasil condensa o nom e do Estado brasi­
leiro \u2014 República Federativa do Brasil \u2014 , o nom e do país \u2014 Brasil 
\u2014 , a forma de Estado, mediante o qualificativo Federativa, que indica 
tratar-se de Estado Federal, e a forma de governo \u2014 República. Pátria 
é term o que exprime sentimentos cívicos (Pátria: terra dos pais, terra 
que am am os; "Patria est ubicum que est bene", Pátria é o lugar onde se 
sente bem).
2. T erritório e fo r m a d e E s ta d o
Território é o limite espacial dentro do qual o Estado exerce de 
m odo efetivo e exclusivo o poder de império sobre pessoas e bens.3 
Ou, com o expressa Kelsen: é o âmbito de validez da ordenação jurí­
dica cham ada Estado.4
Form a de Estado. O m odo de exercício do poder político em fun­
ção do território dá origem ao conceito de fo rm a de Estado.5 Se existe 
unidade de poder sobre o território, pessoas e bens, tem-se Estado 
unitário. Se, ao contrário, o poder se reparte, se divide, no espaço 
territorial (divisão espacial de poderes), gerando um a multiplicida­
de de organizações governamentais, distribuídas regionalmente, en-
3. Cf. Alexandre Groppali, Doutrina do Estado, p. 140. Oskar Georg Fischbach, 
Teoria general dei Estado, p. 108; A. de Lyra Tavares, Território nacional, p. 15.
4. Cf. Teoria general dei derecho y dei Estado, p. 247.
5. Cumpre observar que o conceito de forma de Estado aqui é o estrutural, 
como se vê do texto. Fala-se em forma de Estado em outros sentidos, que, em verda­
de, são tipos históricos de Estado: Estado patrimonial, Estado de polícia e Estado de 
direito, ou forma de regime político: Estado de democracia clássica, Estado autoritário e 
Estado de democracia progressiva ou marxista. Sobre o tema, cf. Paolo Biscarettidi Ruffia, 
Diritto costituzionale, pp. 177 e ss.
DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO ESTADO BRASILEIRO 99
contramo-nos diante de um a fo rm a de Estado com posto, denominado 
Estado fed era l ou Federação de Estados.
A repartição regional de poderes autônom os constitui o cerne 
do conceito de Estado federal. Nisso é que ele se distingue da form a 
de Estado unitário (França, Chile, Uruguai, Paraguai e outros), que 
não possui senão um centro de poder que se estende por todo o terri­
tório e sobre toda a população e controla todas as coletividades regio­
nais e locais. E certo que o Estado unitário pode ser descentralizado e, 
geralmente, o é, m as essa descentralização, por ampla que seja, não é 
de tipo federativo, como nas federações, mas de tipo autárquico, ge­
rando um a forma de autarquia territorial no m áxim o, e não um a auto­
nomia político-constitucional, e