José Afonso da Silva - Direito Constitucional Positivo - 25º (2)
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José Afonso da Silva - Direito Constitucional Positivo - 25º (2)


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da PGE-SP 30:70, onde expressamente está que a 
Constituição não chegou a estruturar um Estado Democrático de Direito de conteúdo socia­
lista, assim como também dissemos ao enunciar seus princípios que "a Constituição 
não prometeu a transição para o socialismo mediante a realização da democracia
DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO ESTADO BRASILEIRO 121
18. A lei no Estado D em ocrático de Direito
O princípio da legalidade é também um princípio basilar do Es­
tado Democrático de Direito. É da essência do seu conceito subordi­
nar-se à Constituição e fundar-se na legalidade dem ocrática. Sujeita- 
se, com o todo Estado de Direito, ao império da lei, m as da lei que 
realize o princípio da igualdade e da justiça não pela sua generalida­
de, m as pela busca da igualização das condições dos socialmente 
desiguais. Deve, pois, ser destacada a relevância da lei no Estado 
Democrático de Direito, não apenas quanto ao seu conceito formal 
de ato jurídico abstrato, geral, obrigatório e modificativo da ordem 
jurídica existente, m as também à sua função de regulam entação fun­
damental, produzida segundo um procedimento constitucional qua­
lificado. A lei é efetivamente o ato oficial de m aior realce na vida 
política. Ato de decisão política por excelência, é por meio dela, en­
quanto em anada da atuação da vontade popular, que o poder estatal 
propicia ao viver social m odos predeterminados de conduta, de m a­
neira que os membros da sociedade saibam, de antemão, com o guiar- 
se na realização de seus interesses.
É precisamente no Estado D em ocrático de Direito que se ressal­
ta a relevância da lei, pois ele não pode ficar limitado a um conceito 
de lei, com o o que imperou no Estado de Direito clássico.65 Pois ele 
tem que estar em condições de realizar, mediante lei, intervenções 
que impliquem diretamente uma alteração na situação da com uni­
dade.66 Significa dizer: a lei não deve ficar numa esfera puram ente 
norm ativa, não pode ser apenas lei de arbitragem, pois precisa in­
fluir na realidade social. E se a Constituição se abre para as transfor­
m ações políticas, econôm icas e sociais que a sociedade brasileira re­
quer, a lei se elevará de importância, na m edida em que, sendo fun­
damental expressão do direito positivo, caracteriza-se com o desdo­
bramento necessário do conteúdo da Constituição e aí exerce função 
transformadora da sociedade, impondo m udanças sociais democráti-
econômica..., como o fez a Constituição portuguesa", textos também repetidos nes­
te volume desde sua 5® ed. (1° sob a Constituição de 1988). Não obstante a clareza 
desses textos, o Prof. Manoel Gonçalves Ferreira Filho me atribui declaração em 
sentido oposto, quando escreve: "José Afonso da Silva sustenta, porém, o contrário, 
afirmando que Estado Democrático de Direito significa na Constituição brasileira 
Estado em transição para o socialismo" (cf. Comentários a Constituição brasileira, v. 1/ 
18). Por mais vontade que tivesse que assim fosse, meu senso jurídico (se é que 
tenho algum) não me permitiria dar uma tal interpretação, que não seria correta. 
Não leu bem o meu texto o ilustre professor.
65. A propósito, cf. Christian Starck, El concepto de ley en la constitución alemana, 
p. 249.
66. Idem, p. 300.
122 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
cas, ainda que possa continuar a desem penhar um a função conser­
vadora, garantindo a sobrevivência de valores socialmente aceitos.
19. Princípios e tarefa do Estado D em ocrático de Direito
Limitar-nos-emos a indicar esses princípios67 sem entrar em por­
menores, porque ao longo deste curso serão estudados no momento 
próprio, se já não foram. São os seguintes:
(a) princípio da constitucionalidade, que exprime, em primeiro lu­
gar, que o Estado Democrático de Direito se funda na legitimidade de 
um a Constituição rígida, emanada da vontade popular, que, dotada 
de supremacia, vincule todos os poderes e os atos deles provenientes, 
com as garantias de atuação livre de regras da jurisdição constitucio­
nal;
(b) princípio dem ocrático, que, nos termos da Constituição, há de 
constituir um a dem ocracia representativa e participativa, pluralista, 
e que seja a garantia geral da vigência e eficácia dos direitos funda­
mentais (art. I9);
(c) sistema de direitos fundam entais, que compreende os individuais, 
coletivos, sociais e culturais (títulos II, VII e VIII);
(d) princípio da justiça social, referido no art. 170, caput, e no art. 
193, com o princípio da ordem econôm ica e da ordem social; como 
dissemos, a Constituição não prometeu a transição para o socialismo 
mediante a realização da democracia econôm ica, social e cultural e o 
aprofundamento da democracia participativa, com o o faz a Consti­
tuição portuguesa, mas com certeza ela se abre também, timidamen­
te, para a realização da democracia social e cultural, sem avançar 
significativamente rumo à dem ocracia econôm ica;
(e) princípio da igualdade (art. 59, caput, e I);
(f) princípios da divisão de poderes (art. 2a) e da independência do ju iz 
(art. 95);
(g) princípio da legalidade (art. 5°, II);
(h) princípio da segurança jurídica (art. 5Q, XXXVI a LXXIII).
A tarefa fundamental do Estado D em ocrático de Direito consis­
te em superar as desigualdades sociais e regionais e instaurar um 
regime dem ocrático que realize a justiça social.
67. Mais uma vez recorreremos ao magistério de Gomes Canotilho, que desen­
volveu os princípios do Estado de Direito Democrático português com pormenores 
no livro Direito constitucional, pp. 373 e ss. Todos são aplicáveis ao Estado Democrá­
tico de Direito brasileiro. Haverá alguma diferença, que o leitor, em comparando, 
logo perceberá.
Capítulo III
DO PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO 
E GARANTIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
I. REGIME POLÍTICO: 1. Conceito de regime político. 2. Regime político bra­
sileiro. II. DEMOCRACIA: 3. Conceito de democracia. 4. Pressupostos da de­
mocracia. 5. Princípios e valores da democracia. 6. O poder democrático e as 
qualificações da democracia. 7. Conceito de povo e democracia. 8. Exercício do 
poder democrático. 9. Democracia representativa. 10. O mandato político re­
presentativo. 11. Democracia participativa. 12. Democracia pluralista. 13. De­
mocracia e direito constitucional brasileiro.
I. R EG IM E PO LÍTICO
1. Conceito de regim e político
O regime político não tem encontrado conceituação uniform e na 
doutrina.1 Constitui, segundo Duverger, um conjunto de instituições 
políticas que, em determinado m om ento, funcionam em dado país, 
em cuja base se acha o fenômeno essencial da autoridade, do poder, 
da distinção entre governantes e governados, aparecendo, assim, 
com o um conjunto de respostas a quatro problemas fundamentais 
relativos à: (a) autoridade dos governantes e sua obediência ; (b) escolha 
dos governantes ; (c) estrutura dos governantes; (d) lim itação dos gover­
nantes,2 o que envolve, com o se percebe, toda a problemática consti­
tucional. Regime político, nessa concepção, será pouco mais ou m e­
nos sinônimo de regime constitucional.
Já Jiménez de Parga concebe-o com o a solução que se dá, de fato, 
aos problemas políticos de um povo, acrescentando que: (a) como 
solução efetiva, o regime pode coincidir ou não com o sistema de so­
luções estabelecidas pela Constituição; (b) com o solução política, um 
regime poderá valorar-se sempre com norm as jurídicas e com crité­
1. Sobre a orientação metodológica que fundamenta as tendências das moder­
nas investigações a respeito do regime político, cf. Raul Machado Horta, "Regime 
político e a doutrina das formas de governo", R f 176/6.
2. Cf. Droit constitutionnel et institutions politiques, v. 1/15 e 16; Os regimes políti­
cos, pp. 9 e 11 e ss.
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rios m orais.3 Diversa é a concepção de Guelli, para quem "o regime 
político é a realização