José Afonso da Silva - Direito Constitucional Positivo - 25º (2)
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democracia, p.
15).
12. "Todas las teorias de la élite descansan en dos supuestos básicos: primero, 
que las masas son intrínsecamente incompetentes, y segundo, que son, en el peor, 
seres ingovernables, y desenfrenados con una proclividad insaciable a minar la cul­
tura y la libertad". Cf. Peter Bachrach, Critica de la teoria elitista de la democracia, p. 20.
DO PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO E GARANTIA DOS DIREITOS 127
te tendência (talvez predom inante) a incorporar à teoria dem ocráti­
ca os princípios fundamentais da teoria elitista", que ele denomina 
"elitism o dem ocrático",13 que é fora de dúvida um a expressão con­
traditória. E a doutrina do Prof. Manoel Gonçalves Ferreira Filho, 
para quem a "dem ocracia que é possível na realidade consiste no 
governo por um a minoria dem ocrática, ou seja, por um a elite forma­
da conforme a tendência dem ocrática, renovada de acordo com o 
princípio democrático, imbuída do espírito democrático, voltada para 
o interesse popular: o bem com um ".
Esta foi também a doutrina da segurança nacional que funda­
m entou o constitucionalismo do regime militar que a atual Consti­
tuição suplantou. Segundo ela, com pete às elites a tarefa de prom o­
ver o bem com um , "m ediante um processo de 'interação' com a m as­
sa. Auscultando o povo, as elites nacionais identificam seus anseios 
e aspirações. Possuindo um m aior conhecimento da realidade histó- 
rico-cultural e dos dados conjunturais, elas têm um a visão mais ela­
borada dos autênticos interesses nacionais. Cabe-lhes, assim, inter­
pretar os anseios e aspirações, difusos no meio ambiente, harm oni­
zando-os com os verdadeiros interesses da N ação e com o Bem Co­
m um , apresentando-os, de volta, ao povo que, desse m odo sensibili­
zado, poderá entender e adotar os novos padrões que lhe são pro­
postos".15
E equívoco pensar que esse cham ado "elitismo dem ocrático" se 
contenta com a tese do governo da minoria, que se limita a sustentar 
um "elitismo de dirigentes". Coerente com sua essência antidemo­
crática, o elitismo assenta-se em sua inerente desconfiança do povo, 
que reputa intrinsecamente incompetente. Por isso sua "dem ocra­
cia" sempre depende de pressupostos notoriamente elitistas, tais como 
os de que o povo precisa ser preparado para a dem ocracia, de que 
esta pressupõe certo nível de cultura, certo am adurecim ento social, 
certo desenvolvimento econôm ico, e reclama que o povo seja educa­
do para ela,16 e outros semelhantes que, no fim das contas, preparam 
os fundamentos doutrinários do voto de qualidade e restritivo.
13. "Prólogo": in ob. cit., p. 17; Cf. Germán J. Bidart Campos, Las elites políticas, 
p. 164, letra i, segundo o qual: "El elitismo no es incompatible con la democracia, en 
cuanto responde a la naturaleza de las cosas y articula la reciprocidad de mando y 
obediencia"
14. Cf. A democracia possível, p. 29.
15. Cf. José Alfredo Amaral Gurgel, Segurança e democracia, p. 95, baseado nos 
manuais da Escola Superior de Guerra.
16. Cf. Manoel Gonçalves Ferreira Filho, Curso de direito constitucional, pp. 51 e 
ss., em capítulo sobre os pressupostos e condições da democracia. Idem, A democra­
cia possível, caps. I e II da Segunda Parte, dedicados a elaborar esses pressupostos e 
condições.
128 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
A contradição é evidente, pois supõe que o povo deve obter tais 
requisitos para o exercício da democracia dentro de um regime não 
democrático; que as elites devem conduzi-lo a uma situação que justa­
mente se opõe aos interesses delas e as elimina. Teremos, enfim, a sin­
gularidade de aprender a fazer democracia em um laboratório não 
democrático.
Ora, em verdade, a tese inverte o problema, transformando, em 
pressupostos da dem ocracia, situações que se devem ter com o parte 
de seus objetivos: educação, nível de cultura, desenvolvimento, que 
envolva a m elhoria de vida, aperfeiçoamento pessoal, enfim, tudo se 
am algam a com os direitos sociais, cuja realização cum pre ser garan­
tida pelo regime democrático. Não são pressupostos desta, mas obje­
tivos. Só num a dem ocracia pode o povo exigi-los e alcançá-los.
A dem ocracia não precisa pressupostos especiais. Basta a exis­
tência de um a sociedade. Se seu governo em ana do povo, é demo­
crática; se não, não o é. A sociedade prim itiva fora dem ocrática.17 A 
sociedade política \u2014 estatal \u2014 passara a não ser. Por isso, nesta "a 
dem ocracia pressupõe luta incessante pela justiça social".18 Não pres­
supõe que todos sejam instruídos, cultos, educados, perfeitos, mas 
há de buscar distribuir a todos instrução, cultura, educação, aperfei­
çoam ento, nível de vida digno. Bem o disse Claude Julien: "A dem o­
cracia não pode resignar-se com os bidonvilles, os alojamentos insalu­
bres, os salários miseráveis, as condições de trabalho m iseráveis".19 
Fundam enta-se na garantia da igualdade, por isso não pode tolerar a 
extrema desigualdade entre trabalhadores e classe dominante. Por 
isso, também, é contraditória a tese de um a dem ocracia elitista, que 
assenta precisamente na existência da desigualdade.
A Constituição estrutura um regime dem ocrático consubstan­
ciando esses objetivos de igualização por via dos direitos sociais e da 
universalização de prestações sociais (seguridade, saúde, previdên­
cia e assistência sociais, educação e cultura).20 A dem ocratização des­
sas prestações, ou seja, a estrutura de m odos democráticos (universa­
lização e participação popular), constitui fundam ento do Estado 
Democrático de Direito, instituído no art. l s. Resta, evidentemente, 
esperar que essa normatividade constitucional se realize na prática.
Finalmente, os que reclamam que a dem ocracia nunca fora rea­
lizada em sua pureza em lugar algum concebem -na como um con­
17. Cf. Lewis H. Morgan, La sociedad primitiva, p. 145; Friedrich Engels, A ori­
gem da família, da propriedade privada e do Estado, p. 85.
18. Cf. Claude Julien, O suicídio das democracias, p. 23.
19. Ob. cit., p. 26.
20. Cf. arts. 6° e 7® e 194,196, 201, 203, 205, 215, 228 e 230, todos acompanhados 
de normas e mecanismos tendentes a fazer valer os direitos neles previstos.
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ceito estático, absoluto, com o algo que há que instaurar-se de uma 
vez e assim perdurar para sempre. Não percebem que ela é um pro­
cesso, e um processo dialético que vai rompendo os contrários, as 
antíteses, para, a cada etapa da evolução, incorporar conteúdo novo, 
enriquecido de novos valores. Com o tal, ela nunca se realiza inteira­
mente, pois, com o qualquer vetor que aponta a valores, a cada nova 
conquista feita, abrem-se outras perspectivas, descortinam -se novos 
horizontes ao aperfeiçoamento hum ano, a serem atingidos.
5. P r in c íp io s e v a lo r e s d a d e m o c r a c ia
A doutrina afirma que a democracia repousa sobre três princípios 
fundamentais: o princípio da m aioria, o princípio da igualdade e o princí­
pio da liberdade.21 Aristóteles já dizia que a dem ocracia é o governo 
onde dom ina o núm ero,22 isto é, a maioria, mas também disse que a 
alma da dem ocracia consiste na liberdade, sendo todos iguais.23 A 
igualdade, diz, é o primeiro atributo que os dem ocratas põem com o 
fundamento e fim da dem ocracia.24 E assim ele acaba concluindo que 
toda dem ocracia se funda no direito de igualdade, e tanto mais pro­
nunciada será a dem ocracia quanto mais se avança na igualdade.25
Aristóteles, como se nota, não chega a declarar que a igualdade 
e a liberdade sejam princípios da democracia. Coloca-as, acertada- 
mente, com o fundamentos (valores) dela; ressalve-se, contudo, que 
essa dem ocracia do Estagirita só se destinava aos hom ens livres, a 
um a minoria, porque o povo, então, era tão-só essa m inoria.26
21. Para uma discussão mais ampla sobre tema, cf. Pinto Ferreira, Princípios 
gerais