José Afonso da Silva - Direito Constitucional Positivo - 25º (2)
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José Afonso da Silva - Direito Constitucional Positivo - 25º (2)


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à ordem pública são vedadas); a liber­
dade de associação e o pluralism o dos partidos políticos, o pluralismo das 
candidaturas e o pluralismo dos grupos parlamentares com assento 
nos bancos das Assem bléias".50 Daí falar-se em pluralismo social, 
pluralismo político (art. I9), pluralismo partidário (art. 17), pluralismo 
econôm ico (livre iniciativa e livre concorrência, art. 170), pluralismo 
de idéias e de instituições de ensino (art. 206, III), pluralismo cultural 
que se infere dos arts. 215 e 216 e pluralismo de meios de informação 
(art. 220, caput, e § 59). Enfim, a Constituição consagra, com o um de 
seus princípios fundamentais, o princípio pluralista, o que vale dizer 
encaminha-se para a construção de um a dem ocracia pluralista.
É imprescindível, contudo, notar que um a sociedade pluralista 
conduz à poliarquia, conforme ressalta Burdeau com as seguintes pa­
lavras: "Politicam ente a realidade do pluralismo de fato conduz à
47. Nesse sentido, cf. Georges Burdeau, Traité de Science politique, t. VII/559.
48. Cf. Burdeau, ob. cit., t. III/169; José Joaquim Gomes Canotilho, Direito cons­
titucional, pp. 407 a 409; André Hauriou, Droit constitutionnel et institutions politiques, 
p. 226.
49. Sobre tudo isso, cf. Burdeau, ob. cit., t. VII/560 e 562, e 1 .1/185.
50. Ob. cit., pp. 225 e 226.
146 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
ma de dem ocracia participativa, no qual encontram os participação por 
via representativa (mediante representantes eleitos através de parti­
dos políticos, arts. l s, parágrafo único, 14 e 17; associações, art. 5e, 
XXI; sindicatos, art. 8S, III; eleição de em pregados junto aos em pre­
gadores, art. 11) e participação por via direta do cidadão (exercício direto 
do poder, art. I 9, parágrafo único; iniciativa popular, referendo e ple­
biscito, já indicados; participação de trabalhadores e em pregadores 
na adm inistração, art. 10, que, na verdade, vai caracterizar-se como 
um a forma de participação por representação, já que certam ente vai 
ser eleito algum trabalhador ou em pregador para representar as res­
pectivas categorias, e, se assim é, não se dá participação direta, mas 
por via representativa; participação na adm inistração da justiça pela 
ação popular; participação da fiscalização financeira municipal, art. 
31, § 39; participação da comunidade na seguridade social, art. 194, 
VII; participação na administração do ensino, art. 206, VI).59
A esse m odelo, a Constituição incorpora princípios da justiça 
social e do pluralismo. Assim o modelo é o de um a dem ocracia social, 
participativa e pluralista. N ão é, porém, um a dem ocracia socialista, 
pois o modelo econôm ico adotado é fundamentalmente capitalista. 
E preciso, porém , esclarecer que democracia pluralista não é incom­
patível com socialismo. Reconhece-se que "se possa efetivamente 
instaurar um sistema socialista em que sejam m antidas as caracterís­
ticas de um a democracia pluralista: vale dizer, um socialismo operante 
num a sociedade onde continuem a existir m ais formações sociais, 
habilitadas a exprim ir os seus interesses, ideais e materiais, e buscar 
inseri-los, através dos canais democráticos, n a vida política e na ação 
dos poderes públicos".60
59. Sobre o tema, cf. Manuel Ramírez, ob. cit., pp. 66 e ss.
60. Essa é a opinião corrente no campo da "esquerda mediterrânea", consoan­
te anota Cario Lavagna, Costituzione e socialismo, p. 83, que, no entanto, não parece 
compartilhar inteiramente com aquela opinião (cf. pp. 83 a 85). Burdeau diz que a 
democracia pluralista é um regime ao mesmo tempo liberal, na medida em que per­
manece ligado à autonomia da pessoa humana, consagrando todas as liberdades 
graças às quais o indivíduo se libertou progressivamente da tutela estatal, socializante, 
porque sua legislação estará preocupada em satisfazer imperativos econômicos e 
sociais do nosso tempo, atribuindo ao Estado tarefas que exigem um aumento da 
sua autoridade, um reforço de seu controle, o estabelecimento de diretivas e de limi­
tações que excluem o liberalismo econômico (cf. A democracia, pp. 72 e 73).
S e g u n d a Pa r t e
DOS DIREITOS 
E GARANTIAS FUNDAMENTAIS
Título I
A Declaração de Direitos
Capítulo I
FORMAÇÃO HISTÓRICA 
DAS DECLARAÇÕES DE DIREITOS
1. Generalidades. 2. Antecedentes das declarações de direitos. 3. Cartas e decla­
rações inglesas. 4. A Declaração de Virgínia. 5. A Declaração Norte-America­
na. 6. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. 7. A Declaração do 
Povo Trabalhador e Explorado. 8. Universalização das declarações de direitos. 
9. Declaração de direitos nas constituições contemporâneas. 10. Declaração de 
direitos nas constituições brasileiras.
1. Generalidades
Iniciamos aqui o estudo dos direitos fundam entais do hom em , ex­
pressão que, na atual Constituição, abrange direitos individuais, po­
líticos, sociais. Teremos que considerar, também, os direitos econô­
micos. Não nos preocupará, por enquanto, contudo, a questão do 
conceito e da terminologia respeitante aos direitos do hom em . A isso 
dedicaremos o Capítulo II deste Título, depois que exam inarm os as 
declarações de direitos, cuja evolução e conteúdo nos orientarão na 
formulação de sua teoria e certam ente ajudarão a com preender o 
conteúdo do nosso Direito positivo sobre a matéria.
2. A ntecedentes das declarações de direitos
O reconhecimento dos direitos fundamentais do homem, em enun­
ciados explícitos nas declarações de direitos, é coisa recente, e está lon­
ge de se esgotarem suas possibilidades, já que cada passo na etapa da 
evolução da Humanidade importa na conquista de novos direitos. Mais 
que conquista, o reconhecimento desses direitos caracteriza-se como 
reconquista de algo que, em termos primitivos, se perdeu, quando a 
sociedade se dividira entre proprietários e não proprietários.
150 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO
Efetivamente, na sociedade primitiva, gentílica, os bens perten­
ciam, em conjunto, a todos os gentílicos e, então, se verificava uma 
com unhão dem ocrática de interesses.1 Não existia poder algum do­
minante, porque o poder era interno à sociedade m esm a. N ão ocor­
ria subordinação nem opressão social ou política. O hom em buscava 
liberar-se da opressão do meio natural, mediante descobertas e in­
venções. Com o desenvolvimento do sistema de apropriação priva­
da, contudo, aparece um a forma social de subordinação e de opres­
são, pois o titular da propriedade, mormente da propriedade territo­
rial, impõe seu domínio e subordina tantos quanto se relacionem com 
a coisa apropriada. Surge, assim, um a forma de poder externo à so­
ciedade, que, por necessitar impor-se e fazer-se valer eficazmente, se 
tom a político. E aí teve origem a escravidão sistemática, diretamente 
relacionada com a aquisição de bens.2 O Estado, então, se forma como 
aparato necessário para sustentar esse sistema de dom inação. O ho­
m em , então, além dos empecilhos da natureza, viu-se diante de 
opressões sociais e políticas, e sua história não é senão a história 
das lutas para delas se libertar, e o vai conseguindo a duras penas. 
E chegará o dia \u2014 ainda segundo M organ \u2014 "em que o intelecto 
hum ano se eleva até dom inar a propriedade e defina as relações do 
Estado com a propriedade que salvaguarda e as obrigações e limi­
tações de direitos do seu dono. Os interesses da sociedade são m aio­
res que os dos indivíduos e devem ser colocados em um a relação 
justa e harm ônica. [...] A dem ocracia no governo, a fraternidade na 
sociedade, a igualdade de direitos e privilégios e a educação uni­
versal antecipam o próxim o plano mais elevado da sociedade, ao 
qual a experiência, o intelecto e o saber tendem firmemente. Será 
um a ressureição, em forma mais elevada, da liberdade, igualdade e 
fraternidade das antigas gentes".3
Certo é que, no correr