Paulo Bonavides - Curso de Direito Constitucional - 15º edição
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Paulo Bonavides - Curso de Direito Constitucional - 15º edição


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escritas, foram em parte o fruto das lutas 
políticas inglesas que redundaram no triunfo parlamentar e, por outra par­
te, o produto doutrinário do contrato social de Rousseau, que levou à cren­
ça de que era \u201cmais adequado concretizar em um pacto ou contrato as 
normas de convivência entre governantes e governados\u201d . Dessa forma nas­
ceu \u201ca idéia da Constituição escrita, do pacto ou estatuto fundamental pos­
to no papel e sancionado pela autoridade\u201d (Mario González).
A primeira Constituição escrita que apareceu no mundo, em bases 
modernas, ou seja, dotada de caráter \u201cnacional e limitativo\u201d foi, segun­
do Esmein, o \u201cInstrument of Government\u201d , promulgado por Crom well a
10. Carl J. Friedrich, in La N uera Constituciòn cie Puerto Rico, pp. 44/45.
11. M ario Bernnscliina González, Constituciòn Política y Leyes C om plem enta - 
rias, 2* ed.. p. 78,
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16 de dezembro de 1633, na Inglaterra. Continha esse instrumento de 
governo 42 artigos, servindo depois de padrão ao constitucionalismo 
americano de ascendência inglesa, conforme ponderou aquele publicis­
ta. Tomou-se então \u201co protótipo da Constituição dos Estados Unidos\u201d .12
A Constituição escrita logrou tamanho prestígio que a palavra Cons­
tituição, conforme observa Barthélemy, se empregava no século passa­
do com mais freqüência, senão unicam ente para designar aquela espécie 
de Constituição.
Ficara assim a Constituição costum eira relegada a plano tão secun­
dário que Tocqueville, na sua obra clássica sobre a democracia am erica­
na, asseverava não possuírem os ingleses uma C onstituição.13 O que 
Tocqueville queria dizer, segundo refere Barthélemy, era simplesmente 
que a Inglaterra, ao contrário da França e dos Estados Unidos, \u201cnão pos­
suía um documento solenemente promulgado, encerrando o corpo das 
regras constitucionais\u201d .14
Demais, cumpre lembrai- que o termo Constituição, consagrado pela 
linguagem política e jurídica para nom ear de início apenas as Constitui­
ções escritas, fora desconhecido \u201cantes do século XVII, pois as leis qua­
lificadas com o constitucionais se denominavam então leis fundam entais 
ou leis políticas\u201d.h
A prim azia das Constituições escritas sobre as Constituições costu­
meiras ou consúetudinárias tem sido fortemente sustentada por vários 
constitucionalistas. -
Decorre, entre outras, das seguintes razões, historicamente compro­
vadas ou reconhecidas, conforme assinalam textualmente Esmein e G ar­
cia Pelayo: a) a crença na superioridade da lei escrita sobre o costume; 
b) a imagem de que a Constituição simbolicamente renova com toda a 
solenidade o contrato social; e, finalmente, c) o sentimento concebido, 
desde o século XVIII, de que não há melhor instrumento de educação 
política do que o texto de uma Constituição.16
Enfim, segundo Burdeau, a Constituição escrita reúne clareza, cer­
teza, precisão de conteúdo. Acrescenta o mesmo autor: \u201cNo documento
12. A. de Tocqueville, De Ia Démocratie eu Aiiiéric/ue, 1.1, cap. VI, p. 160.
13. Joseph Barthélem y c Paul Duez, Tnülé Éléinentaire de Droil Consiiiatiou- 
nel, p. 188.
14. Rafael Riveau, Tratado Elemerital de Derecho Constitucional Chileno y 
C om parado , p. 21 .
15. Esm ein, Elèments du Droit Constilutionnel, t. 1, pp. 564/565.
16. Alejandro Silva Bascunan, Tratado de Derecho Constitucional, ob. cif.. p. 62.
A CONSTITUIÇÃO $7
se consignam com precisão o estatuto dos governantes e o âmbito dos 
direitos dos governados, com tal força obrigatória, que a atividade do 
governante e a dos indivíduos e grupos integrantes do Estado têm que 
cingir-se à pauta nele fixada\u201d.17
De acordo com excelente observação de Garcia Pelayo, a Consti­
tuição escrita é a única que corresponde a um conceito racional de Cons­
tituição. Seus traços de primazia sobre a forma costumeira se resumem 
no seguinte: \u201cSendo direito escrito, oferece a maior soma de garantias 
de racionalidade frente a irracionalidade do costume, permite a adoção 
de um a ordem objetiva e permanente em face da mobilidade e transi- 
toriedade de situações objetivas e proporciona, justam ente por ser d i­
reito escrito, segurança aos governados contra a arbitrariedade dos go­
vernantes\u201d .
Não faltam, contudo, pensadores que ainda aludem à preeminência 
das Constituições costumeiras sobre as Constituições escritas.
Alinham entre outros os seguintes argumentos: \u201cA fiel e permanente 
concordância entre a norma fundamental e a realidade chamada a reger\u201d 
e principalm ente \u201ca flexibilidade e versatilidade\u201d de conteúdo das Cons­
tituições costum eiras, \u201c sempre dispostas a adaptar-se às necessidades 
mutáveis dos fatos sociais\u201d (Bascunan).
6. A s Constituições codificadas e as Constituições legais
As Constituições escritas se apresentam tecnicamente debaixo de 
duas form as: Constituições codificadas, de adoção mais freqüente, e 
Constituições legais, de ocorrência mais rara.
Constituições codificadas são aquelas que se acham contidas intei­
ramente num só texto, com os seus princípios e disposições sistematica­
mente ordenados e articulados em títulos, capítulos e seções, formando 
em geral um único corpo de lei.
A Constituição codificada compreende, em boa técnica, as seguin­
tes partes: o Preâmbulo, a parte introdutória, a parte orgânica, a parte 
dogmática e uma parte de disposições gerais ou finais, acrescida não raro 
de algumas disposições transitórias (Xifra Heras). ..........
No Preâmbulo, via de regra, faz o legislador constituinte sumária 
profissão de fé nos altos princípios da liberdade, da justiça e do regime 
democrático, invocando às vezes a proteção de Deus. O consórcio do
17. Jorge Xifra Heras, Curso de Derecho Constitucional, 1.1, ob. cit., p. 79.
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sentimento político com o sentimento religioso verifica-se, por exem ­
plo, no Preâmbulo da Constituição brasileira.
A parte introdutória insere normalmente disposições preliminares, 
nas quais se definem o regime político, a forma de governo, a organiza­
ção fundamental do Estado, a separação de poderes etc.
Com a parte dogmática patenteia-se o caráter individualista ou so­
cial da Constituição através da declaração de direitos e garantias dos c i­
dadãos. As Declarações tiveram importância capital em todas as fases já 
conhecidas do constitucionalismo moderno.
Caracterizando a natureza do regime, como verdadeiros marcos his­
tóricos e doutrinários, as Declarações da Virgínia de 1776, a Francesa 
de 1789 e a Soviética de 1917 conferiram feição nova e típica à ordem 
jurídica estabelecida. O debate sobre o caráter ou valor jurídico dessas 
Declarações, usuais em todas as Constituições escritas, produziu duas 
posições principais: a dos que, com Esmein e Carré de Malberg, enten­
dem ser nulo o aspecto jurídico, ressaltando que, privados de eficácia 
normativa, possuem esses textos contudo importância política e doutri­
nária e a dos que, acolhendo a opinião de Duguit, Hauriou e Schmitt, 
acham que as Declarações estão na hierarquia jurídica acima da Consti­
tuição, sendo portanto equivalentes a um a superconstituição.
Quanto à parte orgânica, esta nomeia os órgãos básicos da Consti­
tuição, traça com relativa minúcia a respectiva competência, bem como 
estabelece os princípios gerais de funcionamento ou determina o teor de 
certas relações mútuas entre os poderes.
A última parte da Constituição escrita abrange enfim um feixe de 
disposições gerais ou simplesmente contém o capítulo das chamadas 
\u201cdisposições transitórias\u201d.
As Constituições legais, conforme alguns constitucionalistas, que 
empregam um tanto impropriamente essa denominação para distingui- 
las das Constituições codificadas, são aquelas Constituições escritas que 
se apresentam esparsas ou fragmentadas em vários textos. Haja vista, a 
título ilustrativo, a Constituição francesa de 1875. Compreendia
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Olá, pode me enviar por e-mail?
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Guilherme
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