antropologia1
50 pág.

antropologia1


DisciplinaAntropologia I8.494 materiais61.491 seguidores
Pré-visualização19 páginas
justamente o conhecimento de dife-
rentes padrões culturais da humanidade que 
permitiu a revisão do que realmente podemos 
dizer o que \u201cé natural\u201d e o que, na verdade, são 
características específicas de culturas deter-
minadas. Desde a definição do que se pode 
ou não comer, de como expressar a dor, até a 
definição de quem considerar parente, do que 
considerar sagrado ou do que podemos clas-
sificar como atitudes masculinas e femininas, 
tudo passa a ser revisto a partir do olhar da 
Antropologia e sua busca pela compreensão 
da natureza humana e a diversidade de suas 
culturas.
Ao tomar contato com diferentes alter-
nativas de interpretar as realidades existentes 
nas diferentes culturas é que percebemos que 
grande parte dos hábitos e regras que julgá-
vamos naturais foram, na verdade, definidos 
pela nossa cultura em particular e, portanto, 
não se aplicam ao resto da humanidade.
Lévi-Strauss, em sua obra As Estruturas 
Elementares do Parentesco, no capítulo Nature-
za e Cultura, busca resolver a questão do pro-
blema da passagem entre as duas ordens, da 
natureza e da cultura. Assim, argumenta que 
a ausência de regras é que dá o critério que 
permite distinguir um processo natural de um 
processo cultural: \u201c[...] tudo quanto é universal 
no homem depende da ordem da natureza 
e se caracteriza pela espontaneidade, e que 
tudo quanto está ligado a uma norma perten-
ce à cultura e apresenta os atributos do relati-
vo e do particular (LÉVI- STRAUSS, 1976, p.47)\u201d.
Lévi-Strauss (1976) encerra seu argumento 
afirmando que a regra da proibição do incesto 
possui ao mesmo tempo a universalidade das 
tendências e dos instintos e o caráter coerciti-
vo das leis e das instituições, sendo, portanto, 
o passo fundamental pelo qual se realiza nas 
sociedades a passagem da natureza à cultura. 
A proibição do incesto consistiria no início de 
uma nova ordem, uma vez que é aí que a natu-
reza ultrapassa a si mesma.
Os debates sobre a relação entre natureza 
e cultura e a distinção entre características ina-
tas e adquiridas, por meio do conhecimento 
antropológico, contribuiu e contribui para aca-
bar com preconceitos e com o desrespeito a 
diferentes formas de agir e pensar nas diversas 
culturas. Contribuiu, principalmente, para re-
pensar as posturas que geralmente tomamos 
em contato com hábitos e costumes muito di-
ferente dos nossos.
3.3 A diversidade das culturas e 
os conceitos de etnocentrismo e 
relativismo cultural
Desde o início da formação da Antropolo-
gia como ciência e até mesmo antes dela, nas 
etnografias produzidas por viajantes e missio-
nários, sempre intrigou a todos os pesquisado-
res e estudiosos a questão da diversidade das 
culturas humanas.
A tentativa de explicar por que e como 
são tão diferentes as culturas produziu, ao lon-
go dos séculos, um enorme corpus etnográfi-
co que permitiu o desenvolvimento das teo-
rias da Antropologia.
Por muito tempo, tentaram-se explicar as 
diferenças culturais das sociedades pelas dife-
renças biológicas de suas populações ou, ain-
da, por supostos diferentes estágios de evolu-
ção cultural dessas sociedades.
Atualmente, sabemos que não se podem 
explicar, através de características raciais, as 
enormes diferenças que identificamos entre 
as culturas, uma vez que os patrimônios cultu-
rais evoluem muito mais rapidamente que os 
patrimônios genéticos humanos; muito menos 
que estas se devem a diferentes estágios de 
evolução.
O fato é que culturas coexistem e, entre 
elas, podem prevalecer diferentes tipos de re-
lações.
Segundo Lévi-Strauss (1976), quando as 
culturas se consideram diversas, ou seja, quan-
do elas aceitam e reconhecem que são dife-
rentes, podem ter duas atitu des:
\u2022	 ignorar as culturas diferentes. A indife-
rença pelas culturas alheias seria uma ga-
rantia de poderem existir tranquilamente 
lado a lado;
\u2022	 considerar culturas diferentes como par-
ceiras para um diálogo. A oportunidade 
de convivência com o exótico, estrangei-
ro, pode alargar os laços sociais.
GLOSSÁRiO
incesto: União sexual 
ilícita entre parentes 
consanguíneos, afins ou 
adotivos
29
Ciências Sociais - Antropologia I
Nos dois casos, quando sociedades se re-
conhecem como diferentes, muitas vezes se 
ameaçam e se atacam mutuamente, mas sem 
ameaçar as existências uma da outra.
Quando, porém, se substitui a noção de 
diversidade pelo sentimento de superioridade 
em uma das culturas; quando se deixa de reco-
nhecer a diferença para afirmar a desigualda-
de, abre-se espaço para justificar a dominação 
e ameaças à existência das diferentes culturas.
As culturas não diferem entre si do mesmo 
modo nem no mesmo plano. Existem diversas 
culturas distribuídas no espaço geográfico da 
terra, umas próximas, outras afastadas, mas to-
das contemporâneas, todas vivem o hoje.
Todas estas culturas que existem hoje fo-
ram, cada uma, precedidas por outras formas 
culturais diferentes.
Mesmo aquelas culturas que hoje igno-
ram os avanços das sociedades modernas 
também percorreram, como as outras, seu ca-
minho de mudanças. Portanto, não há como 
afirmar que algumas culturas evoluíram en-
quanto outras ficaram paradas no tempo. 
Todas, simultaneamente, transformam-se, 
porém, de diferentes formas e em diferentes 
direções.
Os homens têm uma infinita capacidade 
de produzir culturas diferentes. E essa dife-
renciação das culturas pode se dar tanto pelo 
seu afastamento geográfico de outras culturas 
como pela proximidade. Na verdade, a diversi-
dade das culturas humanas acontece mais pe-
las relações estabelecidas entre os grupos do 
que pelo seu isolamento. É resultante das re-
lações diretas ou indiretas entre as sociedades 
(LÉVI-STRAUSS, 1993).
Como afirma Lévi-Strauss (1993), as dife-
renças culturais podem surgir pelo simples de-
sejo de oposição, de se distinguir dos demais, 
ou pela vontade de não se sentir atrasados em 
relação aos grupos vizinhos.
3.4 Etnocentrismo
Apesar de ser um fenômeno natural, a di-
versidade das culturas humanas sempre cau-
sou reações escandalosas entre os homens.
O contato com as diferenças geralmen-
te trouxe sentimentos de espanto e rejeição. 
Uma das atitudes mais comuns ao ser humano 
é a de repudiar as formas culturais, morais, es-
téticas diferentes daquelas com que se identi-
fica, muitas vezes chegando a recusar-se a ad-
mitir a diversidade cultural.
Qualificamos como etnocêntrica a postu-
ra, pessoa ou grupo que toma a própria cultu-
ra como referência para a avaliação de todas 
as outras, ou, segundo Herskovits (1963), o et-
nocentrismo seria \u201c[...] o ponto de vista segun-
do o qual o próprio modo de vida de alguém é 
preferível a todos os outros\u201d. Ou, ainda, como 
argumentou Everardo Rocha:
Etnocentrismo é uma visão de mundo onde o nosso próprio grupo é tomado 
como centro de tudo, e todos os outros são pensados e sentidos através dos 
nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é existência. No pla-
no intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença, no 
plano efetivo, como sentimento de estranheza, medo, hostilidade, etc. Pergun-
tar sobre o quê é etnocentrismo é, pois, indagar sobre um fenômeno onde se 
misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocio-
nais e afetivos. No etnocentrismo residem dois planos do espírito humano: sen-
timento e pensamento vão compondo um fenômeno não apenas fortemente 
arraigado na história das sociedades como também facilmente encontráveis 
no dia-a-dia das nossas vidas (ROCHA , 1988, p. 7),
Assim, etnocentrismo é uma tendência a 
considerar as normas e valores da própria so-
ciedade ou cultura como critério de avaliação 
de todas as demais.
O etnocentrismo é um sentimento natu-
ral a todos os seres humanos, uma vez que é 
resultado do processo de criação de uma pes-
soa no interior
Priscila
Priscila fez um comentário
Muito obrigada
0 aprovações
Carregar mais