cosmovisao-das-religioes
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grupo, por vol-
ta do ano 40, pelos habitantes de uma das grandes cidades do mundo antigo, Antioquia, onde 
os discípulos de Jesus haviam chegado e onde sua pregação continuara com bastante sucesso. 
No entanto, mesmo que a partir de então fossem chamados por um nome diferente, a distinção 
entre cristãos e judeus não se tornou clara por ainda algumas décadas. Já no primeiro século, 
grupos cristãos haviam chegado à capital do Império. De fato, desde 64 (quando do incêndio de 
Roma sob o governo de Nero) até 313 (quando o Imperador Constantino I assinou o Edito de 
Milão que legalizava o cristianismo), não apenas os cristãos estiveram presentes em Roma como 
também foram perseguidos. Essas perseguições foram causadas não porque os cristãos adora-
vam um deus que não se encontrava no panteão romano, mas sim porque se recusavam a adorar 
este panteão do qual o Imperador romano fazia parte. Essa recusa, aos olhos dos tradicionais, co-
locava em risco a chamada paxdeorum, a \u201cpaz 
dos deuses\u201d, a benevolência dos deuses para 
com Roma que dependia da devoção da popu-
lação, expressa através de rituais cívicos.
Além disso, convém dizer que as perse-
guições não foram homogêneas e nem sempre 
tiveram as mesmas causas, consequências ou 
formas. Contudo, algo com que a maior parte 
dos autores que se dedica ao tema parece con-
cordar, é o fato de que elas parecem ter tido, 
paradoxalmente, um papel importante no cres-
cimento dessa religião. Além disso, atribui-se 
o sucesso do cristianismo também ao seu ca-
ráter iniciático, que parece ter servido bem ao 
gosto dos romanos, especialmente durante o 
século III d.C. Por último, seu viés introspectivo 
também parece ter agradado aos homens e às 
mulheres da época, que viam na nova fé uma 
alternativa à formalidade pública que cercava a 
religião do Império.
De qualquer forma, em 380, quando Teo-
dósio I decretou o cristianismo como religião 
oficial do Império Romano, ele estava bastante 
disseminado em seu interior e adquirira con-
tornos institucionais. Da mesma forma, já existiam dentro dele discussões importantes de ordem 
filosófica e teológica que viriam a contribuir para a construção da sociedade ocidental como hoje 
a conhecemos.
Figura 19: Cabeça de 
estátua colossal do 
Imperador Constantino 
I, bronze, escola 
romana, século IV 
d.C. Roma, Museu 
Capitolino
Fonte: Disponível em 
<https://www.flickr.
com/photos/69716881@
N02/7418668464/l>. Aces-
so em 15 de mai. 2014.
\u25ba
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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Judaísmo e Cristianismo
Quadro 2 - Pequena cronologia
30 Morte de Jesus
40 O termo \u201ccristão\u201d é empregado na Antioquia
64 1ª perseguição em Roma, lançada por Nero
70 Destruição do templo de Jerusalém
81-96 Perseguição lançada por Dominiciano
113 Trajano define a conduta oficial do Império
177 Mártires de Lyon, sob o reinado de Marco Aurélio
250 Perseguição lançada por Décio
257-258 Perseguição lançada por Valentiniano
260-303 \u201cPequena paz da Igreja\u201d
303-311 Perseguições lançadas por Diocleciano
312 Constantino se converte ao cristianismo
313 Edito de Milão
379 Graciano abandona o título de Grande Pontífice
380 Teodósio I decreta o cristianismo religião oficial
382 Teodósio I proíbe todos os sacrifícios pagãos
Fonte: Elaboração própria
4.3 Estrutura sociocultural e 
religiosa do cristianismo
Discutir a estrutura sociocultural e religiosa do cristianismo é tarefa colossal que pode ser 
dividida tanto em esferas temporais quanto geográficas. Para este Caderno, escolhemos focar 
apenas duas transições, aquela da seita judaica para as comunidades primitivas e a dessas co-
munidades para uma instituição hierarquizada; ou seja, focamo-nos, de forma geral, no período 
chamado de cristianismo primitivo; embora o superemos em alguns casos.
diCA
Para saber mais, leia: 
CROSSAN, John 
Dominic. Nascimento 
do cristianismo. Que 
aconteceu nos anos que 
se seguiram à execução 
de Jesus. São Paulo: 
Paulinas, 
GIORDANI, Mário Curtis. 
O cristianismo: propa-
gação. In. GIORDANI, 
Mário Curtis. História de 
Roma. Petrópolis, Rio de 
Janeiro: Vozes, 1970, p. 
322-349.
SIGNORINI, Ivanir. 
Profecia e martírio na 
Igreja: Testemunhos 
dos Padres da Igreja 
aos nossos tempos. 
Vida Pastoral. Nov-
Dez 2009 (pp. 20-27). 
Disponível em <http://
vidapastoral.com.br/
artigos/patristica/
profecia-e-martirio-na-i-
greja-testemunhos-dos
-padres-da-igreja-aos-
nossos-tempos/> 
Acesso em 15 de mai. 
2014.
\u25c4 Figura 20: A expansão 
do cristianismo
Fonte: SAVARD, Aimé 
Pedro. O primeiro líder 
missionário. In: Dossiê 
Arautos da Nova Fé. Re-
vista História Viva. Editora 
Dueto. 17(2005). p. 30-31
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UAB/Unimontes - 3º Período
Isso significa dizer que não se pretende aqui discutir, por exemplo, como a Igreja se organi-
zava em termos socioculturais e religiosos durante a Idade Média ou como ela encarou o desafio 
dos Novos Mundos, englobados a partir das Grandes Descobertas da Era Moderna. Esse recorte, 
aparentemente modesto, se faz não apenas por razões práticas, mas também porque considera-
mos que foi dentro desses limites que se estruturam as crenças que se tornaram base para a con-
siderável expansão e hegemonia da instituição eclesiástica nos séculos vindouros.
Além disso, outro aspecto que precisa ser levado em conta quando se discute a estrutura 
sociocultural e religiosa do cristianismo é sua marca predominantemente oral nos primeiros sé-
culos. \u201cEsta era considerada ainda a maneira principal de transmitir as crenças religiosas para as 
gerações posteriores\u201d (O\u2019GRADY, 1994, p.23). A transmissão oral tem suas particularidades e é 
preciso sempre ressaltar que, se por um lado preserva, por outro transforma, às vezes irrevoga-
velmente.
De qualquer forma, existem algumas instâncias que podem ser conhecidas. Por exemplo, sa-
bemos que depois da morte de Jesus, como dito anteriormente, seus seguidores continuaram a 
pregar sua mensagem. Esses homens viajaram pelo território do Império Romano, fundando co-
munidades de convertidos à nova fé. No livro do novo Testamento, Atos dos Apóstolos, vemos 
essas comunidades e como se organizavam ao redor dessas figuras. 
O termo igreja (do ateniense ecclesia; \u2018assembleia [dos cidadãos]\u2019) passa a ser empregado 
nessas circunstâncias para designar essas reuniões. E, embora muitos estudiosos do tema hoje 
apontem para a possível idealização que os Atos parecem conter acerca dessas comunidades e 
suas vivências, eles ainda concordam que, ao menos em essência, sua descrição combina com o 
que dizem outras fontes, tanto documentais quanto materiais.
A organização dessas comunidades ficava a cargo de uma comissão de liderança, composta 
por sete membros que, mais tarde, viriam a ser os presbíteros. A autoridade suprema era o após-
tolo que, com o passar dos anos, foi substituído por sucessores, chamados de bispos.
Os bispos eram escolhidos pelas comunidades e eram responsáveis por ministrar os sacra-
mentos do batismo (ritual que marcava a conversão ao cristianismo e a renúncia à vida pagã) e 
da eucaristia (que reencenava a última ceia de Jesus com seus apóstolos). Eles também podiam 
delegar esse poder aos padres, sacerdotes que estavam hierarquicamente abaixo dos bispos. 
Não se sabe dizer ao certo nem como os bispos, nem como os padres eram ordenados.
Deve-se ressaltar também que, se originalmente, segundo Lucas (Atos 2.44-46), as primeiras 
comunidades cristãs se baseavam na posse comum de bens materiais, essa prática não perdu-
rou indefinidamente. Ao chegar a Roma, o cristianismo encontrou uma sociedade marcada por 
profundas desigualdades sociais, pelo militarismo e pelo escravismo e penetrou, não de forma 
homogênea, em todos esses grupos, com suas diferentes concepções e possibilidades de acesso 
às posses.
Com o passar do tempo, as comunidades cristãs espalhadas pelo Império