cosmovisao-das-religioes
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outra que Jesus fora apenas homem, não divino.
Esse é o caso do arianismo, doutrina associada a Ário (c.250-336 d.C.), bispo e teólogo que 
viveu e ensinou em Alexandria (Egito). Para os que criam nessa doutrina, Jesus seria filho de Deus 
e como tal mereceria toda a honra. Contudo, como não era o próprio, não merecia a divindade. O 
arianismo foi duramente criticado e o Concílio de Niceia declarou Ário, seu proponente, herege; 
contou, mesmo assim, com muitos seguidores.
Na outra ponta do debate, surgiram outras doutrinas. Uma delas foi o monofisismo. Estabe-
lecida por Eutiques de Constantinopla (380-456), defendia que Jesus tivesse apenas a natureza 
divina. Seu proponente, assim como acontecera com Ário, foi considerado herege e excomunga-
do da comunidade cristã ortodoxa. E os monofisistas não estavam sozinhos em entender Jesus 
como ser de natureza exclusivamente divina.
GloSSário
neoplatonismo: 
corrente fundada por 
Plotino (c. 205 \u2013 270), 
filósofo alexandrino 
radicado em Roma. 
Baseou-se no dualismo 
platônico (existência de 
duas naturezas, uma da 
matéria e outra do espí-
rito) para desenvolver a 
chamada Teoria do Uno. 
Plotino via o mundo 
como algo distendido 
entre dois pólos. De 
um lado, a luz divina, o 
Uno \u2013 a que ele às vezes 
também chamava de 
Deus. De outro, as tre-
vas absolutas, que não 
eram banhadas pela luz 
do Uno. Para Plotino, 
essas trevas não tinham 
existência em si; elas 
nada mais eram do que 
a ausência da luz.
diCA
Leia: BENTO XVI. os 
padres da igreja. De 
Clemente de Roma a 
Santo Agostinho. São 
Paulo: Pensamento-Cul-
trix, 2010.
Dossiê Arautos da Fé. 
revista História viva. 
São Paulo: Editora Duet-
to. 17. ed, 2005. p. 38-49
SANTOS, Pedro Paulo 
Alves dos. o \u2018Contexto 
religioso\u2019 do cristianis-
mo antigo e gnosti-
cismo: Identidade e 
âmbito da mentalidade 
helênica na literatura 
judaico-cristã tardio-an-
tiga. Um estudo sobre 
a obra de Hans-Josef 
Klaus (2000). revista 
Jesus Histórico. JHRH 
1:1 (2010). O artigo 
encontra-se disponível 
em versão eletrônica 
(pdf ) em <http://www.
andrechevitarese.com/
revistajesushistorico/
arquivos4/4Pedro%20
Paulo.pdf>
\u25c4 Figura 24: O batismo 
de São Paulo. Mosaico; 
século XVII
Fonte: CUVILLIER, Elian. 
Paulo. A humanização de 
Deus. In: Dossiê Arautos 
da Fé. Revista História 
Viva. Editora Duetto. 
17(2005). p. 39.
52
UAB/Unimontes - 3º Período
Também aqueles que seguiam o docetismo (doutrina originária do século II) assim criam. 
Contudo, iam além do que defendia o monofisismo, posto que entendiam que, justamente por-
que Jesus era natureza apenas divina, seu corpo tivesse sido uma ilusão, desfeita quando de sua 
ressurreição.
Entre uma ponta e outra, houve quem propusesse que o problema estivesse na ideia de 
uma única pessoa com duas naturezas. No século IV, por exemplo, o Arcebispo de Constantino-
pla Nestório (c. 386 \u2013 c.451) defendeu que o Cristo fosse, na verdade, assim compreendido: o Je-
sus humano e o Filho de Deus, divino (ou Logos). Essa concepção ficou conhecida como nesto-
rianismo, que também foi considerada herética.
No fim, predominou a visão defendida por filósofos e teólogos como inacio de Antio-
quia(c.37- 98 ou 107 d.C.) de que Jesus tinha ambas as naturezas: a humana e a divina.Mas o ca-
minho até essa conclusão não foi simples, rápido ou único. Tampouco invalidou o terceiro gran-
de debate: aquele sobre o livro arbítrio \u2013 que desembocou no pelagianismo.
Pelágio (350-453), o proponente dessa compreensão, foi um monge britânico que viveu no 
continente desde 405, quando chegou a Roma. Lá, ficou escandalizado com a decadência moral 
que identificou entre os cristãos. Entendeu que esse comportamento derivava da compreensão 
equivocada de que sem a dádiva Divina entregue especificamente por Deus a cada um, não po-
deriam ser continentes. Defendeu que continência e Salvação estavam ao alcance de quem as 
quisesse. Foi, por isso, acusado de extrapolar o livre arbítrio à negação da necessidade de Deus 
para a Salvação. \u201cSua importância reside na profundidade de suas indagações e na influência 
dessas indagações sobre os pensadores cristãos e os reformadores dos séculos subseqüentes\u201d 
(O\u2019GRADY, 1994, P. 128).
Por fim, lembremos que este é apenas um panorama introdutório. De fato, esse debate é 
mais complexo e tem muitos desdobramentos. Acreditamos que apenas a abordagem de gran-
des figuras (filósofos, teólogos e intelectuais), não dá conta de toda a riqueza das formas efetivas 
que o cristianismo apresentou ao longo de sua longa história, em diferentes contextos e cená-
rios. Portanto, recomendamos insistentemente que, uma vez terminado o Caderno, o graduando 
se dedique a leituras complementares que contribuam para sua construção individual de conhe-
cimento sobre o tema.
Referências
CUVILLIER, Elian. Paulo. A humanização de Deus. In: Dossiê Arautos da Fé. revista História viva. 
Editora Duetto. 17(2005). p. 39.
HEIM, François. Constantino: imperador sob o signo da cruz. revista História viva. Editora Due-
to. 32 (2006). p. 25
LOYN, Henry. dicionário da idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
O\u2019GRADY, Joan. Heresia. O jogo de poder das seitas cristãs nos primeiros séculos depois de Cris-
to. São Paulo: Mercuryo, 1994.
GloSSário
Heresia: Segundo o Ox-
ford EnglishDictionary, 
cf. O\u2019Grady (1994:13), 
é a \u201cdoutrina contrária 
ao que foi definido pela 
Igreja em matéria de fé; 
ato ou palavra ofensiva 
à religião\u201d.
Logos: O conceito foi 
dado por Justino (100-
165) como um princípio 
organizador do mundo. 
Tornou-se importante 
nos círculos do debate 
filosófico-teológico 
da época, tendo sido 
instrumentalizado inclu-
sive dentro de doutrinas 
como o nestorianismo \u2013 
mais tarde considerada 
herética. Sua concilia-
ção à revelação cristã, 
contudo, foi realizada 
por orígenes.
diCA
O Primeiro Concílio de 
niceia foi convocado 
pelo então imperador 
Constantino I. Ele se 
configurou como uma 
tentativa de unificação 
oficial da doutrina, atra-
vés de representações 
de toda a cristandade. 
Entre outras questões, 
decidiu sobre a relação 
de natureza entre Jesus 
e o Deus Pai, elaborou a 
primeira parte do Credo 
Niceno, fixou a data da 
Páscoa e promulgou a 
lei canônica.
53
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Judaísmo e Cristianismo
UnidAdE 5
A mística cristã 
Admilson Eustáquio Prates
Claudio Santana Pimentel
Jeferson Betarello
Tatiana Machado Boulhosa
5.1 Introdução
A presente unidade trabalhará a perspectiva mística para o cristão. E, para tanto, inicial-
mente conceituará mística, mostrará o que venha a ser o amor cristão, dialogando com Escritura 
Sagrada para o universo cristão. E depois apresentará como exemplo uma mística, Teresa D\u2019Ávi-
la. Sabemos que trabalhar um personagem de qualquer movimento religioso não sintetiza a 
complexidade do fenômeno, mas contribui para ilustrar de forma reducionista uma época e um 
tempo. 
5.2 Sobre mística
Escrever sobre mística, e, sobretudo, uma mística cristã, requer um cuidado metodológico e 
epistemológico, pois são categorias complexas, em sua estrutura. Inicialmente, vamos tratar de 
conceituar mística, e depois relacionar com o universo religioso cristão.
Quando pensamos em mística, associamos imediatamente ao mistério, ao sobrenatural, ao 
divino. Estendemos, também, a ideia de mística àquelas pessoas que desligaram ou estão desli-
gadas, despojadas do mundo material. 
A aproximação, portanto, está correta como podemos encontrar no dicionário de Filosofia, 
que afirma que a mística estar ligada ao movimento de atingir o sagrado. O dicionário de língua 
portuguesa apresenta o significado de mística como estudo associado às coisas sobrenaturais e à 
vida contemplativa.
Essas impressões sobre mística têm um fundo de verdade, conforme Henrique Cláudio