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quase sagrado; em segundo lugar, 
questiona as regras da prática absolutista e da própria sociedade de corte francesa, isto é, da pró-
pria nobreza.Para Rousseau (1995), o homem nasceu livre, mas de todas as formas se encontrava 
agrilhoado a ferros. O que legitimava as correntes que prendiam o ser humano? Para responder 
a esta questão Rousseau retoma a vida pregressa da humanidade e ao que teria levado a edifica-
ção do Estado, ou seja, o Contrato Social.
\u25b2
Figura 34: Estátua de 
Marx, Moscou, Rússia
Fonte: Lonely Planet 
Collection Disponível em 
http://www.art.co.uk Aces-
so em 25 de maio de 2013
dICA
Fique por dentro das 
obras de Jean Jacques 
Rousseau, Discurso 
sobre a origem da 
desigualdade e Do 
Contrato Social. Para 
acessar vá até o site 
www.ateus.net.
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UAB/Unimontes - 1º Período
No Contrato Social Rousseau (1995) ar-
gumenta que a mais antiga e natural de to-
das as sociedades políticas era a família. Uni-
da inicialmente pela dependência dos filhos 
em relação aos pais, só mantém-se unida por 
um ato voluntário, pois, atingindo a idade da 
razão, os indivíduos tornam-se senhores de si 
mesmos, permanecer unidos é uma conven-
ção e constituiu o primeiro modelo de socie-
dade política. E é este estado de liberdade 
que é próprio à natureza do homem. Rousse-
au afirma que o mais forte não é nunca forte o 
suficiente para manter-se sempre no poder, se 
não transformar sua força em direito e a obe-
diência em dever. Daí que a força não faz o 
direito e só se é obrigado a obedecer aos po-
deres legítimos. Restam então as convenções 
como base de toda autoridade legítima entre os homens. Mas esta convenção, que constitui a 
base do Estado legítimo, só pode resultar de um ato voluntário de submissão dos indivíduos, 
que cedem sua liberdade natural em nome da sociedade civil, em prol do bem-estar comum.
Ele dialoga com Grotius, para quem o déspota assegura tranquilidade aos súditos e, portanto, 
encontra na guerra a origem do pretenso direito de escravidão. Segundo Grotius e outros, na 
guerra, tendo o vencedor o direito de matar o vencido, pode resgatar sua vida à custa de sua 
liberdade, convenção que beneficiaria os dois.
Contudo, segundo Rousseau (1995), a guerra não deriva de uma relação de homem a ho-
mem, mas de Estado a Estado e não pode existir, portanto, no estado de natureza, onde não 
há propriedade constante, nem no estado social, sob a autoridade da lei. Como o objetivo da 
guerra consiste em destruir o Estado inimigo, e não homens individuais, o direito de matar 
subsiste somente enquanto dura o estado de guerra. Depostas as armas, os soldados voltam 
a ser simplesmente homens, não dispondo de direito, pois, sobre as vidas dos prisioneiros. 
Como a guerra não gera o direito de escravidão, esta não pode ser de nenhuma forma uma 
convenção benéfica para as duas partes e não poderia resultar então de um ato voluntário de 
submissão em prol do bem mútuo. Logo, a escravidão não pode ser legítima e não faz nenhum 
sentido. A respeito do alegado direito de conquista, Rousseau lembra que, como a guerra não 
dá o direito aos vencedores de massacrar os povos vencidos, também não pode estabelecer o 
de escravizá-los.
Conclui, então, que um escravo obtido na guerra ou um povo conquistado só é constran-
gido a obedecer ao senhor enquanto a isso for forçado. Daí resulta que nem a submissão 
de um indivíduo a um senhor é legítima nem a de um povo a um déspota. Renunciar à própria 
liberdade era o mesmo que renunciar à qualidade de homem, sendo vã, portanto, a convenção 
de estipular uma autoridade absoluta, de um lado, e uma obediência sem limites, de outro:
Assim, por qualquer lado que se encarem as coisas, é nulo o direito de es-
cravizar, não só pelo fato de ser ilegítimo, como porque é absurdo e nada 
significa. As palavras escravatura e direito são contraditórias, excluem-se mu-
tuamente, seja de homem a homem, seja de homem para um povo, este dis-
curso será igualmente insensato [...] (ROUSSEAU, 1995, p.28).
Rousseau acusa os defensores do absolutismo, como Grotius, de não serem avançados. 
Argumenta que sempre há uma grande diferença entre submeter uma multidão e reger uma 
sociedade. Uma multidão de homens esparsos sucessivamente subjugados a um único, inde-
pendente do número que constituam, não é nunca um povo; é no máximo um ajuntamento, 
mas não uma associação. Não há nisso nem bem público nem corpo político. E este homem, 
mesmo que tenha escravizado a metade do mundo, será sempre um particular e seu interesse, 
privado, separado do interesse dos outros.
Na visão de Grotius, um povo pode entregar-se a um rei. Um povo era, pois, um povo an-
tes de entregar-se a um rei. Segundo Rousseau, entretanto, esta doação é um ato civil; supõe 
uma deliberação pública. Antes, portanto, de examinar o ato pelo qual o povo elege um rei, é 
preciso examinar o ato pelo qual o povo é povo, pois este ato, sendo anterior ao outro, consti-
tui o verdadeiro fundamento da sociedade. Eis como Rousseau elabora sua visão de sociedade 
\u25b2
Figura 35: A servidão 
na França é abolida, 
1783. Artista/fotógrafo: 
Charles de Wailly
Fonte: Bridgeman Art li-
brary Disponível em www.
gettyimages.pt acesso em 
25 de maio de 2013
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Ciências Sociais - Política I
política.Ele imagina os homens chegados a um momento em que os 
obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado natural os arras-
tam além das forças empregadas por cada indivíduo a fim de manter-
-se em tal estado. Então, o estado primitivo não pode mais subsistir e 
o gênero humano pereceria se não transformasse seu modo de vida. 
Não resta outra opção agora senão formar, por agregação, uma força 
capaz de sobrepor- se às resistências, fazendo-os agir de comum acor-
do (ROUSSEAU, 1995).
Sendo a força e a liberdade de cada homem os primeiros instru-
mentos de sua conservação, como os alienará ele sem se prejudicar? 
Esta dificuldade é enunciada por Rousseau nos seguintes termos:
Encontrar uma forma de associação que defenda e 
proteja de toda a força comum a pessoa e os bens 
de cada associado e pela qual, cada um, unindo-se 
a todos, não obedeça, portanto, senão a si mesmo 
e permaneça tão livre como anteriormente. Tal é o 
problema fundamental cuja solução é dada pelo 
contrato social (ROUSSEAU, 1995. p. 30).
As cláusulas deste contrato são de tal for ma determinadas pela 
natureza do ato que, violado o pacto social, reentra cada um em seus 
direitos e retoma-se a liberdade natural, perdendo-se a liberdade con-
vencional instituída.Rousseau resume as cláusulas do contrato em uma 
única: \u201ca alienação total de cada associado, com todos os seus direitos, em favor de toda a comu-
nidade; porque primeiramente, cada qual se entregando por completo, sendo a condição igual 
para todos, a ninguém interesse torná-la onerosa para os outros\u201d(ROUSSEAU, 1995. p. 30).
Feita a alienação sem reservas, a associação é tão perfeita quanto possível e nenhum as-
sociado tem mais nada a reclamar, pois se os interesses particulares prevalecessem, a associa-
ção se tornaria tirânica ou inútil. Assim, com o contrato social, afirma Rousseau, ganha-se o 
equivalente a tudo que se perde e mais força para conservar o que se tem. O pacto social é re-
duzido então à ideia de que cada um de nós põe em comum sua vontade e sua autoridade sob 
o comando supremo da vontade geral, recebendo cada membro como uma parte indivisível 
do todo.Como esclarece Rousseau (1995), a vontade geral é a soma das 
diferenças, cujo fim é o bem comum. A soberania está no exercício da 
vontade geral, sendo inalienável e indivisível. A declaração da vontade 
geral torna-se lei.
O ato de associação produz um corpo moral e coletivo e seus as-
sociados adquirem o nome de povo e chamam-se particularmente 
cidadãos, quando participantes da autoridade soberana, e vassalos, 
quando submetidos às leis do Estado. Não