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com prudência e perspicácia que tem a capa-
cidade de equilibrar os efeitos da fortuna. Não 
nega a interferência da fortuna, mas requer 
que a \u201csorte seja o árbitro da metade das nos-
sas ações, mas que ainda nos deixe governar a 
outra metade, ou quase\u201d (MAQUIAVEL, 1985, 
p.139). Adverte aos príncipes que o apoio total 
na sorte é motivo de ruína, de perda do poder. 
Em toda sua obra, Maquiavel credita à virtù a 
maior forma de consentimento dos súditos e 
dos cidadãos. A virtù é uma qualidade precio-
sa a quem governa e quer se manter no poder.
Acomodando as suas proposições à na-
tureza do seu tempo, passa a discutir o que é 
necessário para conter os ímpetos da fortuna. 
Para tanto, volta-se aos pensadores da an-
tiguidade, onde encontra uma visão dife-
rente da que predominava no seu tempo. Na 
idade média, a fortuna havia se transformado 
num poder cego que distribui de forma indis-
criminada os seus bens. Mas, entre os antigos, 
segundo Sadek (1999, p.21), a fortuna era \u201cuma 
deusa boa, uma aliada em potencial, cuja sim-
patia era possível atrair. Esta deusa possuía 
os bens que todos os homens desejavam: a 
honra, a riqueza, a glória e o poder\u201d. Para ser 
favorecido por essa deusa, era necessário se-
duzi-la. A fortuna era uma deusa mulher e só 
um homem viril e corajoso poderia realizar tal 
façanha. Essa era a figura a que Maquiavel re-
corria para definir o perfil de um príncipe de 
virtú. Coerente com o seu próprio pensamen-
to, Maquiavel conclama à não passividade. O 
príncipe de virtú tem que transpor os obstá-
culos para então dominar a fortuna. Isso exige 
capacidade de transformar a cautela em impe-
tuosidade, exige audácia.
As figuras 6 e 7 ilustram as duas perspec-
tivas: a fortuna como roda da sorte (o acaso) e 
a fortuna uma deusa passível de ser seduzida, 
conquistada.
No capítulo XXV d\u2019O Príncipe, Maquiavel 
apresenta o porquê da necessidade da mudan-
ça de natureza para modificar e atrair a fortuna:
[...] Se alguém se orienta com prudência e paciência e os tempos e as situa-
ções se apresentam de modo a que a sua orientação seja boa, ele alcança a 
felicidade; mas, se os tempos e as circunstâncias se modificam, ele se arruína, 
visto não ter mudado o seu modo de proceder. Nem é possível encontrar ho-
mem tão prudente que saiba acomodar-se a isso, seja porque não pode se 
desviar daquilo a que a natureza o inclina, seja ainda porque, tendo alguém 
prosperado seguindo sempre por um caminho, não se consegue persuadi-
-lo de abandoná-lo. Por isso, o homem cauteloso, quando é tempo de passar 
para o ímpeto, não sabe fazê-lo e, em conseqüência, cai em ruína, dado que 
se mudasse de natureza de acordo com os tempos e com as coisas, a sua for-
tuna se modificaria (MAQUIAVEL, p.209-210, 1985).
\u25c4 Figura 6: A roda da 
fortuna no tempo de 
Maquiavel
Fonte: Paris: Bibliothèque 
Nationale de France (Dept. 
Estampes Ad 144 a). 
In: A roda da fortuna, prin-
cípio e fim dos homens. 
COSTA, Ricardo; ZIERER, 
Adriana. Disponível em 
www.hottopos.com/con-
venit Acesso em 25 maio 
de 2013.
\u25c4 Figura 7: A deusa 
fortuna 
Fonte: crônica - Por que 
a moeda sob o mastro? 
Tradição milenar. In: 
Ribeiro, Danilo Chagas. 
Disponível em http://
www.popa.com.br/docs/
cronicas/moedasobmas
tro/fortuna.prime4_small.
jpg acesso em 07 de julho 
de 2013.
16
UAB/Unimontes - 1º Período
Maquiavel utiliza recorrentemente os ter-
mos virtú e fortuna em toda a sua obra. Entre 
outros, identifica como atos de virtú os mo-
mentos de fundação, ato que oferece obstácu-
los significativos, especialmente as que se dão 
adversidade, e a criação das repúblicas. Mas o 
que é fundação? O que vocês pensam quan-
do leem essa palavra? Vamos ver de que se 
trata? Em Maquiavel, fundação é o momento 
de criação, leis, de instituição de novas formas 
políticas. Esse termo continua sendo muito uti-
lizado, o momento fundacional é um elemento 
importante na análise política.
Criar boas leis é o desafio e expressão da 
virtù do fundador ou reformador que perse-
gue interesses públicos e, não, particulares. Ao 
reformador cabe conservar as reformas à som-
bra dos antigos costumes, se pretende obter o 
consentimento do povo. E bons costumes só 
podem ser conservados por boas leis, e a ob-
servação das leis exige bons costumes.
A estabilidade de uma república é oriun-
da da interação da virtù do soberano com a 
virtude do povo, e o risco que ameaça uma 
república é a corrupção, que significa a perda 
da liberdade. Por povo virtuoso, entende-se a 
capacidade de expressão dos seus interesses 
e ambições direcionados para o bem comum. 
Na república, configura-se uma divisão de po-
der onde o povo adquire autoridade. As leis 
expressam o conflito próprio das cidades, en-
tre os poderosos e o povo e, portanto, deve 
refrear a ambição dos nobres. A ênfase na au-
toridade do povo, na liberdade, nos costumes 
baseados em práticas virtuosas e na canaliza-
ção dos conflitos através das leis é o funda-
mento da chave para a leitura da existência do 
republicanismo em Maquiavel.
Para a manutenção da liberdade na repú-
blica, Maquiavel observa ser absolutamente 
necessário o funcionamento de um sistema 
de recompensas que premie as boas ações e 
puna as más, e se institua o direito de acusa-
ção pública. Características fundamentais para 
manutenção da república.
A manifestação da virtù do soberano é es-
sencial na condução de qualquer governo. Na 
república prende-se, principalmente, à obser-
vância das leis e à garantia de segurança dos 
cidadãos, o que contribui para a conservação 
da liberdade. Nesse aspecto, Maquiavel consi-
dera que as repúblicas têm uma vantagem em 
relação a outras formas de governo, uma vez 
que, sendo o governante escolhido por sufrá-
gio universal, cria a possibilidade da sucessão 
de homens virtuosos à frente do governo.
Uma desvantagem é apontada em relação 
ao processo de deliberação que se torna mais 
lento devido às decisões serem tomadas de for-
ma compartilhada e passarem por regulação. A 
autoridade conferida pelo sufrágio é limitada 
pela lei e nenhum homem ou segmento do go-
verno assume plenamente a autoridade.
Como vimos, leis são fundamentais na 
república. A eficácia das leis: boas leis são fun-
damentais para a canalização dos conflitos. 
Diferentemente das ideias correntes na épo-
ca, Maquiavel aposta mais nas leis do que na 
formação do bom cidadão. Boa educação ou 
bons cidadãos são produzidos por boas leis. 
Nas leis está a expressão do bem-comum. Dois 
aspectos são fundamentais na discussão sobre 
as leis: a capacidade que as leis têm de expri-
mir os conflitos internos; serem a expressão da 
dissimetria da polis, e o fato de que, quando as 
leis não conseguem refrear a ambição dos in-
divíduos, a república se arruína.
A liberdade é resultado do conflito. Fica 
uma pergunta importante a ser respondida: 
quem é o melhor guardião da liberdade? A 
resposta mais uma vez retoma a prudência: 
quem agir com maior prudência. Consideran-
do os desejos opostos existentes na cidade, 
que aparecem polarizados entre povo e os 
grandes, Maquiavel identifica no povo inte-
resse de não ser oprimido, e aponta que, em 
função disso, o povo pode ser o melhor guar-
dião da liberdade. Contudo, o tempo leva ao 
desgaste e ao risco de corrupção, é inexorável 
o desgaste. A corrupção do povo está exata-
mente na ausência do desejo de liberdade. 
Reafirmando a sua convicção da história, res-
salta que esse fenômeno não é fruto de uma 
lei da história. Trata-se da ação política, que é 
recriadora. Mas há sempre que se pressupor a 
disposição perversa dos indivíduos.
1.4 Natureza humana e poder: o 
lugar do conflito 
Em vários momentos da sua obra, princi-
palmente quando discute a conquista, a ma-
nutenção do poder e a organização da ordem 
social, Maquiavel faz menção às características 
da