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DisciplinaCiência Política I29.040 materiais555.668 seguidores
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como sugeriu Vianna 
(1993), aqui também não adentra nessa ques-
tão. Esse esforço é desenvolvido posterior-
mente por Max Weber que toma o processo 
de racionalização das sociedades ocidentais 
como objeto de estudo. Na sequência da as-
sertiva anterior, Tocqueville (1987, p.386) res-
ponde a esse questionamento: \u201co egoísmo 
nasce de um instinto cego e o individualismo 
decorre mais de um juízo de valor errôneo 
do que de um sentimento depravado\u201d. No-
vamente se remete aos momentos pós- re-
voluções democráticas para identificar aí o 
momento primordial onde o isolamento e 
o egoísmo se fazem sentir com maior vigor, 
sendo mais facilmente perceptível. A sua aná-
lise recai sobre a hierarquia social centrando-
-se nas relações das classes sociais ao longo 
da história. Essas relações são marcadas por 
ódios implacáveis, mas ao longo do proces-
so histórico geraram transformações sociais 
favoráveis à igualização, sem, contudo, apa-
gar o ódio anteriormente estabelecido. Aqui 
Tocqueville (1987) se aproxima tangencial-
mente de uma questão que Karl Marx vai 
tratar como sendo o antagonismo e a luta de 
classes como motor da história. De um lado 
os cidadãos que estavam na hierarquia su-
perior perdem os seus iguais, e passam a se 
sentirem estranhos na \u201cnova sociedade\u201d. Não 
criam pelos cidadãos, agora os seus iguais, 
o sentimento de simpatia, pelo contrário, 
vêem neles os opressores que lhes tiraram o 
status. Os cidadãos localizados nas camadas 
inferiores com a revolução ascendem ao ní-
vel comum, mas isso também é um fator de 
isolamento. O resultado desses sentimentos é 
o individualismo e o esvaziamento da esfera 
pública, gerando na modernidade uma po-
laridade entre o público e o privado. A prin-
cipal consequência dessa prática é o despo-
tismo democrático que se configura como o 
maior risco das revoluções democráticas.
2.4 Estado e despotismo 
democrático
O despotismo moderno é a maior apre-
ensão que encontramos no pensamento de 
Tocqueville (1987) em relação ao futuro das 
sociedades democráticas. Podemos dizer que 
nesse autor o despotismo democrático é a sín-
tese de todos os males oriundos da igualdade. 
Três aspectos são tratados por esse autor para 
fundamentar essa afirmação: o grau exacerba-
do de centralização do governo, a apatia dos 
cidadãos democráticos em relação às coisas 
públicas e a tirania da maioria nas decisões pú-
blicas. Esse último aspecto citado.
No pensamento de Tocqueville, vamos 
encontrar a afirmação de que:
[...] é sempre necessário situar em alguma parte um poder social superior a to-
dos os demais; mas também creio que a liberdade está em perigo quando esse 
poder não tem à sua frente nenhum obstáculo que possa deter a sua marcha e 
dar-lhe o tempo de se moderar\u201d (TOCQUEVILLE, 1987, p.194).
O que Tocqueville (1987) aponta aqui é o 
perigo de que o supremo poder da maioria ve-
nha a se transformar em tirania, suprimindo os 
direitos individuais ou das minorias, dominan-
do as ideias e as opiniões, se aproximando da 
\u201cvontade geral\u201d rousseniana que tanto abomi-
nava. Essa preocupação continua presente na 
ciência política e na sociedade, podemos vê-la 
nas manifestações atuais pró-defesa dos direi-
tos das minorias.
Em relação ao risco de centralização, po-
demos nos remeter a primeira unidade deste 
caderno sobre O Federalista para compreen-
dermos porque a centralização não se cons-
titui como problema nos Estados Unidos. Em 
relação à apatia dos indivíduos, mesmo sob o 
signo do individualismo, nos Estados Unidos 
o autor observou a existência de associações 
e costumes livres que estimulam a participa-
ção política. 
Segundo Tocqueville (1987), o despotis-
mo democrático é um fenômeno que apre-
senta características muito diferentes do des-
potismo praticado na antiguidade. Afirma que 
com toda a extensão dos poderes dos mo-
narcas, dos imperadores romanos onde en-
contramos frequentes registros de abuso do 
poder, desrespeitos aos bens e até à vida de 
alguns homens, o emprego de toda força do 
Estado, a ação do governo não atinge a todos 
que ali vivem. O trecho que se segue ilustra 
essa afirmação:
GLOSSÁRIO
despotismo: Significa, 
em sentido específico, 
a forma de governo 
em que quem detém 
o poder mantém, em 
relação aos seus súdi-
tos, o mesmo tipo de 
relação que o senhor 
(em grego \u2018despótes) 
tem para com os escra-
vos que lhe pertencem 
(BOBBIO et all, 1998).
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UAB/Unimontes - 2º Período
se viu, nos séculos passados, soberano tão absoluto e tão poderoso que tenha 
tentado administrar sozinho e sem recorrer a poderes secundários, todas as par-
tes de um grande império; nem sequer um tentou submeter indistintamente to-
dos os seus súditos aos detalhes de uma norma uniforme, nem desceu até junto 
de cada um deles, para regê-lo e conduzi-lo. A idéia de semelhante empreendi-
mento jamais se apresentara ao espírito humano, e se a algum homem terá ocor-
rido concebê-la, a insuficiência de luzes, a imperfeição de processos administrati-
vos e sobretudo os obstáculos naturais que a desigualdade suscita o teriam logo 
detido na execução de desígnio tão vasto (TOCQUEVILLE, 1987, p. 530). 
Entendemos que na citação a possibili-
dade de tão ampla centralização do gover-
no se dá devido ao processo de desenvolvi-
mento dos instrumentos de comunicação, 
do desenvolvimento da burocracia que apri-
morou a capacidade de gestão do Estado. O 
argumento do autor é que os governantes 
na antiguidade, para cobrir o seu território, 
necessitavam de descentralização do poder, 
ainda que parcial. Mas há ainda uma questão 
importante, na citação, a ser observada, é a 
menção, mais uma vez, implicitamente, da 
desigualdade como fator que cria obstácu-
los à ação dos déspotas, consequentemente 
reafirmando a igualdade como um aspecto 
que facilita a prática despótica. Consideran-
do que a inspiração e o recorte empírico de 
Tocqueville são os Estados Unidos da Améri-
ca podemos retomar a análise dos federalis-
tas sobre o papel das facções na represen-
tação dos distintos interesses que existem 
no seio da sociedade, o que em boa medida 
é uma tradução da desigualdade em Toc-
queville. Na disputa pela viabilização do seu 
bem, uma facção termina por vigiar a outra e 
estabelece-se o controle mútuo e desemboca 
na distribuição do poder. O Acessado à pro-
priedade segue essa mesma lógica, ou seja, é 
um resultado da busca dos indivíduos a partir 
dos seus atributos. Então, quais as caracterís-
ticas atribuídas por Tocqueville ao despotis-
mo, quando instalado nas sociedades moder-
nas? Encontramos a resposta na passagem 
que se segue:
Parece que, se o despotismo viesse a se estabelecer nas nações democráticas 
de hoje, teria outras características: seria mais amplo e mais brando, e degra-
daria os homens sem atormentá-los. Não duvido que, nos séculos de luzes e de 
igualdade, como nos nossos, os soberanos mais facilmente consigam concen-
trar todos os poderes públicos nas suas mãos apenas, e penetrar mais habitual 
e mais profundamente no círculo dos interesses privados, como jamais o pôde 
fazer qualquer daqueles da antiguidade (TOCQUEVILLE, 1987, p. 530).
Para elucidar esse despotismo brando, 
chega a afirmar que, diferentemente da forma 
como se deu na antiguidade, esse fenômeno 
nas democracias não se baseia na coerção físi-
ca, atinge a alma. Segundo Tocqueville (1987), 
a possibilidade da violência física em gover-
nos democráticos tende a se restringir aos 
momentos de efervescência, de crises graves, 
situações normalmente raras e passageiras, 
qualificando assim a afirmação de que esta 
forma de despotismo não se baseia na violên-
cia física. O fato de o despotismo ser brando 
faz com que seja de difícil percepção.
Insistindo no argumento de que a igual-
dade pode gerar o despotismo, Tocqueville 
volta a enfatizar o individualismo e a invisibi-