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DisciplinaCiência Política I28.882 materiais554.622 seguidores
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lidade social do outro, para posteriormente lo-
calizar o Estado nesse processo.
[...] vejo uma multidão inumerável de homens semelhantes e iguais, que sem 
descanso se voltam sobre si mesmos à procura de pequenos e vulgares praze-
res, com os quais enchem a alma. Cada um deles, afastado dos demais, é como 
que estranho ao destino de todos os outros: seu s filhos e seus amigos particu-
lares para ele constituem toda a espécie humana; quanto ao restante dos seus 
concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; existe 
apenas em si e para si mesmo, e, se ainda lhe resta uma família, pode-se ao me-
nos dizer que não tem pátria (TOCQUEVILLE, 1987, p. 531).
Introduzindo o Estado nessa discussão, explicita qual a grande questão decorrente da forma 
como a igualdade é levada a cabo e desemboca, enquanto possibilidade, mas com evidências 
observáveis nas sociedades democráticas, de que a igualdade faz nascer o despotismo. Tocque-
ville apresenta como característica da relação entre Estado e cidadão na sociedade democrática 
despótica:
Acima destes, eleva-se um poder imenso e tutelar, que se encarrega sozinho de 
garantir o seu prazer e velar sobre a sua sorte. É absoluto, minucioso, regular, 
previdente e brando. Lembraria mesmo o pátrio poder, se, como este, tivesse 
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Ciências Sociais - Política II
por objeto preparar os homens para a idade viril; mas, ao contrário, só procura 
fixá-los irrevogavelmente na infância; agrada-lhe que os cidadãos se rejubilem, 
desde que não pensem senão em rejubilar-se (TOCQUEVILLE, 1987,p.531). 
Na citação vimos a condição do indivíduo 
submetido ao supremo poder do Estado, situa-
ção que nega, inclusive, o desenvolvimento do 
ser humano. Reforçando a afirmação relativa ao 
papel que o Estado assume sobre o império da 
igualdade sempre que se propõe a buscar a ge-
neralidade na análise da democracia, além da 
denuncia da fratura entre público e privado, da 
centralização do governo, imprime como carac-
terísticas do Estado: \u201ca unidade, a ubiquidade, a 
onipotência do poder social, a caracterizar to-
dos os sistemas políticos nascidos hoje em dia\u201d 
(TOCQUEVILLE, 1987, p. 514). Mas não é apenas 
a igualdade que leva à dominação do Estado 
sobre os indivíduos, outro fator importante que 
interfere nesse processo é a educação.
Se em outros tempos, a educação ajuda os homens a defender a sua depen-
dência, isso é verdadeiro sobretudo nos séculos democráticos. [...] é preciso 
que os homens tenham muita inteligência, muita ciência e arte, para organizar 
e manter nas mesmas circunstâncias poderes secundários (TOCQUEVILLE, 1987, 
p.519). 
Se as diferenças para explicar a suprema-
cia americana pautam-se na cultura política e 
na relação que, a partir daí, se estabelece entre 
o Estado e os cidadãos, nosso autor não po-
deria deixar a educação de fora. A ignorância 
favorece a centralização do poder e a servidão 
também nas sociedades democráticas.
Em síntese, o problema pode ser assim 
enunciado: no individualismo, isolados uns 
dos outros, sustentando-se no princípio da 
igualdade, distante da vida pública, o cidadão 
democrático se distancia do ideal da liberdade 
e se rende à servidão. Mas, ao mesmo tempo, 
como afirma Chevallier (1998, p.271), ao inter-
pretar Tocqueville, \u201co contraveneno da igual-
dade, de onde nasce o individualismo, é a li-
berdade\u201d. Isso significa que perseguir os meios 
para garantir liberdade é o desafio da socieda-
de democrática. Esses meios foram apontados 
por Tocqueville quando busca a explicação do 
por que a sociedade americana apresenta sig-
nificativas diferenças, se comparada às socie-
dades europeias, tornando-a mais favorável à 
manutenção da liberdade. 
Para manter as referências feitas à de-
mocracia na América, Tocqueville se remete à 
história do povo americano, ao seu momento 
fundacional e mobiliza uma categoria cara à 
ciência política da atualidade, a cultura polí-
tica. Na revisão do processo de desenvolvi-
mento dos norte-americanos, apresenta os 
remédios para a cura dos males advindos da 
igualdade. Trata-se do reforço às instituições 
tradicionais, formas de agregação que, se-
gundo o autor, reconstituem os laços funda-
mentais para manter o interesse pela esfera 
pública. Esse aspecto faz a conexão do pen-
samento de Tocqueville com a atualidade da 
teoria política. Referimo-nos à escola do novo 
institucionalismo sociológico, que toma por 
base os costumes e ainda de uma vertente do 
novo institucionalismo histórico, que privile-
gia na análise sociopolítica a dependência de 
trajetória.
2.5 O singular e o universal na 
democracia na América 
Trataremos do denominado americanis-
mo em Tocqueville, a partir de Vianna (1993), 
o que significa dizer que, na análise das singu-
laridades da democracia dos Estados Unidos, 
o autor aponta o que pode ser universalizado 
dessa experiência. As singularidades estão na 
herança cultural que advém do processo de 
formação do povo americano, e do momento 
fundacional, ou seja, das condições em que 
nascem as instituições políticas dessa socieda-
de. O que pode ser universalizado são as insti-
tuições políticas americanas. Essas instituições 
devem ser difundidas no ocidente para o apri-
moramento das democracias ocidentais. 
Numa comparação entre os povos do 
continente europeu e dos Estados Unidos, 
pautada nos princípios da igualdade e liber-
dade, Tocqueville (1987, p.385) afirma que, na 
América, a liberdade entranhou os costumes 
do povo, chega a declarar:
dICA
O Despotismo cons-
titui uma das formas 
mais autoritárias de se 
governar um Estado ou 
uma nação. É uma 
categoria de governo 
que se assemelha à 
ditadura ou à tirania, 
mas o governante não 
precisa se esforçar para 
sobrepor-se ao povo, 
pois o povo é vetado 
para se expressar, não 
sabe o que fazer e, prin-
cipalmente, é tratado 
como escravo. Assim, 
há o governo sem leis e 
regras de um único in-
divíduo no despotismo, 
no qual tudo depende 
de suas vontades. 
GASPARETTO JÚNIOR, 
Antônio. Despotismo. 
Disponível em http://
www.infoescola.com 
acesso em novembro 
de 2013.
PARA SABeR MAIS
Assista ao filme \u201cAS 
BRUXAS DE SALEM\u201d. 
Trata-se de uma história 
que se passa em Massa-
chusetts no século XVII 
que nos permite obser-
var aspectos impor-
tantes da formação do 
povo americano. Fique 
atento aos aspectos 
culturais e políticos.
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UAB/Unimontes - 2º Período
Estou convencido de que o despotismo encontrará, caso vier a se estabelecer 
na América, mais dificuldades ainda para vencer os hábitos que a liberdade 
fez nascer do que em vencer o próprio amor pela liberdade (TOCQUEVILLE, 
1987, p. 188).
O ponto central dessa assertiva é enfa-
tizar que até o despotismo, síntese dos males 
da igualdade, como afirmamos anteriormen-
te, pode na América ser vencido pela força 
dos costumes livres de um povo acostumado 
a viver cotidianamente com liberdade. Relem-
brando que o autor já adiantou que a igual-
dade integra a vida cotidiana dos americanos, 
agora a afirmação acima mostra que também 
a liberdade está presente através dos costu-
mes. A igualdade e a liberdade se resguardam 
através dos costumes e das leis.
Ao contrário dessa condição da liber-
dade na América, o status da liberdade na 
Europa é frágil e pode inclusive ser fugaz. A 
igualdade antecede a liberdade. Essa última 
só nasce quando as condições começam a se 
igualar, a igualdade era um fato antigo, quan-
do a liberdade era ainda uma coisa nova. A 
igualdade já havia criado opiniões, usos, leis, 
que lhe eram próprias, enquanto a liberdade 
apenas se produzia. A intenção de Tocque-
ville (1987) é realçar como a liberdade é algo 
novo, não se configurando como um princí-
pio das relações sociais. Chega a afirmar que 
a liberdade ainda é um pensamento e não 
algo vivido.
O caminho privilegiado por Tocqueville