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DisciplinaCiência Política I25.541 materiais536.703 seguidores
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o que na realidade faremos. Ao trono desses dois 
senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é certo 
do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos (BENTHAM; 
MILL, 1979, p. 26).
Com base nesse postulado, o pensa-
dor utilitarista elabora argumentos acerca do 
comportamento utilitário do indivíduo. Ser 
utilitarista é buscar adotar comportamentos 
úteis, isto é, estratégias de ação que aumen-
tam a felicidade tanto quanto for possível. 
Em outras palavras: o princípio de utilidade 
é aquele que leva os seres humanos a apro-
varem ou desaprovarem qualquer ação de 
acordo com a possibilidade maior ou menor 
de realização de seus interesses individuais. O 
princípio da maior felicidade, por sua vez, ex-
pressa a ideia de prazer e dor como elementos 
motivadores da ação. A felicidade máxima é 
a finalidade de qualquer ser humano em qual-
quer situação ou estado de vida; para alcançá-
-la, os indivíduos precisam adotar estratégias 
úteis, eficientes, de comportamento (MILL, 
1976).
Mas surge a questão: como saber se os 
indivíduos são felizes? Como avaliar a quanti-
dade de prazer que eles estão sentindo, para 
saber se são pouco ou muito felizes? Bem, os 
primeiros utilitaristas, Jeremy Bentham e Ja-
mes Mill, resolvem esse dilema afirmando que 
a posse de bens materiais é um indicador ob-
jetivo da felicidade de uma pessoa, assim, eles 
relacionaram a parcela de felicidade de um in-
divíduo às riquezas que ele possui. 
dICA
Vocês já viveram situa-
ções em que pensaram 
estar \u201cvendo coisas\u201d? 
Então vocês enten-
dem como os sentidos 
podem ser enganosos. 
Mas os utilitaristas ar-
gumentavam que nada 
entra na nossa mente 
sem antes passar pelos 
sentidos. Para eles, sem 
os sentidos não poderí-
amos conhecer as coi-
sas do mundo. Por isso 
eles valorizam tanto a 
dor e o prazer, que são 
sensações universais: 
todos conhecem.
Figura 18: a balança 
representa bem o 
comportamento 
utilitarista. Antes 
de agir, o indivíduo 
racional pesa os prós e 
contras da ação.
Fonte: Disponível em 
<http://ferrao.org/uplo-
aded_images/balance.
jpg>. Acessado em 13 de 
setembro de 2013.
\u25ba
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Ciências Sociais - Política II
O dinheiro é o instrumento utilizado para medir a quantidade de desgosto ou 
prazer. Quem não estiver satisfeito com a precisão deste instrumento, deve 
achar outro que seja mais rigoroso, ou então dizer adeus à política e à moral 
(BENTHAM apud Macpherson. 1978, p. 31).
Se cada indivíduo deseja alcançar o má-
ximo de felicidade possível, ele luta para con-
seguir maximizar sua própria riqueza tanto 
quanto possível. Para maximizar sua própria 
riqueza e felicidade, os indivíduos objetificam 
o mundo, isto é, todas as suas relações com os 
outros indivíduos e com as coisas do mundo 
se baseiam na concepção de que as coisas e 
pessoas são, ou podem ser, instrumentos que 
possibilitam a consecução de riquezas. Ora, 
nessa perspectiva, os seres humanos (os ou-
tros indivíduos) são considerados como sendo 
os mais eficientes instrumentos para a produ-
ção de riquezas. Portanto, cada um se esforça 
por utilizar os esforços alheios para aumentar 
seus próprios recursos particulares e seus 
prazeres \u2013 sem se preocuparem com o \u201cdes-
gosto e a perda de prazer\u201d que essa estratégia 
pode ocasionar aos outros indivíduos.
Neste ponto, devemos tocar num con-
ceito central da teoria política que também 
foi discutido pelos utilitaristas: o conceito de 
poder. Para os utilitaristas, o poder é a capa-
cidade de uma pessoa para influenciar o com-
portamento de outras \u2013 conceito por sinal 
bastante parecido com o de Weber. Ora, um 
indivíduo que tem poder pode usá-lo para 
manipular os outros e aumentar suas riquezas. 
Portanto, se aumentar a riqueza equivale a 
aumentar a felicidade, ter poder é importante 
para se obter felicidade. Conforme nos alerta 
James Mill:
O poder significa a capacidade de um homem para influenciar os atos de ou-
tros homens. O desejo de ter o poder necessário para transformar os seres hu-
manos em seres submissos aos nossos prazeres é uma importante lei que rege 
a natureza humana (MILL apud MACPHERSON. 1978, p. 32).
Então, vamos pensar: se a natureza huma-
na leva as pessoas a buscar riqueza em prol da 
felicidade individual, e se o poder é a capacida-
de de alguém para manipular os outros, visan-
do realizar interesses individuais, os indivíduos 
podem usar o poder de forma tirânica, em fa-
vor do próprio prazer e do sofrimento alheio. 
Mas se os indivíduos fizerem isso, se todos ten-
tarem levar vantagens em detrimentos dos de-
mais, todos tentarão ser felizes prejudicando 
a felicidade dos outros, de modo que haverá 
um grande risco de que muitos ou todos sejam 
infelizes e não felizes.
Se é assim, como é possível assegurar a 
coesão de uma sociedade baseada no com-
portamento utilitarista dos indivíduos? Para 
resolver esse problema, a ética utilitarista de-
fende a necessidade de uma legislação, isto 
é, um conjunto de leis que distribua direitos e 
deveres, de forma a orientar o comportamen-
to das pessoas para promover a maior felici-
dade para o maior número de indivíduos. 
\u25c4 Figura 19: cena em 
frente a bancos 
financeiros, mostrando 
a agitação da 
sociedade inglesa do 
séc. XIX. 
Fonte: Disponível em 
www.americaslibrary.
gov Acessado em 13 de 
setembro de 2013
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UAB/Unimontes - 2º Período
É isso que é entendido como o bem co-
mum ou a boa sociedade. Promover o bem 
comum é o grande objetivo do governo de-
mocrático. Desse objetivo maior, a teoria uti-
litarista coloca como necessários mais outros 
quatro fins subordinados, quais sejam: 
a) Garantir a sobrevivência: há um in-
centivo natural ao trabalho produtivo devido 
ao medo da morte pela fome. Por isso, cada 
um trabalhará para sobreviver. Cabe ao go-
verno apenas assegurar a previsibilidade da 
ordem social e as garantias ao direito das pes-
soas sobre o produto de seu trabalho. 
b) estimular a abundância: dada a natu-
reza \u201cgananciosa\u201d do indivíduo, o estímulo fun-
damental a este objetivo deriva da própria na-
tureza humana; todos trabalham e produzem 
e a riqueza total da sociedade será abundante.
c) Criar possibilidades para a busca da 
felicidade para o máximo de pessoas: a fe-
licidade máxima do conjunto da sociedade exi-
ge que o maior número possível de indivíduos 
tenha um montante de riqueza similar; 
d) Garantir a propriedade individual: 
manter a segurança da propriedade e a expec-
tativa individual na oportunidade de usufruir 
o produto do trabalho (BENTHAM; MILL, 1979). 
Essas proposições podem ser identifica-
das como defesa de uma sociedade liberal, 
onde há liberdade para o trabalho individual 
e para o acúmulo de riquezas. Da busca da 
felicidade individual se produz o bem-estar 
coletivo. Assim sendo, o problema político 
institucional do utilitarismo é formular um 
sistema de governo onde os governantes 
atuem de forma convergente com uma so-
ciedade de livre mercado, ou seja, liberal, que 
proteja a liberdade dos cidadãos contra go-
vernos tirânicos e corruptos.
3.3 O argumento utilitarista em 
favor da democracia
As consequências lógicas do modelo uti-
litarista nos levam a pensar que, se os seres 
humanos \u2013 inclusive os governantes \u2013 são am-
biciosos, o sistema político deve funcionar de 
forma tal a impedir os governantes de usar o 
poder para obter vantagens próprias, em de-
trimento da felicidade dos indivíduos e da co-
letividade. 
Você deve estar percebendo que essa 
preocupação é muito similar à dos Federalis-
tas, que também pensaram no governo de-
mocrático como uma forma de impedir os 
governos de desrespeitarem os direitos dos 
cidadãos. Sem dúvida, esse é um problema 
político enfrentado por todos os pensadores 
liberais. 
A solução política que os utilitaristas