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Bervely Hills, Sage, 1971 apud NUNES, Edson. A gramá-
tica política no Brasil: clientelismo e insulamento burocrático. Rio de Janeiro: Zahar, Brasília: 
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WEBER, Max. ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1982.
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Ciências Sociais - Política IV
UnIdAde 2
As teorias da democracia e suas 
conexões com a participação 
política e a ação coletiva
Paulo Magalhães Araújo
2.1 Introdução
Nos tópicos anteriores, discutimos a lógica e os fundamentos da ação coletiva, com vistas 
a entender as diversas formas de ação coletiva politicamente relevantes: os movimentos sociais, 
a formação de ONG\u2019s e de associações dos mais diversos tipos, tais como partidos políticos e 
sindicatos.
A solidariedade é um elemento essencial da ação coletiva e da democracia.
Deste ponto em diante, conforme já anunciamos, discutiremos um pouco sobre democra-
cia, que tem tudo a ver com ação coletiva e participação política. Além de buscarmos dar ênfase 
a certos conceitos de democracia, buscaremos dar destaque ao seguinte aspecto da discussão: 
as visões de democracia estão associadas a visões específicas da natureza humana e, por decor-
rência, propõem leituras diversas da ação coletiva e da participação política. 
Nossa intenção aqui não é esgotar as discussões sobre o assunto, até porque essa discussão 
está em aberto nas Ciências Sociais e é objeto de um dos mais instigantes teóricos entre sociólo-
gos e cientistas políticos. Nosso objetivo é propor dilemas, mostrar a diversidade e a riqueza do 
debate, incentivando em vocês uma visão critica e informada sobre os temas aqui discutidos.
Para isso, organizamos o texto da seguinte maneira: primeiro discutiremos a teoria clássica 
da democracia moderna, fundada na filosofia liberal clássica, do século XIX. Embora muita \u201cágua 
tenha rolado\u201d nessa discussão desde o séc. XIX, muito do que os liberais originais disseram ainda 
nos serve para entender a natureza e os fundamentos da democracia. E, claro, nos ajuda a refletir, 
também, sobre o comportamento político dos indivíduos.
Em seguida, trabalharemos com versões teóricas do sec. XX, entre as quais se destacam as 
vertentes da democracia elitista e do pluralismo democrático. Essas visões têm algo a ver com o 
liberalismo democrático, mas acrescentam elementos importantes, de natureza histórica e socio-
lógica, à discussão sobre democracia.
\u25c4 Figura 28: Pessoas 
estilizadas, abraçadas, 
representando a 
solidariedade social
Fonte: Disponível em 
http://ebenezerpente-
costal.files.wordpress.
com/2010/01/uniao-faz-a-
-forca-associacao-brasilei-
ra-de-jogadores-de-bas-
quete.jpg. Acesso em 30 
set. 2014.
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UAB/Unimontes - 4º Período
Por fim, veremos uma versão de democracia pautada em um novo paradigma: o da comu-
nicação. Enquanto as visões anteriores enfatizam \u2013 embora não de forma absoluta \u2013 a ideia de 
política como um campo de realização de interesses coletivos, a vertente \u201ccomunicativa\u201d enfa-
tiza a política como campo da expressividade. A política, aqui, seria a atividade a partir da qual 
os indivíduos se expressam e se influenciam mutuamente em público, dialogam, se entendem e 
constroem e reconstroem a sociedade cotidianamente. 
Toda essa discussão será perpassada por uma questão: a das políticas públicas. Afinal, sistemas 
democráticos têm, por definição, a função de promover políticas para o bem-estar do conjunto dos 
cidadãos, o bem-estar do público: daí o nome políticas públicas. Procuraremos indicar alguns pon-
tos importantes dessa discussão, associando-os às teorias da democracia que abordaremos.
A temática parece interessante, não? Agora, uma questão: vocês já conseguem perceber 
que as visões de democracia que abordaremos estão associadas com as discussões sobre ação 
coletiva e participação que vimos acima? Ainda não percebem claramente? Então, fazemos uma 
proposta: vamos dar mais um passo nessa caminhada!
2.2 A teoria democrática do 
século XIX: a racionalidade 
individual \u201cpré-social\u201d e a busca 
do bem comum
Uma importante vertente teórica entende que a ideia moderna de democracia é decorrente 
de uma concepção individualista de sociedade: a busca do governo democrático na modernidade 
é consequência das ideias liberais, segundo as quais as organizações sociais, sobretudo a estrutu-
ra política de uma comunidade, são produtos artificiais da vontade dos indivíduos (BOBBIO, 1986).
Podemos identificar três eventos que embasaram a formação do pensamento democrático 
moderno: 
a. o contratualismo, que postula o estado de natureza, precedente à sociedade civil, na qual 
indivíduos livres e iguais acordam entre si a constituição de um poder capaz de garantir-lhes 
a vida e a liberdade. Vocês se lembram de ter estudado o contratualismo no início do curso, 
não é mesmo? De qualquer forma, leiam o glossário ao lado. Vocês devem se lembrar, por-
tanto, de como os contratualistas\u2013 especialmente Hobbes e Locke \u2013 explicavam o surgimen-
to da sociedade e do regime político a partir de um acordo racional entre indivíduos.
b. o surgimento da economia política fundamentada na ideia de homo economicus (postulada 
por Adam Smith). Segundo esse argumento, o homem é um ser que, perseguindo o pró-
prio interesse, promove eficazmente o interesse de toda a sociedade. Adam Smith foi um 
importante teórico da economia que, afinado com os contratualistas, pretende mostrar que 
o bem-estar geral, na economia, depende do esforço de cada indivíduo, para buscar o seu 
próprio bem- estar. Para Smith, não é preciso que os homens sejam preocupados com a so-
GloSSárIo
Contratualismo: é uma 
corrente da filosofia po-
lítica que busca explicar 
a origem da sociedade 
e do estado com base 
num contrato consen-
sual entre os indivíduos. 
Antes do contrato, os 
indivíduos vivem em es-
tado de natureza, mas, 
como este estado não 
é seguro para a vida e 
para a propriedade dos 
indivíduos, eles resol-
vem firmar um contrato 
entre todos e cada um, 
para formar a sociedade 
e definir o governo. 
Figura 29: John Locke, 
Adam Smith, Jeremy 
Betham. Filósofos que 
influenciaram a teoria 
democrática liberal
Fonte: Disponível em 
http://www.orkut.
com.br/Main#Album
Zoom?uid=64293425
3765623553&pid=127
9464263954&aid=1$p
id=1279464263954. Aces-
so em 30 set. 2014.
\u25ba
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Ciências Sociais - Política IV
ciedade para que o bem social seja produzido. Ele entende que, se cada um de nós busca 
nosso próprio interesse, nós realizamos os interesses uns dos outros... E a sociedade inteira 
sai ganhando. É o que Smith chama de \u201cmão invisível\u201d. 
Imagine, por exemplo, um padeiro que acorda às três da madrugada para fazer o pão. Quan-
do você acorda e pode comprar um pão quentinho, o padeiro já está cansado de trabalhar. Mas, 
no final das contas, todos ganham: o padeiro, que ganha o seu dinheiro, e nós, que temos nosso 
pão novinho antes de irmos trabalhar para gerar outros produtos que \u2013 além do pão \u2013 são indis-
pensáveis ao bem- estar da sociedade. 
O pensamento utilitarista inglês \u2013 produzido por Jeremy Bentham, James Mill e Stuart Mill 
\u2013, que resolve o tradicional problema do bem comum, concebendo-o como a soma dos interes-
ses individuais: a maior felicidade do maior número de pessoas (BOBBIO, 1986). Essa questão é 
importantíssima, pois, em princípio, um sistema democrático visa ao bem comum. Mas, reflitam, 
o que é o bem comum? O bem de todos? É possível a gente pensar em algo que seja de fato o 
melhor para todos? Alguns filósofos