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sem canto nem música, só para 
não dar trela ao aparecimento da supersitition\u201d (WEBER 2004, p.96). 
É possível dizer que o processo de desencantamento de mundo para Weber não é sinônimo 
de secularização do mundo. Secularização pressupõe um distanciamento da religião, o que não 
se observa na visão weberiana. O desencantamento do mundo significava a eliminação da magia 
como meio de salvação, situação pouco presente na igreja Católica. O padre representava um 
\u201cmago\u201d que operava milagres, como o milagre da transubstanciação. O católico podia recorrer à 
graça sacramental de sua Igreja como meio de compensar a própria insuficiência, arrependen-
do-se dos seus pecados, realizando penitências. Essa oportunidade de descarga daquela tensão 
pessoal não era possível ao indivíduo calvinista. A religião simplesmente norteia o processo de 
desencantar, cujas consequências não se restringem ao espaço intrarreligioso. 
O segundo sentido do desencantamento do mundo se encontra no fato de a ciência não 
conseguir explicar o mundo como um todo, pois ela não nos salva, não explica o real sentido da 
vida e suas explicações são causais e temporárias. 
Este mundo não tem sentido, mostra por sua vez a ciência em avanço irrefre-
ável, pois tudo aí pode ser cientificamente explicado pelo descobrimento de 
nexos causais: cada fenômeno, cada processo, cada evento, cada ser, ah, mas 
não o todo. Que o todo da ciência não pretende captar. Ela não consegue, não 
chega lá (PIERUCCI 2003, p.58).
Conforme demonstrado por Pierucci (2003), Max Weber conseguiu com a formulação do 
conceito de \u201cdesencantamento do mundo\u201d estabelecer um nexo causal, para explicar mais do 
que o desenvolvimento da racionalidade capitalista, mas da própria modernidade ocidental. 
3.6 Conduta de vida ascética e o 
capitalismo 
Inicialmente apresentamos a constatação histórica weberiana sobre o predomínio protes-
tante entre os detentores de capital financeiro e as elevadas ocupações técnicas das empresas 
capitalistas. Para em seguida discutirmos o papel da Reforma Protestante, em especial do calvi-
nismo sobre a condução de vida intramundana. Agora, para encerrar, iremos retomar o debate 
sobre as implicações da condução de uma vida ascética para o capitalismo, e suas conseqüên-
cias, como é caso do processo de desencantamento do mundo. 
O ideal de vida cristã na Idade Média é muito bem exemplificado pela solitária vida de um 
monge em seu claustro. Sua luta contra os impulsos irracionais e os desejos da \u201ccarne\u201d era o meio 
necessário para se alcançar a misericórdia eterna. Tal atitude implicava a condução de uma vida 
metódica e disciplinada. Porém, sua atitude significava um distanciamento total do mundo, con-
sequentemente, as atitudes internas dos mosteiros pouco influenciavam o mundo lá fora. Ou 
seja, a vida cotidiana dos católicos. Com advento da Reforma Protestante, a ascese sai dos muros 
dos mosteiros e passa a fazer parte da vida diária do homem protestante, condicionando todas 
as esferas de sua vida, determinando seus gostos, suas preferências e atitudes. 
A nova atitude do protestante ascético em relação à vida possibilitou \u201cinvoluntariamente\u201d, 
ou pelo menos de forma não calculada, o surgimento do capitalismo moderno. A acumulação de 
riqueza passa a ser uma dádiva para glória de Deus. 
 A riqueza é reprovável precisamente e somente com tentação de abandonar-
-se ao ócio, à preguiça e ao pecaminoso gozo da vida, e a ambição de riqueza 
somente o é quando o que se pretende é poder viver mais tarde sem preocu-
pação e prazerosamente. Quando, porém ela advém enquanto desempenho 
do dever vocacional, ela é não só moralmente lícita, mas até mesmo um man-
damento. A parábola daquele servo que foi demitido por não ter feito frutifi-
car a moeda que lhe fora confiada parecia também exprimir isso diretamente. 
Querer ser pobre, costuma-se argumentar, era o mesmo que querer ser um do-
ente... (WEBER 2004, p.148).
ATiViDADE
É possível notar, na 
igreja católica, práticas 
da ascese extramunda-
na. \u201c... na regra de São 
Bento, e mais ainda 
entre os monges clu-
niacenses e mais ainda 
entre os cistercienses 
e, finalmente, da forma 
mais peremptória, 
entre os jesuítas, ela 
se emancipara, seja 
da fuga do mundo 
desprovida de plano 
de conjunto, seja da vir-
tuosística tortura de si. 
Tornara-se um método 
sistematicamente ar-
quitetado de condução 
racional de vida, com o 
fim de suplantar o sta-
tus naturae, de subtrair 
o homem ao poder dos 
impulsos irracionais 
e à dependência em 
relação ao mundo e à 
natureza, de sujeitá-lo 
à supremacia de uma 
vontade orientada por 
um plano\u201d (WEBER, 
2004. p.108).
- Qual a diferença entre 
a vida ascética dos 
monges católicos e os 
protestantes puritanos?
- As religiões podem 
influenciar o desenvol-
vimento econômico 
de um país? Poste sua 
resposta no fórum de 
discussão.
DiCA
Weber no seu livro \u201cA 
Etica Protestante e o 
Espírito do Capitalismo\u201d 
comparou protestantes 
e católicos da Alema-
nha e Estados Unidos 
para comprovar que a 
ascese do protestante 
culminou na mudan-
ça de mentalidade e 
consequentemente na 
formação do espírito 
do capitalismo.
39
Ciências Sociais - Sociologia II
A transformação provocada pelo protestantismo ascético favoreceu o aparecimento da con-
duta de vida burguesa, economicamente racional. Contudo, Weber (2004) aponta que muitos 
adeptos do puritanismo passaram a renegar seus velhos ideais de conduta de vida ascética. Após 
acumular grandes fortunas, cederam aos requintes luxuosos e ao consumo desenfreado. Ocorreu 
uma mudança da busca por virtudes religiosas e a consequente acumulação, para uma racionali-
zação de vida sem a busca de \u201cDeus\u201d, utilitária em seus objetivos. 
3.7 Weber e a sociologia da 
religião 
Vimos na unidade anterior que toda religião influencia aspectos que vão além do culto pro-
priamente dito. A ordem social e econômica pode ser profundamente marcada por característi-
cas especificas de cada religiosidade. No caso do puritanismo europeu, sua ética particular pos-
sibilitou as bases para o surgimento do capitalismo moderno. Agora iremos apresentar alguns 
estudos que Max Weber realizou sobre as religiões da Índia, China e o Judaísmo. A abordagem 
realizada de diferentes religiões possibilita-nos entender a individualidade histórica das mesmas, 
além de constituir um importante \u201cespelho\u201d para visualizar sob outras perspectivas a religiosida-
de do mundo ocidental. 
O conjunto de trabalhos realizados por Weber sobre as religiões do oriente e o judaísmo foi 
intitulado de a \u201cA ética econômica das religiões mundiais\u201d, os estudos representam uma continu-
ação do trabalho anterior sobre a \u201cética protestante\u201d e o \u201cespírito do capitalismo.\u201d Segundo Gid-
dens (1990), os estudos sobre as religiões mundiais não constituem uma tipologia sistemática da 
religião. Assim como nos estudos sobre as religiões protestantes, Weber procura focalizar a lógica 
interna da \u201cética\u201d religiosa e suas consequências no comportamento individual. Porém, deve-se 
levar em consideração que as regras religiosas são uma das múltiplas influências que condicio-
nam a atitude do indivíduo e da própria formação de uma ética econômica.
3.7.1 Onde nascem as religiões
Mas qual a definição que poderíamos dar 
para religião, segundo Weber? A atitude do ho-
mem de se comunicar com as divindades atra-
vés da oração, adoração e suplica, caracteriza a 
religião, que se contrapõe à magia, onde as for-
ças mágicas não são adoradas, mas submissas às 
necessidades dos homens através de encanta-
mentos e fórmulas. As diferenças entre religião 
e magia são materializadas na distinção entre 
sacerdotes e mágicos. Os sacerdotes constituem 
um corpo de funcionários permanentes que são 
responsáveis pela manutenção do culto, estrutu-
ra não observada entre mágicos e