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enciumado. Cada pessoa sente ciúmes em graus diferentes, por motivos diferentes, e também se 
comporta de formas diferentes frente às situações. Ninguém é idêntico a outro nesses pontos. O 
que exatamente o rapaz do nosso exemplo vai sentir ou fazer, só o eu dele poderá saber. 
No entanto, a menos que o referido moço \u201cperca a razão\u201d por excesso de ciúmes, seu eu \u2013 
como qualquer um de nós numa situação similar \u2013 será afetado pelo seu mim ao avaliar a cena 
e escolher a reação a ser adotada. Isso quer dizer que o rapaz \u2013 e cada um de nós, no seu lugar 
\u2013 reflete sobre qual seria a conduta adequada, socialmente compreensível, para sair da desagra-
dávelsituação de ciúmes. 
Algumas vezes, indivíduos enciumados se calam no momento, controlam seus impulsos de 
raiva, com uma justificativa do tipo \u201croupa suja se lava em casa\u201d; outras vezes, eles tomam satisfa-
ções públicas com a alegação de que \u201cnão levam desaforo para casa\u201d. No primeiro caso, a pessoa 
enciumada opta por ser educada, por não parecer grosseira em público; no segundo caso, ela 
opta por \u201cproteger sua honra\u201d, sinalizando para os envolvidos na cena que não tolerara uma trai-
ção. Note que, em ambos os casos, há valores sociais envolvidos na reação do eu: no primeiro, a 
expectativa de um comportamento civilizado, polido; no segundo, a convicção de que um com-
portamento social inadequado, como a traição, deve ser publicamente reprovado. 
Essa influência dos parâmetros sociais de conduta nas decisões do eu decorre da presença 
do mim como um elemento constitutivo do self. É no nosso mim que os valores sociais se apre-
sentam, influenciando as escolhas, as atitudes, as ações do nosso eu!
Se você puxar pela memória, se lembrará de inúmeras situações em que o seu eu e seu mim 
produzem incentivos claramente distintos para seu self. Seu eu gera vontades de agir, e seu mim 
elabora reflexões baseadas em valores éticos e morais e em suas experiências de vida, propon-
do, então, parâmetros de conduta para barrar sua ação ou para conduzir seu comportamento em 
certa direção. Se você está de dieta e se depara com um alimento que você adora, mas é calórico 
demais, seu eu sente vontade de comer, mas seu mim faz você pensar duas vezes antes de deci-
dir. Seu eu, no entanto, dá a última palavra: é seu eu que vai determinar se você interrompe ou 
não a dieta. 
Você certamente já viu em filmes, novelas ou propagandas pessoas sendo influenciadas por 
um \u201cdiabinho\u201d em um ombro e um \u201canjinho\u201d no outro. O primeiro dá maus conselhos; o segundo, 
bons conselhos. Ao final, é a pessoa que tem de agir, escolher entre o \u201cbem\u201d e o \u201cmal\u201d. Essa é uma 
maneira simples, mas boa de representar as relações entre o eu e o mim no self: O mim, social-
diCA
Em algumas situações 
de forte apelo emocio-
nal, as pessoas agem de 
forma descontrolada: 
dão escândalos ou têm 
surtos de fúria etc. A 
gente diz que a pessoa 
está agindo \u201ccega-
mente\u201d e isso não é à 
toa. Com isso, muitas 
vezes sem sabermos, 
estamos dizendo que o 
\u201ceu\u201d da referida pessoa 
não está em harmo-
nia com o seu \u201cmim\u201d. 
O seu desejo de agir 
(originado no \u201ceu\u201d) não 
sofre limites da sua 
capacidade de avaliar 
a conveniência ou a 
razoabilidade da ação 
(função domim).
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UAB/Unimontes - 3º Período
mente orientado, diz o que é bom e o que é ruim, o eu decide qual dos dois vai escolher e, então, 
decide como vai agir.
Outro ponto interessante na relação entre o eu e o mim é que, uma vez adotada a ação pelo 
eu, ela se torna parte do passado. Deixa de ser parte do eu e passa a fazer parte do campo de 
experiências que constituem o mim. Nas escolhas futuras, o mim mobiliza as experiências vividas 
pelo indivíduo para orientar suas novas escolhas (Pearson, 1972). Todos nós aprendemos com 
nossas experiências, não é mesmo? Aprendemos, por exemplo, que bombom engorda e com-
promete nosso objetivo de manter o peso. Pois é. Aprendizados como esse, que adquirimos em 
nossas próprias experiências, assim como o aprendizado que temos com ensinamentos dos ou-
tros, na vida social, fazem parte do nosso mim.
O mais importante aqui é frisarmos que o self de uma pessoa é dividido entre eu e mim, que 
se comunicam o tempo todo um com o outro. Isso quer dizer que, em cada ação, gesto, compor-
tamento, o indivíduo fala consigo mesmo! Veja bem: ele sente vontades, desejos, tem sonhos, 
mas não os realiza sem refletir, sem ponderar os prós e os contras. Ora, ponderar os prós e os 
contras equivale a pensar nas consequências das ações sobre nossa vida presente e futura, bem 
como sobre a vida das pessoas com quem nos relacionamos. 
Portanto, enquanto o eu atua, o mim avalia o sujeito de fora, como os olhos dos outros. 
Como já dissemos, o indivíduo plenamente socializado tem um self bem constituído, e isso signi-
fica que ele sabe muito bem se colocar no lugar do outro para avaliar-se a si mesmo, do ponto de 
vista do outro.
Mas, veja bem: se o indivíduo \u201cfala consigo mesmo\u201d antes de agir, isso significa que ele não 
obedece cegamente aos imperativos ou normas sociais. Na verdade, ele reflete sobre esses im-
perativos, ele escolhe que imperativos seguir e pode até mesmo escolher não seguir nenhum. 
Pode, simplesmente, criar novas formas de comportamento ainda não previstas na sua socieda-
de. Enfim, embora as normas sociais \u2013 apreendidas pelo mim \u2013 influenciem as manifestações dos 
desejos e objetivos \u2013 elaborados no eu \u2013 dos indivíduos, nunca se sabe ao certo qual será a rea-
ção de uma pessoa específica numa situação específica. Não sabemos sequer como nós mesmos 
reagiremos em certas situações, pois o nosso eu é, em certos momentos, imprevisível até mesmo 
para nós! Isso faz com que as consequências das relações entre o eu e o mim, estabelecidas no 
self de cada indivíduo, tenham uma dose considerável de imprevisibilidade!
Aqui, finalmente, podemos entender porque Mead e Blumer se distanciam de Durkheim, no 
tocante à relação entre sociedade e indivíduo. No interacionismo simbólico, os comportamentos 
dos indivíduos têm um sentido social, mas não são socialmente determinados! O indivíduo, ao 
diCA
Para conhecer um 
importante desdobra-
mento do interacionis-
mo simbólico, leia o se-
guinte livro: GOFFMAN, 
Erving. A	representação	
do	Eu	na	Vida	Cotidiana. 
Rio de Janeiro: Vozes, 
1985. O autor dessa 
obra fez mestrado e 
doutorado na Universi-
dade de Chicago, sendo 
influenciado por Mead 
e outros grandes no-
mes da chamada Escola 
de Chicago. Nesse livro, 
Goffman analisa a vida 
social como se tudo 
fosse um grande teatro 
e o comportamento 
dos indivíduos fosse 
uma ininterrupta e 
cotidiana interpretação 
de papéis. Interpreta-
ção por meio da qual 
os indivíduos formam 
seu \u201ceu\u201d e o projetam 
socialmente. Por sua 
analogia com a dinâmi-
ca da dramatização tea-
tral, o ator formula uma 
teoria lançando mão 
de termos próprios do 
teatro, como \u201dpalco\u201d, 
\u201ccena\u201d, \u201cinterpretação\u201d, 
\u201cprotagonista\u201d, \u201cdrama\u201d, 
\u201cbastidores\u201d, \u201cscript\u201d etc.
Figura 13: Diabinho 
e anjinho como 
conselheiros: uma boa 
metáfora da relação 
entre eu e mim.
Fonte: Disponível em: 
http://2.bp.blogspot.
com/__6bBwTlXkQU/
SVQ44B0XloI/AAA-
AAAAABx0/jNJZ2R-
ZuVMU/s320/Natal+-
-+anjinho+e+diabinho.
bmp Acesso em 03 out. 
2009.
\u25ba
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Ciências Sociais - Sociologia III
falar consigo mesmo, isto é, ao refletir, escolhe se vai agir ou não conforme os preceitos sociais. 
Ele reflete sobre as conveniências de obedecer às expectativas da sociedade e, então, toma sua 
decisão! E ele pode escolher sair do padrão de comportamento socialmente esperado!
Mead ressalta que, devido a essa considerável liberdade do indivíduo para interpretar a so-
ciedade e agir nela, cada pessoa participa da recriação constante da sociedade em que vive: re-
interpretando-a, reconstruindo-a, no dia a dia, muitas vezes sem perceber os efeitos transforma-