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sociais se estabe-
lecem. 
Portanto, a linguagem nos permite criar descrições comuns das coisas que vivenciamos ou 
experimentamos, mesmo quando, de fato, nossos pensamentos ou sensações sobre tais coisas 
não são idênticos aos das outras pessoas. 
O fato é que ninguém percebe ou sente a realidade da mesma forma que os outros. Os pen-
samentos das pessoas não são iguais, nem mesmo quando estão falando da mesma coisa, por 
exemplo, sobre uma dor de cabeça. Cada um de nós vive experiências subjetivas \u2013 sensações, 
pensamentos, emoções \u2013 que são inacessíveis aos outros, mas que nós tentamos \u201ccompartilhar\u201d, 
através da linguagem, por processos de entendimento dialógico que são construídos entre os 
atores sociais. Desse modo, uns podem compreender os outros e, assim, o mundo adquire um 
sentido considerado idêntico para todos. Repare que, nesse parágrafo, colocamos \u201ccompartilhar\u201d 
entre aspas, porque, como dissemos, às vezes não sabemos exatamente o que a outra pessoa 
está tentando expressar através da linguagem, mas supomos que sabemos e, assim, a interação 
segue. Pensem bem: apenas quando as atitudes ou falas do outro nos parece ser absurdas ou 
incompreensíveis é que costumamos pedir explicações ou esclarecimentos, não é? Se não, leva-
mos o diálogo adiante, e vamos tentando entender a pessoa à medida que a conversa segue...
diCA
Quando lemos um 
texto, é comum encon-
trarmos uma palavra 
que a nunca vimos, mas 
que, apesar disso, não 
precisamos olhar no 
dicionário para saber o 
que ela significa, pois 
seu sentido fica claro no 
contexto da leitura. Na 
verdade, é assim que 
aprendemos a falar: os 
bebês e as crianças no-
vinhas não olham nos 
dicionários para saber 
o que os adultos estão 
falando. Pouco a pouco, 
as palavras vão fazendo 
sentido no contexto 
prático das interações 
sociais que as crianças 
vivem. Assim, as crian-
ças, à medida que cres-
cem, vão aprendendo 
a usar as palavras de for-
ma prática, sem refletir 
sobre o seu significado. 
Enfim, o aprendizado 
social da linguagem, 
como o de várias outras 
práticas sociais, se dá de 
forma automática, no 
dia a dia, à medida que 
atuamos nas interações 
sociais!
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UAB/Unimontes - 3º Período
Com tudo que foi discutido até aqui, nós podemos entender melhor a origem das ideias que 
ajudaram Garfinkel a estabelecer três pilares básicos da etnometodologia. São eles: 
(a) o enfoque na vida cotidiana: as ações do dia a dia são a base da dinâmica social; é na 
vida cotidiana que os indivíduos estabelecem as relações sociais fundamentais, retificam com-
portamentos e valores ou os modificam, conforme suas interpretações do contexto social.
(b) a metodologia da \u201credução sociológica\u201d: se o sentido da vida social e da ordem social 
é construído nas ações cotidianas, na rotina dos indivíduos, então, é preciso reduzir o enfoque 
sociológico, ou seja, é preciso deixar de dar atenção exclusiva às grandes estruturas, como classe, 
gênero, Estado etc. É preciso dar atenção às ações mais simples e corriqueiras do dia a dia das 
pessoas.
(c) a relevância da linguagem na análise das interações sociais: se as interações cotidia-
nas são um objeto de estudo central na pesquisa sociológica, então, a linguagem praticada pelos 
membros da sociedade \u2013 isto é, suas falas, gestos e feições etc. \u2013 deve ser analisada com atenção, 
pois a interação social cotidiana se dá através da linguagem. É através da linguagem que os indi-
víduos externalizam o que pensam sobre a vida social.
3.4 As bases da ordem social 
segundo a etnometodologia 
Com base nas ideias acima, podemos tentar entender, afinal, porque existe ordem na vida 
social. Para conectar a discussão desse tópico com as discussões dos tópicos anteriores, deve-
mos começar por apresentar um conceito central na etnometodogia: a noção de membro. Essa 
palavra oferece uma importante pista para entendermos as bases da ordem social, ou seja, para 
entendermos porque a sociedade existe e porque a vida social não é caótica. 
Se pensarmos na discussão sobre a importância da linguagem na vida social, veremos que 
não foi em vão que Garfinkel substituiu o termo \u201cindivíduo\u201d, utilizado por outros sociólogos, pelo 
termo \u201cmembro\u201d. Podemos perceber que o primeiro termo não tem o sentido relacional implícito 
no segundo. Observe que todo membro é parte de alguma coisa; já a palavra indivíduo não tem 
essa mesma valência.
Em outras palavras, quando alguém diz \u201ceu sou um membro\u201d, os demais vão querer saber: 
membro de quê, de qual grupo ou de qual sociedade. No entanto, se alguém diz \u201ceu sou um in-
divíduo\u201d, não há necessidade de se fazer tais perguntas, porque \u201cindivíduo\u201d é uma palavra que 
designa algo completo em si mesmo, de forma que não pede complementaridade de sentido.
diCA
Façam suas reflexões 
sobre as colocações:
Está claro que, neste 
texto, quando estamos 
falando de linguagem, 
não nos referimos ape-
nas à linguagem falada 
ou escrita. Há muitas 
outras formas de se 
comunicar: por gestos, 
desenhos, feições etc. 
Até mesmo o silêncio 
é, às vezes, bastante 
expressivo de algo que 
estamos sentindo. Por-
tanto, os membros de 
uma sociedade se co-
municam não somente 
através das palavras, 
mas também através de 
outros sinais sonoros 
ou corporais que ex-
pressam pensamentos 
ou estados de espírito. 
Você já reparou que 
quanto mais temos 
intimidade com uma 
pessoa, mais somos 
capazes de \u201cadivinhar\u201d 
o que ela está pensan-
do apenas observando 
seus movimentos ou 
expressões faciais? Na 
vida social também é 
assim: quanto mais um 
indivíduo se familiariza 
com sua cultura, mais 
ele é capaz de entender 
outros sinais, que não a 
linguagem falada, dos 
demais membros da 
sociedade.
Figura 20: Crianças 
brincando. A 
infância é uma fase 
fundamental no 
aprendizado dos 
códigos sociais, 
e as brincadeiras 
são atividades 
fundamentais no 
aprendizado infantil.
Fonte: Disponível em: 
http://tbn3.google.com/
images?q=tbn:lqhH7N
U0jaOI0M:http://static.
hsw.com.br/gif/unders-
tanding-cognitive-and-
-social-development-in-
-a-newborn1.jpg.Acesso 
em 03 out.2009.
\u25ba
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Ciências Sociais - Sociologia III
Devemos sempre ter em mente que, conforme ensina a fenomenologia, as experiências 
subjetivas de um indivíduo são inacessíveis aos outros. Nós podemos sentir as mesmas sensa-
ções que os outros, mas nunca saberemos disso com certeza. Para isso, como dissemos, seria ne-
cessário entrar na cabeça das outras pessoas..., mas não temos essa capacidade!
Como lembra Coulon: Os homens [e mulheres] nunca têm, seja lá como for, experiências 
idênticas, mas supõem que elas sejam idênticas, se comportam como se fossem idênticas para 
todos os fins práticos (COULON, 1995:12). Portanto, a única ligação possível entre os indivíduos, 
membros de determinada sociedade, é o domínio comum da linguagem por meio da qual as 
vivências e as visões de mundo são expressas e coordenadas e o conhecimento dos indivíduos é 
socialmente compartilhado. 
Como deve ter ficado claro, quando falamos das ideias de Schutz, esse compartilhamento 
social do conhecimento se dá nas conversações cotidianas (e tais conversações se baseiam nas 
regras de linguagem dominadas pelos membros de uma sociedade). Mas Schutz também afirma 
que a linguagem não possibilita a introdução direta das vivências e experiências de um indivíduo 
(ego) na consciência de outro indivíduo (alter).	Portanto, a eficiência das conversações, dos diá-
logos, se deve à sua capacidade de remeter as experiências particulares de ambos (ego	e alter)	a 
um pano	de	fundo comum, historicamente constituído, que serve de parâmetro à interpretação e 
à comparação subjetiva. 
Então, vejamos: a linguagem nos remete a um pano de fundo comum de nossas expe-
riências na vida em sociedade. Ou seja, quando eu digo alguma coisa, estou