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de exigência das empresas, implican-
do aumento dos serviços técnicos e de trabalhadores mais qualificados, com maior conhecimen-
to sobre os produtos comercializados. As mudanças tecnológicas e organizacionais, num contex-
to de alto nível de concorrência, alteram a estrutura das qualificações, ocorrendo uma tendência 
à elevação do seu nível médio e à redefinição das tarefas e dos perfis profissionais (DELUIZ, 1995; 
CASTRO, 1993; SALM, 1998).
A automação rígida, que caracterizava o modelo produtivo fordista, estava orientada para a 
produção de grandes lotes de produtos homogêneos, enquanto a nova lógica de concorrência 
intercapitalista, instituída pelas empresas por meio da diferenciação de produtos, exigiria uma 
estrutura produtiva mais flexível, devido ao lançamento de distintos modelos, seja estética, seja 
funcionalmente. Como consequência desse processo, emergiu, por parte das empresas,a exigên-
cia da qualidade dos produtos e, para isso, elas passaram a apresentar novos requisitos para con-
tratação de trabalhadores que se traduziram num perfil de qualificação sempre mais complexo 
(MATTOSO, 1995).
O conceito de flexibilidade vem atender às exigências de um sistema de produção que de-
pende, cada vez mais, de sua capacidade de inovação e da busca de novos produtos. A flexibi-
lidade permite uma capacidade maior de ajustamento da estrutura de oferta das empresas a 
exigências de mercados menores e segmentados, num estágio em que a demanda passa a se 
\u25c4 Figura 31: 
Manufacturing # 17, 
Deda Chicken Processing 
Plant, Dehui City, Jilin 
Province, China, 2005.
Fonte: Disponível em 
http://www.edwardbur-
tynsky.com. Acesso em 
14/05/2014.
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UAB/Unimontes - 3º Período
caracterizar pela instabilidade e pela volatilidade (CORIAT apud DELUIZ, 1995). Nas práticas de 
emprego, assinala Coriat, a flexibilidade demonstra a ampla variedade de meios para tornar os 
contratos de trabalho mais flexíveis em busca de maior qualidade e competitividade. De acordo 
com Cacciamali apud Deluiz, 1995, a flexibilidade é o salto qualitativo no plano tecnológico im-
presso pela introdução da microeletrônica no processo de produção. A partir dela, cria-se a pos-
sibilidade de produzir um número de lotes de produtos manufaturados diversificados, pondo fim 
à rigidez imposta aos processos de produção pelo fordismo.
Em outras palavras, o processo de produção orientado de acordo com a demanda, e não 
mais com a oferta de produtos e serviços, exigiu modificações rápidas na forma de organizar o 
trabalho de modo a obter respostas ágeis dos trabalhadores na lida com as novas condições de 
produção. As novas tecnologias físicas, de base microeletrônica, passaram a demandar, para sua 
potenciação, trabalhadores que pudessem explorar suas várias possibilidades. As novas tecno-
logias organizacionais, baseadas nos critérios de flexibilidade e integração da produção, preci-
savam de trabalhadores multifuncionais, criativos, com capacidade de comunicação e capazes 
de manter altos níveis de produtividade, principalmente diante de situações que se modificam 
rapidamente. As novas condições de realização do trabalho requeriam, portanto, um trabalhador 
que pudesse se manter produtivo, mesmo em condições de trabalho que se alteram com grande 
frequência.
Se no fordismo o aspecto principal da formação profissional relacionava-se ao treinamento 
em tarefas repetitivas e rotineiras, no pós-fordismo a formação foi redirecionada, pelas empresas, 
para a competência do trabalhador, o qual passa a ser considerado o responsável, no nível pes-
soal, pelo seu trabalho.
Compreender o termo competência é tarefa importante no estudo que direciona o para-
digma que orienta a formação dos trabalhadores nesta nova etapa do capitalismo.Deluiz (2001), 
Ferretti (1997) e Tanguy (1997) mostram que a palavra competência surgiu no contexto da crise 
do modelo de organização taylorista/fordista, com o processo de mundialização da economia, de 
exacerbação da competição nos mercados e de demandas de melhoria da qualidade dos produ-
tos e de flexibilização dos processos de produção e de trabalho. Nesse cenário, as empresas pas-
saram a usar e a adaptar as aquisições individuais da formação, sobretudo a escolar, em função 
de suas respectivas exigências. A aprendizagem passou a ser orientada para a ação e a avaliação 
das competências, baseando-se, assim, em resultados observáveis.
Como explica Ferreti (2000), tratado como um conjunto de atributos, o conceito de compe-
tência envolve saberes, saber-fazer e saber-ser. A autora esclarece que o uso da noção de com-
petência pela formação educacional deve-se ao fato de que tal noção seria capaz de promover 
o encontro entre trabalho e formação. No plano do trabalho, ocorre o deslocamento do conceito 
de qualificação em direção ao conceito de competência. A competência, por sua vez, é defini-
da em relação aos processos de trabalho que os sujeitos deverão ser capazes de compreender 
e dominar (FERRETI, 2000). Para a autora, o movimento de definição de um modelo centrado na 
competência encontra sua expressão inicial no ensino profissionalizante e é resultado do com-
prometimento mais imediato dessa modalidade de qualificação com os processos de produção, 
impondo-lhe a necessidade de justificar a validade de suas ações e de seus resultados.
De acordo com Stroobants, a partir do grande avanço das forças produtivas, fruto da inten-
sificação da aplicação da tecnologia baseada na microeletrônica, a década de 1980 vai sinalizar 
para a valorização do trabalho industrial e para o surgimento de um \u201cnovo paradigma\u201d de análise 
das relações entre tecnologia, trabalho e qualificação: o da \u201cflexibilidade auxiliada pela compe-
tência\u201d (STROOBANTS apud DELUIZ, 1995, p. 43). Dessa forma, o saber perde seu estatuto de ob-
jeto para ganhar em atributo do sujeito, a relação cognitiva tende a se definir sobre o modo de 
ser (competente) e não mais no ter (conhecimento).
O deslocamento da qualificação para a competência tem uma estreita correspondência com 
o nível de desenvolvimento teórico e prático alcançado pela sociedade contemporânea e com as 
exigências daí decorrentes, tais como criatividade, capacidade e iniciativa e decisão, pensamen-
to lógico-abstrato. Trata-se de um processo que se dá junto à reestruturação do capitalismo, a 
partir da emergência dos modelos de organização do trabalho baseados em critérios de integra-
ção e de flexibilidade do processo produtivo. A pedagogia da competência surge da necessidade 
dos sistemas flexíveis e integrados de produção e a capacidade inovativa das empresas, fator es-
sencial para a sua competitividade. Depende, portanto, da organização do trabalho contar com 
trabalhadores que consigam adaptar-se às permanentes flutuações do mercado, dos produtos e 
das próprias formas de organização do trabalho.
GLOSSÁRiO
Flexibilidade: enten-
dida não só no aspecto 
técnico, mas também 
flexibilidade funcional 
e a flexibilidade nas 
práticas de emprego 
e integração por parte 
do trabalhador (Coriat 
apud Deluiz, 1995).
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Ciências Sociais - Política III
A partir da noção de competência associada à tese da requalificação da força de trabalho, 
empresas e governos elaboram um novo discurso sobre a formação profissional que deve ser 
oferecida aos trabalhadores. Trata-se de uma formação que seja capaz de responder às novas 
demandas do mercado de trabalho, caracterizada pelas novas condições delineadas com o pós-
fordismo, tais como competitividade e flexibilidade. É esse o referencial que passa a orientar a 
formulação de políticas públicas de emprego.
Portanto, com a mudança do conceito de qualificação para competências, não se trata mais 
de uma qualificação formal, para desenvolver tarefas relacionadas a um posto de trabalho, mas 
da qualificação real, ou seja, novas formas de organização do trabalho requerem dos trabalhado-
res